NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Adele - A voz da Inglaterra

Cria do maior celeiro de estrelas da música pop atual, o site Myspace, Adele Adkins, 20 anos, pode ser considerada a detentora de uma das vozes mais interessantes do ano, ou como confere o veredito dos maiores jornais ingleses, entre eles o Times e o Observer, a voz da Inglaterra de 2008. A moça, influenciada por divas do jazz e do soul como Etta James e Ella Fitzgerald, no entanto, ainda tenta se acostumar com o peso do sucesso. Afinal, Adele foi premiada, em dezembro de 2007, como a Escolha da Crítica na maior festa da música inglesa, o Brit Awards, assim como alcançou o topo da lista anual realizada pela rede britânica BBC, em parceria com mais de 150 especialistas da música pop, que a indicaram como a maior promessa do ano.

– É muito estranho partir de uma posição em que ninguém conhece você e de repente ser reconhecida por milhares de pessoas. Então, realmente isto não é natural para mim – afirma Adele.

De aposta a realidade da música pop, seu disco de estréia, 19, lançado mês passado, nos Estados Unidos – e que sai no Brasil até o fim deste mês pelo selo paulista Flammil, responsável também pelo lançamento nacional de In rainbows, do Radiohead –, entrou no top 100 da Billboard, o que rendeu a moça apresentação no talkshow de David Letterman, resenhas favoráveis em prestigiosas publicações, além de um generoso impulso às vendas do disco, que já atingiram mais de meio milhão de cópias vendidas.

– Tudo ainda é muito esquisito. No entanto, desde a primeira vez em que pus as mãos em um microfone, aos 14 anos, soube de imediato o que gostaria de fazer da vida. – A maioria das pessoas não gosta de ouvir sua própria voz em gravações. Já eu fiquei extremamente excitada com todo o processo que não me importei sobre como minha voz soava. Eu sempre quis ser o centro das atenções – revela.

Sentada à mesa de um restaurante em Sheperds Bush, lado oeste de Londres, enquanto esperava seu empresário para um jantar de negócios, a cantora dedicou seus poucos minutos de descanso para esta conversa virtual. Dividindo sua atenção entre olhadelas no cardápio e as teclas de seu laptop, nesta entrevista a moça ainda demonstra desconforto com a fama e a exposição de uma estrela ascendente da música pop.

LFR: Na sua opinião qual seria a razão para essa resposta positiva e tão rápida em relação a sua música?

A: Talvez seja porque eu escreva canções que todo mundo possa fazer relações, ou porque sou muito falante em entrevistas e porque eu sou realmente uma artista de palco!

LFR: '19' foi lançado no início do ano com algumas canções disponíveis em seu Myspace. Até que ponto estas novas ferramentas virtuais auxiliam seu trabalho e contribuem para alterar os rumos do mercado fonográfico?

A: Acho que sites como Myspace, Youtube e a internet como um todo mudaram completamente a indústria da música, já que a música e os artistas são muito mais acessíveis hoje em dia. Como ferramenta, os artistas podem manter contato com seus fãs em um nível de intimidade diária! Amo a idéia de ser uma artista fruto de todas estas mudanças.

LFR: Mesmo antes de lançar um único single você já havia se apresentado em famosos programas da TV inglesa, caso do musical Jools Holland e do talkshow de Jonathan Ross. Além disso, parcerias com Mark Ronson já haviam sido tecidas, contrato assinado com a XL Recordings assinado, além de ter se apresentado ao lado de artistas como Devendra Banhart, Amos Lee e Raul Midon. Sua música se tornou conhecida antes mesmo de qualquer lançamento oficial. Como vê isso?

A: Acho que na época em que tudo isso aconteceu havia muita falação sobre mim e eu era a única nova garota no momento que estava realmente lutando para fazer as coisas antes de o álbum estar terminado.

LFR: Escrevo do Brasil, onde posso escutar as suas músicas sem pagar um único centavo. Fato que me deu a oportunidade de conhecer um artista novo e escrever sobre ele. Há algum tempo não teríamos essa velocidade e quantidade de informações disponíveis. Como lida com isso?

A: Acho que isto é encorajador. Se você não pudesse me ouvir pelo Myspace, ou se ninguém tivesse acesso à minha música tudo isso iria levar um tempo muito maior para acontecer. Acho que isso mostra o quanto você pode atingir e conquistar em um curto espaço de tempo.

LFR: Os arranjos do seu disco são até certo ponto minimalistas. Violões acústicos e suas linhas vocais estão a todo o tempo na linha de frente. De onde veio a idéia ou conceito de fazer um disco baseado quase que exclusivamente em sua voz?

A: Pois na verdade sou melhor cantora do que musicista. Eu escrevo todas as minhas canções, mas eu ainda tenho muito o que desenvolver e até que eu esteja pronta o meu trabalho será sempre guiado pela minha voz. Ainda não estou pronta para escrever o meu Dark side of the moon. Ainda!

LFR: Quem são os artistas que, por admiração e influência acabaram contribuindo para a construção da sua sonoridade e o seu jeito de cantar? Etta James, Ella Fitzgerald, música folk, soul...

A: Realmente não gosto de música folk. Gosto de soul e pop. Meu artista predileto é Etta James porque simplesmente amo sua voz, seu fraseado e suas canções. Aprendi a cantar sozinha, auto-didata, ouvindo Etta e outras grandes cantoras, como Ella Fitzgerald. Então minha voz vem de representar elas por muitos anos e, eventualmente, fazendo isso da minha maneira. Acho que há pegadas marcantes dessas influências na minha voz.

LFR: Qual foi o ponto de partida para que a música tomasse posição central em sua vida?

A: Cantar é algo que sempre fiz. Não importa se durante o banho ou em cima de um palco, no carro ou num disco. Eu amo cantar, além disso, não tenho paixão por nada. O momento de transição foi quando pude perceber que cantar realmente poderia ser minha carreira e que eu poderia me dar bem foi quando meu álbum foi lançado e entrou em primeiro lugar nas paradas inglesas. Aí é quando tudo fica em casa!

LFR: Você conta com uma voz limpa e um estilo de canto repleto de influências dos antigos cantores de soul e blues. Como aprendeu a separar o que era influência daquilo que mais tarde estabeleceria como a sua maneira de interpretar?

A: Cresci interpretando outras cantoras, isso foi até os meus 16 anos, quando comecei a compor minhas próprias canções que minha voz passou a ter i meu registro. Foi aí que me encontrei! O estilo blues e melodioso sempre esteve comigo.

LFR: Vamos falar um pouco sobre suas composições. De que maneira seu estado de humor afeta seu processo de escrita? O que lhe inspira a compor?

A: Meu humor realmente afeta o modo e quando faço minhas canções. Se estou de bom humor não consigo escrever nada, porque estou na noitada me divertindo! Haha Tenho que estar triste para compor, algo que realmente me afete e me abele. Tentei inventar situações para escrever ou escrever sobre algo que aconteceu a alguém. Mas o problema é que nunca dei significado sincero ou consegui passar as histórias com convicção. Então minhas músicas são sempre pessoais e sempre sobre amor ou ódio!

LFR: Quando começou a escrever esse álbum? Onde ele foi gravado?

A: Eu tinha apenas três canções quando assinei meu contrato. Não escrevia mais canções até maio de 2007. Escrevi o álbum a partir destas três canções durante o mês de maio. Gravamos tudo em Londres, nos estúdios Rak, Konk e Metropolis.

LFR: Fale um pouco sobre sua experiência em estúdio. Como foi o processo de gravação do disco? Suas músicas soa intimistas... era este o clima predominante durante as sessões?

A: Adoro estar em estúdio. Amo tocar ao vivo, mas prefiro ficar no estúdio. É mais relaxante e minhas idéias fluem muito bem quando estou gravando! Gravamos o disco rapidamente, só posso dizer que foi o período mais divertido da minha vida!

LFR: Você trabalhou com três produtores musicais. O que cada um deles trouxe para o álbum em relação aos arranjos e instrumentos usados? Qual a diferença no trabalho de cada um?

A: Eles são muito diferentes. Jim gravou as canções mais simples e acústicas. Ele me deu coragem para fazer tudo aquilo que eu achava que iria funcionar. Eu e Eg escrevemos nossas canções em parceria, apenas colocamos nossas idéias para fora e depois as juntamos. Ele é muito rápido e sai derramando idéias a todo momento. Mark Ronson fez minhas canções serem como elas são. Escrevi 'Cold shoulder' com um teclado Whirlitzer, mas queria adicionar algumas batidas e sabia que ele seria a pessoa certa!

LFR: O que a inspirou para escrever as canções 'Daydreamer', 'Chasing pavements' e 'Cold shoulder'?

A: 'Daydreamer' é sobre meu ex-namorado que era bissexual. Uma experiência assustadora, pois de qualquer maneira sentia ciúmes. Eu não teria energia suficiente para lutar e competir contra homens e mulheres. Então a música é sobre minha fantasia do que eu queria que ele fosse. 'Chasing pavements' é sobre uma discussão que tive com meu ex-namorado. Eu fugi e ele não me perseguiu e eu não estava perseguindo ninguém, apenas um espaço vazio. Já 'Cold shoulder' é sobre o final do relacionamento com o ex-namorado detalhado em 'Chasing pavements', sobre quando ele decidiu ficar com uma outra garota!

LFR: Certa vez você disse à imprensa que suas letras são como poemas. Muitas de suas linhas são resultados de fragmentos literários e de suas leituras, ou apenas resultado de experiências pessoais?

A: Não leio livros ou poesias. É tudo sobre experiências pessoais!

LFR: Como vê o papel da imprensa musical britânica, em especial o semanário New Musical Express, que impulsiona novos artistas toda semana como sendo novos Beatles? Além disso, todo mês um novo gênero musical é inventado e uma nova classificação surge como a nova moda. Como vê tudo isso? Acha que perderam completamente o bom senso com esta noção de hype?

A: Não, apenas acho que eles não podem segurar a onda! Acho que eles estão querendo o controle de algo que é completamente fora do alcance deles. E eles tentam dar conta categorizando todo mundo! Acho que eles estão tão excitados que querem ter o controle de tudo.

LFR: Vivemos uma era de multiplicidades, também na música, onde mash-ups e misturas de ritmos e gêneros formam os tais novos termos inventados pela imprensa. Sua música, até certo ponto intimista e repleta de silêncios, é uma reação consciente a essa sonoridade moderna, complexa e dançante em voga atualmente na Inglaterra?

A: Escrevo canções que gosto. Apenas isso. Gosto de baladas mais lentas. Não estou antenada a tudo que está a minha volta e obviamente nem penso nas cenas ou em outros artistas quando escrevo minhas canções. Então, com certeza é um processo totalmente inconsciente!

LFR: O que acha dessa busca incessante para descobrir a nova cantora e compositora inglesa a ser comparada com Amy Winehouse? Isso lhe incomoda?

A: Isto não me chateia. Acho que nós somos todas boas o bastante e acho que realmente somos as novas cantoras e é por isso que estamos indo tão bem!

LFR: Se tivesse que ser comparada a Amy Winehouse, Duffy, Laura Marling e Dawn Kinnard a quem gostaria de ter sua música relacionada? Qual delas não gostaria de ser comparada?

A: Escolheria ser comparada a Amy Winehouse porque a amo e acho ela incrível! E é óbvio que gostaria de ter uma carreira musical como a dela. Acho que Amy tem longevidade e é isso que quero. Eu não gostaria de ser comparada com Laura Marling. Acho ela incrível, mas somos completamente diferentes. Ela é muito folk e eu soul/pop! E acho que nós duas queremos coisas diferentes em relação a idéia de ser cantora e performer!

LFR: Suas experiências adolescentes determinam todo o conceito de 19?

A: O escopo do álbum era escrever sobre relacionamentos que tive aos 19 anos.

LFR: Alvo de apostas e listas ao longo do ano agora é sua vez de apontar os novos artistas que rolam no seu playlist...

A: De novas bandas tenho escutado artistas como Vampire Weekend, Soko, Late Of The Pier, Metros e MGMT. De coisas mais antigas, ouço Kings Of Leon, Klaxons, Yeah Yeah Yeahs, Etta James, Amy Winehouse e Lily Allen.

LFR: Recentemente li um artigo em que você afirmava ter enorme prazer em ler sobre escândalos sobre celebridades. Esta preparada para figurar em capas de tablóides e a ser tratada como uma celebridade da música pop?

A: Realmente adoro ler revistas de fofoca, sim. Quem é que não gosta? Da mesma forma que adoro lê-las, odeio estar estampada em suas páginas. Não estou preparada e nunca estarei!

'Daydreamer' - Jools Holland


'Cold shoulder'

quinta-feira, 10 de julho de 2008

O filho do violão


Filho do mestre do violão, Baden Powell, Marcel Powell, 25 anos, não se esconde atrás de um dos sobrenomes mais imponentes da MPB. Dedicado ao mesmo instrumento que seu pai, ao lado de João Gilberto, redimensionou a forma de tocar, ele planeja para esse ano o lançamento do seu segundo álbum solo, 'Cobra viva', definido pelo próprio como um álbum de música instrumental braisleira.

Ao beber de fontes diversas e não apenas da bossa nova, que Baden e João talharam em conjunto com Vinícius de Moraes e Tom Jobim, ele lança mão de um repertório de choro, frevo, baião, entre outros ritmos, e se nega a incumbência de renovar ou modernizar o gênero musical que consagrou sua linhagem familiar.

Indicado ao prêmio TIM de música e ganhador do prêmio Rival Petrobrás na categoria melhor instrumental solo, em 2006, pelo disco 'Aperto de mão', Marcel conta que já tem gravada a metade do novo álbum, que traz releituras de Lenine, Gilberto Gil, João Bosco, além de inéditas de seu pai e composições próprias.
Ciente de que a bossa nova é parte fundamental de sua história, justamente pela importância de seu pai para o gênero, Marcel lembra que Baden era um artista que flertava com diversos outros gêneros, e, que, como professor, sempre o incentivou a experimentar os ritmos que hoje afirmam sua posição de músico contemporâneo, com o radar ligado para novas idéias.
Nesta entrevista, ele faz questão de pôr em xeque o mito que credita à música instrumental uma complexidade que impede, ou dificulta, sua absorção por um grande número de ouvintes. Defensor do lema: "música boa é música boa", independentemente de gêneros, o violonista espera que mais veículos de comunicação possam apresentar a música instrumental como fruto do mesmo universo da MPB e, não, como um estilo segmentado e que necessita de tratamento especial.

LFR: Até que ponto a bossa nova é a base de sua formação musical e de suas experimentações artísticas atuais?
MP: Não posso dizer que a bossa nova é minha principal influência, já que diversos outros gêneros e ritmos que compõem a música brasileira fizeram parte da minha formação, caso do choro, frevo, baião. O choro, sim, talvez possa dizer que é a base da música brasileira. Me considero um artista de música instrumental brasileira e nos meus shows nunca faltam choros.

LFR: Essa mistura com outros ritmos brasileiros, no entanto, que formam o cerne de sua musicalidade?
MP: É lógico que a bossa nova é parte fundamental da minha história, justamente pelo o que meu pai representa para a nossa música. Mas ao mesmo tempo ele era um artista independente da bossa nova e flertava com diversos outros gêneros. Como foi ele quem me ensinou música, essa noção e interesse por outros ritmos foi repassada naturalmente. Não tenho como destacar apenas a bossa nova, mesmo sendo óbvio afirmar que ela tem uma importância significativa na formação de cada músico brasileiro.

LFR: Se comparados a outros gêneros, não são muitos os artistas contemporâneos que apostam na bossa nova. Acredita que o gênero carece de renovação?

MP: Também toco bossa nova, mas não creio que seja uma renovação do estilo, mas, sim, outra coisa, algo novo e diferente. Deixo a bossa nova para os artistas do gênero que ainda estão aí, como o Carlos Lyra. Existem muitos artistas influenciados pela bossa nova, esta é a forma que ela vive, hoje. Grupos como Bossa Cuca Nova, o trio Jobim, que gravou CD com Milton Nascimento, assim como Kay Lyra, filha do Carlos, que tem um trabalho voltado para a bossa nova. Já o meu trabalho não é somente isso. Estou sempre a procura de novas referências. Além disso, o meu trabalho é totalmente instrumental, gênero que, brevemente analisado, valoriza o talento da pessoa que toca, o instrumentista. Enquanto a bossa nova valoriza mais a canção, a letra e a melodia, uma música cantada.

LFR: Como vê a construção do mito de que a música instrumental é complexa demais para a absorção ou apreciação de um número grande de pessoas?

MP: Acho que música boa é música boa. Isso não tem relação com um ou outro gênero. Acho que por ser uma música de mais qualidade, mais sofisticada, muitas gravadoras acabam tendo medo de apostar. Acaba que o instrumental se torna algo mais seleto, não pela questão do poder aquisitivo de quem a consome, mas muito pela idéia de que o ouvinte de música instrumental é alguém que seleciona e busca o que quer ouvir e, não, como o ouvinte comum que é obrigado, queira ele ou não, a ouvir o que toca nas rádios.

LFR: O estilo sofre, no entanto, com a segmentação, como vê a questão das rádios? Por que não escutamos música instrumental normalmente inserida na programação das FMs dedicadas à canção brasileira?

MP: Muita gente fica impossibilitada de ter acesso à música instrumental. Isso restringe um número grande de pessoas que não têm a oportunidade de saber se aquele som os agrada ou não. Acho que os discos e os shows tem que ser mais baratos, mas as rádios poderiam incluir normalmente e sem medo a música instrumental. Acho que a MPB FM, por exemplo, que eu particularmente adoro, poderia colocar música instrumental ao longo da programação. Egberto Gismonti poderia tocar ao lado de Maria Rita, ou Lenine, e, não só em um programa especializado. Não há porque segmentar, faz parte da nossa cultura. Não é preciso demarcar o território.

LFR: Em 2006, você foi indicado ao prêmio TIM de música e ganhou o prêmio Rival Petrobrás na categoria melhor instrumental solo, pelo disco 'Aperto de mão'. Agora prepara um novo álbum, como será este trabalho?

MP: Algumas canções serão registradas em trio e quarteto. Outras recebem tratamento de violão solo. Serão quatro músicas de minha autoria e duas inéditas do meu pai. 'Chora violão', canção composta em homenagem a Raphael Rabello, e 'Abraço no trio elétrico', em homenagem ao bandolinista Armandinho. De João Bosco, regravo 'Incompatibilidade de gênios' e 'Bala com bala'; de Lenine, 'O dia em que faremos contato'; de Gil e Dominguinhos, 'Lamento sertanejo'; além de uma canção do Sivuca.

LFR: Será lançado apenas no Brasil?
MP: Por enquanto, sim. Mas espero lançá-lo internacionalmente, assim como fiz com meus outros discos. Faço muita coisa lá fora, eles têm muito interesse pela nossa música.
LFR: Você se considera mais um compositor, ou realmente um instrumentista que se dedica à interpretação e releitura de músicas?

MP: Apesar de criar e formar estas parcerias, eu me dedico mais a interpretação e ao instrumento. Não tenho a pretensão de ser um compositor, como foi meu pai. Ele conseguiu conciliar suas duas aptidões. Sei que não há regras, tanto que no meu trabalho solo componho e gravo alguns dos meus temas. Mas por enquanto me vejo como instrumentista.

LFR: Existem parceiros que colocam letras em suas músicas?

MP: Tenho canções em parceria com o Paulo César Pinheiro, com o Diogo Nogueira, entre outros. São sambas com letras, mas ainda não foram gravados. Talvez a Mariana Leporace grave alguma destas canções em um novo trabalho dela.

LFR: Como era Baden Powell como professor? Reza a lenda de que era extremamente rígido. Como lidava com essa pressão nos ensinamentos? Pensou em seguir outra carreira?

MP: De jeito nenhum. Queria ser músico desde pequeno. Ele foi meu único professor, mas foi o professor. Ele realmente era severo, mas não impôs que eu e meu irmão nos dedicássemos à música. Comecei mais ou menos como ele, que roubou seu primeiro violão de uma tia, ao invés de pedir emprestado, por timidez. Eu, no caso, roubei o instrumento do meu irmão e fui pedir aulas ao meu pai. Não houve obrigação, mas, como fui procurá-lo, ele deixou claro, desde o início, que eu teria que aprender a tocá-lo direito. Ele era um cara muito claro e se eu ou meu irmão não levássemos jeito para a coisa ele teria sido o primeiro a impedir uma exposição sem preparo da nossa parte.

LFR: Como lida com a cobrança dos apreciadores, ou críticos, da música do seu pai em relação ao fato de ser o filho de Baden Powell? O que há de bom e de ruim nisso?

MP: Qual é o jogador que não quer se comparado, ou gostaria de ser filho do Pelé? Isso sempre me abriu portas, mas manter essa posição depende exclusivamente da minha performance. Afinal, você pode ter tudo, ser o filho do Baden Powell, ter talento, mas o estudo e a dedicação são fundamentais. Além disso, as pessoas querem te ouvir, saber como você toca, o que tem para mostrar. Comecei aos 9 anos e meu pai marcava em cima. Só deixava uma peça de lado quando ela já poderia ser bem tocada. Ainda estudo muito, no mínimo três horas por dia, as vezes chega a cinco ou seis horas de treino. Mas é lógico que tem dias em que eu descanso, também.

LFR: O que o seu violão e a sua arte tem de Baden Powell, o que você reconhece como herança? O que tem de Marcel, que elementos originais você incorpora nessa história?

MP: Do meu pai tem bastante coisa. É ímpossível não carregar esses traços. Ele foi meu pai e professor. Se os músicos, normalmente, já carregam essa herança dos professores, comigo essa relação era ainda mais forte. Mas tento imprimir minha marca e procuro gravar canções que ele não tenha tocado ou gravado, para que as pessoas não fiquem imaginando ou comparando versões. Da minha parte, trago essa coisa da velocidade, de tocar as escalas de forma rápida, algo que ele não fazia tanto. Como compositor, ele se apegava muito às questões melódicas. Empregava a técnica de forma diferente.

domingo, 6 de julho de 2008

Marcos Valle Conecta


Aos 65 anos de idade e mais de 20 discos lançados, no Brasil e exterior, o instrumentista, compositor, arranjador e cantor, Marcos Valle, não dá muita bola para as homenagens e comemorações aos 50 anos da bossa nova. Ele prefere apontar para o futuro e, de olho na renovação do seu público e repertório, acaba de lançar o CD e DVD 'Marcos Valle Conecta'. Capturado durante a temporada de quatro noites realizada em agosto de 2007 no Cinematéque Jam Club, em Botafogo, o registro apresenta a reunião, no palco, de Marcos e diferentes convidados da nova geração de músicos e compositores da MPB. Entre eles, Marcelo Camelo – em seu primeiro trabalho pós-Los Hermanos –, Moreno Veloso, Domenico Lancellotti e Kassin, – formadores do trio + 2 –, Fino Coletivo, DJ Nado Leal e DJ Plínio Profeta.

Representante da segunda geração da bossa nova, surgida nos anos 60 e lapidada aos moldes da batida do violão e pelo canto de João Gilberto, além das canções de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, Marcos passa longe do purismo bossa novista. Muito pelo contrário. Democrático, ele mostra que sua bem sucedida carreira internacional é fruto das suas experimentações e dos flertes com ritmos e gêneros musicais diversos, como o samba tradicional, baião, jazz, música clássica, pop, entre outros. Com a carreira em alta, tanto aqui como acolá, ele anuncia, ainda, para este ano, o lançamento de um CD de inéditas em parceria com Celso Fonseca, novas composições com Marcelo Camelo, Lulu Santos, Carlos Lyra, participação especial no novo álbum de Marcelo D2, além de um box, com quatro DVDs, sobre sua carreira, a ser lançado em 2009.

LFR: Em meio às homenagens e comemorações em relação aos 50 anos de bossa nova, queria que você falasse um pouco da importância do gênero para a nossa música. Qual o maior legado que João Gilberto, Tom Jobim, Vinícius de Moraes, entre outros, nos deixam?

MV: A bossa nova tem grande importância não só no Brasil, como para o mundo da música. No fundo era uma maneira nova de tocar o samba tradicional. O samba e a bossa se encaixam perfeitamente. A bossa uniu elementos sonoros da música clássica e do jazz, o que era uma possibilidade de renovação e deu força a música brasileira lá fora. Dentro do país também, pois passou a atingir um público que não tinha tanta ligação com o samba tradicional. Isso ampliou a nossa música e cultura para o próprio Brasil. O encontro de Carlos Lyra e Nara Leão foi transformador neste sentido.

LFR: A que fator explica o reconhecimento e o interesse pela bossa nova, por jazzistas, cantores, compositores americanos e europeus?

MV: A bossa nova apontava o casamento entre elementos da música internacional. Em termos de harmonia, interessava aos jazzistas e aos cantores, que a aceitaram de imediato. A bossa bebia de fontes do jazz, como Chet Baker, nos EUA, além de Mário Reis, no Brasil, uma forma mais coloquial de cantar, que, mais tarde, aponta para João Gilberto. Eram as harmonias de Johnny Alf, da música erudita de Ravel e Debussy. A semelhança com o jazz facilitou e abriu as portas para o mundo. A bossa nova tem a melodia bonita e intuitiva que interessou a Frank Sinatra e Tony Bennet; as harmonias sofisticadas, que interessavam aos jazzistas e seus improvisos; além do ritmo sensual e mais solto do samba, que dava colorido e sabor musical diferenciado. Isso fez com que muitos compositores brasileiros passassem a ser gravados lá fora e que músicos americanos usassem estes novos sabores.

LFR: E o reconhecimento do seu trabalho internacionalmente, como se deu?

MV: Após esse primeiro impacto, houve um declínio e, mais tarde, na década de 80, um revival na Europa. A Minha música e o sucesso daminha carreira internacional se deve a este momento. Nessa época, os jovens e muitos DJs europeus se mostraram bastante interessados pela minha música, em particular, pelos meus discos mais antigos, gravados na década de 60.
LFR: Gostaria que você falasse do seu primeiro contato com estilo... Como surgiu esse encanto pela bossa?

MV: Desde os cinco anos já estava totalmente ligado em música. Desde os cinco anos, por causa do meu pai, ouvia muita música brasileira em casa, baião, samba tradicional, entre outras vertentes. Depois passei a estudar música clássica, ao piano e violão. Mais tarde, estudava para ser advogado, mas nas veias só corria música. Aí, em 1958, com uns 17 anos ouvi o disco do João Gilberto. Foi um impacto total. Fiquei louco e comecei a ouvir direto. Meu contato com essa turma, até então, era como fã.

LFR: Você gravou o seu primeiro disco muito cedo, com 21 anos, nos anos 60... Por ser mais novo houve dificuldade de se integrar aos nomes mais conhecidos e mostrar o seu trabalho? Como é que foi essa sua aproximação ao gênero?

MV: Tinha estudado com o Edu Lobo, no Santo Inácio, com uns 12 anos. Anos mais tarde, em 60, já com 19 anos, encontrei o Edu no ônibus. Ele morava ali na Barão de Ipanema e estava com um violão a tiracolo, batemos olho com olho e nos reconhecemos de imediato. Apesar das mudanças preservávamos os mesmos traços. Lembro da primeira coisa que perguntei: “Você ta ligado em música?”. Ele respondeu que sim, e que seu pai, Fernando Lobo era um compositor conhecido. à época, Edu estava tocando com o Dori Caymmi, filho do Dorival. Perguntou o que eu estava fazendo e respondi que pensava em música 24 horas por dia. Marcamos um encontro e a partir daí montamos um trio, eu, Edu e Dori. Não durou muito tempo, mas foi de extrema importância, pois comecei a freqüentar os encontros musicais na casa do Ary Barroso, pouco antes de ele morrer. Lembro que todo mundo se reunia ali, na ladeira do Leme, Carlos Lyra, Roberto Menescal, Baden Powell, Ronaldo Bôscoli, entre outros da pesada. A princípio, ficava ali como mero observador daqueles encontros. Depois, fui chamado pelo Lula Freire à casa do Vinícius que tinha virado o centro dessas reuniões. Ele queria que eu tocasse algumas canções minhas. Toquei Sonho de Maria e ele logo pediu a canção, porque estava gravando um disco com o Tamba Trio. Foi minha primeira música gravada e que me levou a circular com mais desenvoltura naquele ambiente. Conheci melhor o Menescal e minhas canções passaram a ser gravadas por muita gente. Depois, fui mostrar minhas canções para a Odeon, hoje EMI, que acabou me contratando como artista da casa. Apenas queria que alguém gravasse minhas canções e saí com um papel assinado. Nada mal...

LFR: Ao longo da carreira, seus discos não refletem somente o gosto pela bossa, mas também por experimentações outras. Conte um pouco de sua formação musical e artística, você se define como um artista de bossa nova ou essa não seria a mais adequada das classificações?

MV: Com o impacto dos primeiros anos da bossa nova essa diversidade ficou um pouco camuflada. Minha formação musical e minhas influências só passaram a aparecer no meu trabalho após os primeiros dois discos, que eram puramente bossa nova. A partir de então comecei a trabalhar com o baião, música pop, jazz e muita música negra americana. A questão do soul estava muito presente, compus Black is beautiful e o disco influenciado por essa onda. Aí, sim, meu público começou a se formar e a perceber essa mistura, comecei a ter a oportunidade e espaço para mostrar. O Menescal diz que eu não revolucionei a bossa nova, mas, sim, que eu já vim revolucionado.

LFR: Por mais que ronde e experimente outros ritmos, gostaria de saber até que ponto ela ainda é a base de sua formação musical e de suas experimentações?

MV: Hoje sou mais maduro, toco melhor e tenho muito mais confiança no que eu me proponho a fazer, em termos de arranjos. É a questão da experiência e a aproximação com muita música de outros gêneros e músicos de outra geração. É por isso que hoje tenho parcerias com o Marcelo Camelo, por exemplo, gosto muito dessa troca. Lembro com muito carinho das coisas que fiz, mas gosto de ter novas idéias, preciso desse tipo de motivação. A bossa nova, a meu ver, é muito democrática. Ela se casa bem com quase todos os estilos musicais. Então essa nova geração chega super carregada de diversas influências e, mesmo assim, admira a bossa nova também. Comemorar os 50 anos da bossa é até legal, mas prefiro olhar para os próximos 50 anos, porque tenho certeza e vejo que tem muita música boa e nova, além de uma nova geração muito interessada. Essa ponte, ou cruzamento de gerações, é muito importante, não só para eles, mas para mim também.

LFR: Você tem uma carreira internacional consolidada, com discos lançados apenas no mercado externo e uma agenda de shows constante por lá. A que fator você credita esse acolhimento, ou sucesso, no mercado internacional?

MV: Eles me descobriram, não esperava e não entendia muito bem o porquê dessa admiração. Hoje percebo e entendo que esse público jovem europeu estava interessado em dançar, mas não queriam a onda disco americana. Eles estavam interessados em Quincy Jones, Stevie Wonder, entre outros. Meus discos traziam essa mistura de ritmos e improvisações. Era diferente da bossa nova original e talvez por isso houve essa resposta. O que ainda me impressiona é que é um público muito jovem, entre 15 e 30 anos, e que se renova. Eles conhecem e são interessados nas improvisações e nos arranjos. No Japão, há uma parte do público que me admira pelas minhas canções mais clássica e uma outra parcela jovem, que admira minhas canções mais ritmadas e ricas em mistura.

LFR: Conecta é justamente uma intenção de se aproximar, como artista, de um publico mais jovem, aqui no Brasil? Achava que era necessário provocar essa aproximação?

MV: Na Europa toco para um público jovem, em festivais para cerca de 50.000 pessoas. Saio sempre muito energizado, pois os shows são mais para cima. Meus sucessos lá fora são as canções mais ritmadas.

LFR: No Brasil, seus shows não tinham essa pegada mais forte?

MV: No Brasil tinha que misturar e colocar certos clássicos, para que uma parte do meu público não saísse frustrada. Lá fora, algumas músicas de sucesso nunca tiveram a mesma resposta por aqui. Queria fazer esse tipo de show e o pessoal do Cinematéque, coincidentemente, me procurou falando que muitos jovens pediam meu show. Uma coisa casou com a outra e decidimos fazer quatro noites dedicadas a um público jovem.

LFR: Quais foram os critérios para a formatação desse projeto? Como surgiu a idéia de fazer essa série de shows que gera esse CD e DVD?

MV: Decidimos que para fazer essa conexão com o público mais jovem seria importante termos convidados. Seriam músicos da nova geração da música brasileira que tinham certa identificação ou aproximação com a minha música. Aquilo soou perfeito e comecei a pensar em quem chamar.

LFR: Quais foram os critérios usados para escolher os convidados?

MV: Alguns eu já conhecia a música e tinha o interesse de conhecer pessoalmente. Foi o caso do Marcelo Camelo, do Los Hermanos, que já conhecia suas canções com o grupo, além de outras composições gravadas por outros artistas, como a Maria Rita. À época o grupo tinha se separado e o Marcelo estava meio que recluso. Consegui apenas o e-mail dele e resolvi escrever uma mensagem para ver se ele se animava a sair da toca. Ele me respondeu dizendo o quanto admirava o meu trabalho e que ficaria muito feliz em tecer qualquer trabalho ao meu lado. Fiquei super entusiasmado com a resposta dele, que já veio repleta de sugestão de músicas que ele achava interessante tocar, outras ele já via semelhanças e poderiam ser fundidas.

LFR: E como chegou aos outros convidados?

MV: Depois comecei a pensar nos outros nomes. Já havia escutado alguma coisa do Fino Coletivo e do pessoal do trio +2. Passei a escutar os discos que esse pessoal havia feito e percebi uma conexão muito grande. Entrei em contato e a reação foi super boa, assim como a do Marcelo. Me senti revigorado, eles diziam realmente terem sido influenciados pela minha música. Fico feliz com isso e até vejo semelhanças por causa da abertura que sempre trabalhei em minha carreira. Eles também são assim, pois escutam muita bossa nova, MPB, mas trazem elementos novos da cultura deles. O encontro dessas influências é sempre muito rico.

LFR: E o repertório que cantaria ao lado de cada um, como foi escolhido?

MV: A elaboração dos arranjos depois foi super confortável, pois pensamos todos em conjunto. Já havia escutado os discos e marcado algumas canções que julgava ser mais interessantes para o projeto. Nos primeiros ensaios a coisa já estava soando redonda e vi que sairia coisa boa dali. Mais tarde me sugeriram fazer algo relacionado aos DJs, já que na Europa eu tinha estabelecido essa conexão. Foram escolhidos o Nado Leal e o Plínio Profeta para fechar o projeto que, até então, não seria registrado oficialmente.

LFR: Mas acabou virando CD e DVD...

MV: É... acho que o trunfo desse trabalho é que ele não tem um esquemão por trás. É algo bem natural e orgânico, meio underground até. Mesmo assim, com uma casa pequena, o Roberto Oliveira conseguiu extrair imagens impressionantes.

LFR: Quando foi que achou que valeria a pena registrar em DVD?

MV: O primeiro show foi do Fino Coletivo. Ali sacamos que teríamos que gravar aquilo, porque o resultado era ótimo. Montamos uma equipe de áudio e vídeo para a segunda noite, que teria o Marcelo Camelo. O Roberto colocou sete câmeras, chamei o Sabóia para fazer o som e mixar o disco. Aí, já pensamos na possibilidade de lançarmos o trabalho. Ao final, re3fizemos o show com o Fino Coletivo e depois pedi autorização para os meus convidados, que aceitaram prontamente.

LFR: Como foi o encontro com o Camelo e a sintonia gerada por esse encontro? Saiu uma nota dizendo que se sentiram bons amigos já no primeiro contato...

MV: No momento que nos aproximamos rolou uma sintonia. Nos encontramos e ele começou a tocar um monte de coisa nova, umas mais MPB, outras mais pop. Ele é muito talentoso.

LFR: Já há parcerias ou intenção de fazer música juntos?

MV: Depois desse projeto continuamos a parceria. Esse encontro já rendeu duas canções inéditas, mas que apenas uma dela tem nome, Eu vou. Ainda não sabemos quem vai gravá-las, mas esperamos que, futuramente, alguém as interprete. É muito bacana e importante fazer um novo parceiro, até para a minha carreira. O bom é que não temos apenas a música em comum, mas, sim, muitas outras coisas. Aí é normal que dê algo mais.

LFR: Ele esta gravando o primeiro cd solo, já teve a oportunidade de ouvir? Alguma dessas músicas será incluída?

MV: Não, porque o repertório dele já estava definido. Ainda não tive a oportunidade de ouvir. Ele está em São Paulo terminando de gravar e volta e meia me escreve um e-mail. Assim que ele voltar deve me mostrar as novas canções.

LFR: O que acha de sua musicalidade, o que ele tem de especial, o que lhe agrada em suas composições e que faz dele um expoente dessa nova geração de compositores brasileiros?

MV: Suas canções têm uma qualidade, um apuro e uma capacidade de criação muito grande. Ele carrega uma versatilidade, talvez herança do tio, Bebeto Castilho, do Tamba Trio. Meus músicos também ficaram impressionados. Ele é um grande reforço para a nossa música.

LFR: Como está sendo a resposta do teu público e da crítica em relação ao Conecta?

MV: O disco e o DVD estão caminhando bem no Brasil. A gravadora abraçou o projeto e pretende lançá-lo internacionalmente. A crítica tem sido excelente e a distribuição da EMI está sendo muito bem feita. As vendas, também, caminham melhor do que imaginávamos. Devo apresentá-lo na Europa neste segundo semestre.

LFR: Gostaria que jogasse luz no futuro e falasse um pouco dos projetos paralelos que está trabalhando... Há algo a ser lançado ainda este ano?

MV: Tenho um disco pronto de inéditas, feitas em parceria com o Celso Fonseca. É um trabalho bem interessante e diferente, com cinco canções instrumentais e sete cantadas. Os arranjos privilegiam uma atmosfera de grande orquestra, com trompas e trompetes, feitos pelo Jessé Sadoc. Queremos aguardar um pouco para lançá-lo, para não atropelar o Conecta e o disco do Celso, Feriado. No entanto, até outubro ele deve estar na rua. Sou muito fã do Celso, adoro o trabalho dele.
Além disso, tenho um contrato com o selo londrino Far Out Recordings e devo um quinto CD para eles. Devo entregá-lo ainda este ano. Quero apenas encontrar uma brecha, pois, simultaneamente a isto tudo, estou gravando um Box, com quatro DVDs, sobre a minha carreira, a ser lançado ano que vem.
Também tenho feito uma porção de participações especiais. Essa semana me encontrei com o Marcelo D2 para gravar uma participação especial no novo álbum dele. Tenho músicas novas em parceria com o Lulu Santos, Carlos Lyra, Luis Carlos da Vila, entre outros.

sábado, 28 de junho de 2008

N.E.R.D. - Seeing Sounds











Após quatro anos, desde o lançamento do esquizodélico álbum, 'Fly or die', os Neptunes, Pharrel Williams e Chad Hugo, reaparecem com 'Seeing sounds', terceiro álbum de carreira do N.E.R.D. Lançado dia 10 de junho, o CD foi puxado pela enjoada, 'Everyone nose', seguida pelo single, 'Spaz', usado como trilha comercial para o Zune, ipod que a Microsoft tenta capitalizar.

Desde abril a banda de rock-hip-hop excursiona pelos EUA na turnê 'Glow in the dark', capitaneada por Kanye West, ao lado de Lupe Fiasco e Rihanna. Os festivais de verão europeus também aguardam a passagem da banda, que foi convidada pelo Kaider Chiefs para se apresentar no Isle of Wight. Mesmo com as irregulares cotações que o álbum recebe pelos mais diversos veículos da imprensa musical, Pharrell revela que não espera apenas sucesso ou lucro com seu projeto, mas, sim, expandir seus caminhos sonoros.

– Não ligamos para questão de gênero musical e não fazemos os discos do N.E.R.D. por dinheiro – disse Pharrell, recentemente, à imprensa. – Fazemos isso para as pessoas que estão com a gente no nosso movimento. Nossos fãs querem curtir e serem levados por uma montanha russa de sensações e única forma de oferecer isso é com um disco que exploda pelas caixas de som diversas sonoridades.

Seeing sounds não é um disco de noite, com hits de hip-hop ou dance, mas, sim, como o nome do trabalho revela, uma viagem sinestésica, como sempre, cheia de texturas e cores.

– É um disco de LSD, uma sonoridade drogada – destaca Chad Hugo. – É uma mistura de sensações que leva o ouvinte a experimentar uma audição repleta de cores, cheiros, gostos. É como se você visse algo que lhe remete a uma canção, ou você ouvir algo que lhe traga um gosto na boca. Esse disco foi criado a partir das imagens que víamos em cada música, por isso 'Seeing sounds' foi escolhido como título.

Não espere hits certeiros, nem fórmulas bem amarradas. 'Seeing sounds' é um álbum estranho, esquisito, a la Frankenstein. Bebe de pop, rock, dance, hip-hop-old school e trocentos outros universos sonoros. Cada faixa aponta para uma direção e a coesão do trabalho da banda repousa, ou melhor, se move justamente nessa bagunça sonora. Ouça com desprendimento e veja os sons:




sábado, 21 de junho de 2008

Laura Marling - folk-indie inglês













Laura Marling é dona de uma carreira meteórica. Aos 16 anos já causava furor entre os fuçadores de música no Myspace; aos 17 assinou contrato com a ‘gigante’ EMI e aos 18 lança seu primeiro álbum solo, "Alas I cannot swim", recebido com láureas pela crítica, em resenhas que a apontam como digna representante de Joni Mitchell. Foi assim pelo The Independent, que cravou cinco estrelas para o disco, e, também, assim que ela se apresentou no Jools Holland antes mesmo de lançar seu álbum de estréia.

– Acredito que este é um grande momento para ser um artista novo, ou um artista alternativo. Mas definitivamente não é um bom momento para os que jogam pelo interesse em lucrar com o mercado mainstream de música – pondera Laura, direto de seu laptop, enquanto aguarda no backstage a hora de subir ao palco de uma igreja londrina.

O furor todo é pela pouca idade, mas não pelo que isso representa em termos numéricos, mas, sim, pelo que suas letras, poeticamente, apresentam. Pontos de vista, sacadas psicológicas bem desenvolvidas, narrativas que exprimem o desconforto com os sentimentos de tristeza, solidão e abandono. Laura descarta a previsibilidade da dor de cotovelo pós-adolescente e extrai da escuridão uma beleza, apesar de amarga, jovial e repleta de frescor.

– Existem influências muito claras no meu modo de compor e cantar. Cresci ouvindo Joni Mitchell e meu interesse pelas melodias vem dessa influência, já meu interesse em histórias e imagens do que canto vem de artistas como Diane Cluck e Charlotte Bronte – afirma.

Imagens, cenários e cenas, são fortes no trabalho sonoro e imagético de Laura, mas não resultado da grandiloqüência ou extravagância de arranjos. Muito pelo contrário, o minimalismo folk dá o tom da livre viagem elaborada em parceria com Charlie Fink, líder da banda indie-folk,
Noah and the Whale.

– Conseguimos emprestar às canções perspectivas de uma jornada cinematográfica e relacioná-las aos temas propostos por cada letra – explica Laura. – Charlie é um parceiro muito esperto e trouxe muita coisa para o disco. Tenho muita sorte em tê-lo encontrado. Trabalhamos muito duro em conjunto para fazer esse álbum soar consistente. Adoro estar em estúdio, sou caseira, e isso geralmente significa que não vou ter que ficar fora por muito tempo.

A maturidade da moça, no entanto, traveste-se de saudosismo, estampado nas idéias que permeiam o projeto gráfico do seu álbum. Desesperada com o avanço nada respeitoso do mercado digital e suas diversas mídias alternativas, queda de vendas de discos e mp3 de baixa qualidade, Laura mantém-se fiel defensora de vinis e dos projetos gráficos que fazem de um álbum não apenas um amontoado de faixas, mas, sim, um tesouro a ser colecionado. Além da edição em CD ela idealizou uma caixa de música, que contém postcards, algumas histórias, além de ingressos para sua turnê européia de lançamento.

– A idéia surgiu após uma conversa que tive com o dono do estúdio onde gravei o álbum. Ele disse que estava deprimido pela forma que o mercado da música estava sendo conduzido, porque ninguém mais compra discos e as pessoas se contentam em ouvir música a partir de mp3 de baixa qualidade, tratam a música como algo descartável. Quero que as pessoas voltem a amar e colecionar música. Foi assim que eu aprendi. Fico super assustada com a velocidade das coisas – revela.

Na rota contrária a incessante busca por novas Lilly Allen e Amy Winehouse, Marling navega pelas águas tranqüilas da música folk. Idéias inteligentes, um violão debaixo do braço e uma voz doce e pequena são o bastante para produzir um dos tesouros musicais do ano.

– Meu som vem de referências das mais antigas e de coisas muito novas. Excursionei com
Johnny Flynn e ele é um letrista brilhante, me deixa completamente cega. Agora estou em turnê com Adam Green. Bonnie Prince Billie sempre foi uma grande influência e a partir dele eu descobri artistas como Adrian Orange, além de muitos outros que, em minha opinião, continuam a fazer a melhor música do mundo neste momento, mesmo sem vender muitos discos – diz Laura.
* Entrevista realizada em março com Laura Marling, a artista desta semana do The New York Times.

Ghosts (Dir. James Copeland):



My manic and I (Dir. James Copeland):



Night terror (Dir. Max Knight):

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Al Green - Lay it down


















O título da nova obra-prima de Al Green, Lay it down (Blue Note), é a sentença para que o ouvinte se desapegue de sua massacrante rotina burocrática e respire um pouco de alma cantada, pelo menos por 45 minutos. Lançado dia 27 de maio, Lay it Down traz o reverendo, aos 62 anos, de volta ao top ten da Billboard – principal parada da música americana –, feito conquistado pela última vez há 35 anos, com o clássico Call me. Concebido como um álbum de colaborações entre a lenda do soul e um punhado de novos e talentosos admiradores, do universo do R&B e do hip-hop, o álbum serve como registro de uma série de inspiradas jam sessions, que extraíram o sumo da musicalidade funk e romântica de Al Green. É old-school, seja no que de melhor o termo representa: conexão espiritual entre músicos.

– Estou de volta às minhas raízes, ao soul, ao R&B e às canções de amor, feitas para as famílias, para bons momentos. Trago de volta a minha essência, a música, como um retorno ao local onde toda essa história começou. Mostrei o CD a um amigo que disse: estamos ouvindo o Al Green original, a única diferença é que estamos em 2008 – conta Green.

Produzido por dois dos mais inovadores músicos do hip-hop americano, Ahmir "?uestlove" Thompson, baterista do incendiário combo The Roots, e James Poyser, tecladista e produtor de Common e Erykah Badu, Lay it down, conta ainda com parcerias e colaborações musicais tecidas com o dream team do neo-soul, uma excelente nova safra de compositores e cantores negros, entre eles, John Legend, Anthony Hamilton e Corine Bailey Rae; além de instrumentistas, como a linha de metais da banda The Dap Kings (Sharon Jones e Amy Winehouse), o guitarrista Chalmers "Spanky" Alford (Joss Stone) e o baixista Adam Blackstone (Jill Scott).
– A idéia surgiu a partir de uma brincadeira com meu empresário, mas a razão pela qual estamos gravando este disco é porque idolatramos Al Green – declara o baterista do The Roots. – Mesmo hoje em dia ninguém tem a potência e o alcance de sua voz. A música de Al Green faz parte da minha vida e tenho familiaridade com todos os seus discos. É impressionante notar que habitam em apenas um corpo cerca de cinco diferentes facetas. O uivo gospel, seus falsetes, o soul, a igreja e o lado cômico. Este último pouca gente conhece.

Apesar das reverências, Green faz questão de afirmar que o encontro entre gerações partiu de sua curiosidade. Sua intenção era se aproximar de novos artistas, especialmente da comunidade hip-hop, para que juntos pudessem criar um terreno fértil para Green espalhar a mensagem característica de suas obras musicais e pregações na Full Gospel Tabernacle, em Memphis, Tennessee: o amor.

– O que aconteceu foi que descobrimos que ?uestlove queria trabalhar comigo e eu queria trabalhar com o pessoal do The Roots e da nova geração do rap e do R&B. As coisas simplesmente se encaixaram, aconteceram e as pessoas certas se encontraram – afirma Green.

Apesar de não irem muito longe das fundações construídas por Green e Willie Mitchell em álbuns como Call Me, I'm Still In Love With You, Let's Stay Together, os produtores ?uestlove e Poyser sabiam muito bem aonde queriam chegar e como imprimir frescor à nova obra do soulman.

– Adoramos todos os seus clássicos, mas gostaríamos de tocar aquilo que imaginamos ouvir como o Al Green em 2008. Queríamos manter toda sua aura, mas precisávamos de liberdade para que pudéssemos expandir nossas asas e nos expressar livremente. Queríamos que o álbum soasse extremamente orgânico, por isso descartamos sintetizadores e optamos pelos instrumentos tocados ao vivo – conta Poyser.

Green se mostra satisfeito com a escolha:

– Todo o pessoal do The Roots, assim com os demais músicos foram incríveis. Eu pude relaxar porque sabia que eram pessoas capazes. Todo mundo chegava ao estúdio com novas idéias, todo mundo ajudava e seguia na mesma sintonia – lembra Green.

Acertados os ponteiros da parceria, Green prontamente se lançou ao universo musical do The Roots e sua trupe, em ensaios e jam sessions realizados em Nova York, em 2006. A experiência serviu como oportunidade para que os jovens colaboradores mergulhassem de cabeça na musicalidade de Al Green.

– As sessões foram como verdadeiras aulas de como criar e tornar relevante, hoje em dia, o seu som. O fato é que você precisa fazer o dever de casa. Estudei atentamente todos os álbuns de sua carreira, toda a parte de produção e engenharia de áudio para que pudesse entender os caminhos de sua música e, além disso, trabalhar para fazermos algo à nossa maneira, deixarmos a nossa marca – disse ?uestlove.

Green lembra bem do primeiro encontro em estúdio, quando ?uestlove e Poyser agendaram algumas horas no Electric Lady Studio em Manhattan, no Greenwich Village.

– Aquilo foi um ensaio. Começamos a esboçar cerca de oito músicas e realmente começamos a pensar o projeto. Ficávamos testando canções e as mudando de um lado para o outro, então não houve maneira de escrevê-las sozinho. Rascunhava os versos de uma, a ponte de outra e todo mundo contribuía ao mesmo tempo. É isso que faz o trabalho ficar bom. Não havia espaço para egocentrismo, todos nós sonhamos em conjunto – disse Green

O dia em questão serviu de base para praticamente completar as 11 canções que compõem o disco. As gravações levaram cerca de dois anos para que Green pudesse escolher com quais músicos trabalharia. Ele conta que os ensaios eram réplicas do sentimento do primeiro encontro, com os músicos transbordando inspiração, pegando em canetas para rascunhar letras, criar linhas melódicas e testar riffs. O próprio Green fez de suas linhas vocais as bases para o acompanhamento de cordas e metais em muitas das canções.

– Esta é a única maneira que sei trabalhar, é assim que fiz ao longo de toda a minha vida. Basta apenas escrever as canções a partir de dentro, do coração – explica Green. – É o que fazemos todos os domingos. Não escrevemos um sermão do nada. Se você não pode pregar a partir do seu coração, certamente você não terá nada a dizer. Tudo vem do coração, esse álbum inteiro, do início ao fim.

Participações especiais

Honrado em participar do álbum, John Legend, não deixa de rasgar elogios ao mestre e à maneira como o álbum foi criado. Convidado a cantar uma canção escrita pela banda ao longo dos ensaios, ao ouvir, Stay with me (by the sea), canção que Green vinha trabalhando com Corine, Legend tirou proveito do espírito de equipe do grupo para pedir a posse de bola

– Ele continua sendo uma das partes mais importantes da história da música negra. É uma honra, sempre amei e mantive enorme respeito por sua carreira. Al é um cantor realmente mágico – derrete-se Legend. – Imediatamente percebi que aquela canção era para mim.

Green faz coro:

– Legend e eu cantamos a canção enquanto Corine fez os backing vocals. Estamos todos incluídos. É uma canção pessoal, sobre a minha vida, mas todo mundo pôde sentir o que eu queria dizer – recorda.

A participação e o empenho da cantora inglesa também impressionou Green. Recém chegada à Nova York, Corine não perdeu tempo e foi direto ao estúdio para se encontrar com os músicos.

– Ela é uma coisinha pequena com uma guitarra enorme nas mãos. Bastou ela começar a tocar e cantar que todos os músicos sentaram, pegaram seus instrumentos e as músicas começaram a surgir. Ela escreveu um verso, escrevi uma segunda parte e juntos terminamos a ponte – lembra Green, que insistiu para que a voz da moça iniciasse a música na gravação final da faixa.
Olhando para trás, Al Green se diz orgulhoso das escolhas que fez e dos artistas que reuniu para compor seu mais novo clássico.

– Vejo que não poderia chamar nenhum outro músico além destes que trabalharam comigo. John, Corine e Anthony cantaram o que estava escrito em seus corações. Quando alguém age assim, posso ter certeza de que darei, também, o melhor de mim – afirma Green.

Lay it down é um testemunho de problemas pessoais, mas o que Green oferece não é um seminário mambembe de auto-ajuda ou um culto espiritual de descarrego. Sua intenção é mostrar que boa música é o bastante para superar seus obstáculos.

– Não falo apenas de coisas boas. Tenho minhas aflições e provações. Experimento sentimentos que nos fazem sofrer, mas me recuso a aceitá-los. O que precisamos é de amor – sentencia.



segunda-feira, 9 de junho de 2008

disSonantes


O projeto pseudo-sensual, 3 na massa, não conseguira atiçar minha curiosidade para além de cinco audições. Mesmo assim, resolvi experimentar aquilo que pode ser considerada a segunda edição do projeto capitaneado pelos músicos e produtores Dengue, Pupilo (cozinha da Nação Zumbi), Gui e Rica Amabis (Instituto). Segunda etapa, pois, se no primeiro um punhado de interessantes vozes femininas, entre elas Céu e Pitty, servia de molho, mesmo que ralo, à massa de canções desenhada e escrita pela trupe, em Sonantes, o núcleo de produtores radicado em Perdizes, São Paulo, ratifica a cantora Céu como musa única de suas experimentações sonoras.

Assim como no projeto anterior, sobra ao novo trabalho sofisticação estética, sons bem tirados, mescla de gêneros em boa medida – ritmos brasileiros e latinos –, ao mesmo tempo em que falta aquilo que deveria servir como principal ingrediente à bossa que os produtores tentam imprimir: melodias e canções memoráveis. Não que a ausência de hits assobiáveis impeça que o disco seja deglutido com prazer, até porque produzir FMs não parece ser, definitivamente, o intuito do projeto. Porém, a expectativa de que, ao menos, Sonantes traga canções que possam ser registradas em nosso inconsciente para depois serem lembradas e cantaroladas a qualquer hora do dia, infelizmente, não se concretiza.

O mesmo ocorria em 3 na massa, álbum que exercitava e sugeria, mesmo que sem êxito, uma intenção ou provocação sexual à la Nouvelle Vague, o que Sonantes não força ou pretende. Apegando-se ainda às referências eróticas, ambos, no entanto, sofrem de uma infeliz coincidência, falta-lhes o gozo final de uma obra bem-resolvida. Os dois projetos patinam em suas intenções, amarram tão bem seus discursos que acabam por aprisionar e extirpar da música sua principal tarefa, a conexão subjetiva, e não pensada, com o ouvinte. O conjunto de produtores aposta em uma masturbação estética isolada ao invés de buscar um encontro sensorial e, por que não, sensual entre as duas partes envolvidas em qualquer trabalho artístico, a interação entre arte produzida e espectador, no caso, ouvinte.

Difícil afirmar isso frente à verdade onipotente dos números que apontam quase 20 mil visitações no myspace da banda. Mesmo que inconscientemente, no entanto, seus idealizadores pareciam vislumbrar a dificuldade que teriam em prender a atenção dos ouvintes. Ao solicitar, no texto em que apresentam o trabalho, que nós (ouvintes) desbloqueássemos nossas vias auditivas antes de escutarmos o disco, seus produtores já temiam que Sonantes pudesse, assim como muitos outros, ser suprimido pela cera auricular imposta pela overdose de informações musicais da ?-modernidade.

O fato é que em meio a uma era em que "o BPM da vida moderna acelera mais e mais e que nem sempre existe a chance de separar o joio do trigo", Sonantes falha ao tentar cumprir seu papel de cotonete musical e seus idealizadores não conseguem evitar que este bem-estruturado projeto passe batido. Reafirmam, assim, mesmo que a contragosto, que a modernidade, o conceito, a tecnologia, a boa produção, o arsenal estético e as boas referências musicais de nada valem sem aquilo que de mais básico a arte necessita para não esvaziar-se: comunicação, o que poeticamente sugere: interação entre almas.

Premissas, intenções e deslizes à parte, ao menos um êxito perfila seguro ao longo das dez faixas do álbum. Ao aliar regionalismos à uma sonoridade tipo exportação, produzida ao gosto do que o mercado internacional, hoje, delimita como música brasileira contemporânea, Sonantes da conta do recado e, assim como o 3 na massa, tem de tudo para alçar vôos em palcos mundo afora, mesmo que para isso se apoie no enorme carisma e talento de sua, agora, vocalista oficial, Céu.


terça-feira, 3 de junho de 2008

I belive in Santogold



Não é de hoje que o fascínio com a cena musical do Brooklyn vem fazendo a minha mente. Já há algum tempo que meus tímpanos vêm sendo massageados por nomes como TV on the Radio, Antibalas, Sharon Jones & the Dap Kings, Yeasayer, MGMT e, agora, aquela que é considerada a nova menina dos olhos, ou melhor, a menina dos ovos de ouro, Santogold.

Desde o início do ano tento um entrevistão com Miss santo-de-ouro através de seu educado e escorregadio assessor (embarreirador) de imprensa, Aleix Martinez. Em fevereiro, na primeira oportunidade, senhoritaouro, ainda em estúdio, terminava de mixar o seu debut e colhia os louros pelos hits incluídos em seu maravilhoso EP, "I believe in Santogold". Não só acreditei na história, como também em sua música, em especial "L.E.S. Artists", uma empolgante referência à cena artística do Lower East Side nova-iorquino.

Semanas depois, o gentil e fluido assessor acenou negativamente à mais uma investida. Como justificativa foi-me passado que santod`oro repousava sua beleza negra frente às câmeras de vídeo, em Londres, para registrar o primeiro videoclipe de sua carreira. Prometendo assim que fosse possível entrar em contato, o afetuoso e liso assessor já deveria esperar, no entanto, que o tal contato fosse feito antes mesmo que ele se lembrasse dos interesses de um repórter instalado nos confins da sulamérica... Ali, bem perto do Congo.

Há duas semanas, terceira insistência, fui informado que santidadeouro havia perdido sua voz em uma recente turnê européia. Comovido fiquei, à ponto de não mandar o filho de uma puta do assessor tomar no meio do cú ao pedir que retornasse em uma semana. Retornei e descobri que Aleix Martinez chama-se agora Gaspar e que Santogold talvez seja mero fruto de minha esquizofrenia.




Surgida nos arredores de Bedstuy e Bushwick, no Brooklyn, Santogold é o nome do projeto idealizado pela cantora Santi White, ex-vocalista da banda indie-punk de Nova York, Stiffed. Compositora e produtora executiva de seus trabalhos, White reúne uma série de influências musicais para seu primeiro vôo solo, como o dub e música pop da década de 80. Descrita por blogs e publicações especializadas como um mistura da incendiária Karen O., vocalista dos Yeah Yeah Yeahs, e da musa funk internacional, M.I.A., Santogold é um verdadeiro combo, um soundsystem que carrega consigo as melhores referências da música pop.

– Começamos tentando escrever canções pop comerciais, algo que nos deixou bastante deprimidos. Então, ao invés daquilo, começamos a escrever canções para nós mesmos – revela Santogold.

Registrado o endereço, Brooklyn, no myspace da moça, seu trabalho não poderia deixar de lado a faceta experimental que ronda a cena do bairro nova-iorquino. Como uma espécie de camuflagem, Santogold é o veículo perfeito para a musicalidade sem fronteiras de sua criadora. Navegando entre melodias enfumaçadas e linhas vocais chapantes, faixas como L.E.S. Artistes e You`ll find a way, do EP I believe in Santogold, são guiadas por contundentes linhas de baixo, big beats, riffs de garage rock, hip-hop, dub e pop.

– As respostas às nossas canções, mesmo antes de materizadas, têm sido, apesar de prematuras, fenomenais – entusiasma-se Santogold – Estamos muito felizes que as pessoas encontrem esperança nas nossas melódicas interpretações sobre a vida, que partem sempre de um campo de batalha pelo amor. Esperamos que cada jovem de vinte e poucos, de San Francisco a Mumbai, além de curtir nossa música, aprenda algo a partir deste trabalho.

Ao lado de John Hill, vulgo Johnny Rodeo, ex-baixista da Stiffed e membro do grupo de produtores nova-iorquinos Shitake Monkey, Santogold caiu nas graças dos maiores DJs e produtores do momento. Para colaborar em seu disco, recentemente lançado, Santogold arregimentou gente de peso, como o produtor Mark Ronson (Amy Winehouse), Disco D, Switch, Freq Nasty, Diplo, Radioclit, o líder do Spank Rock, Naeem Juwan, além da amiga e parceira M.I.A.

Incensada pela mídia britânica Santogold mostra-se muito mais talentosa do que M.I.A. Cotada para o TIM Festival 2008, a moça promete, se vier, um dos mais quentes shows da noite.


segunda-feira, 2 de junho de 2008

New things






Após um estafante dia de trabalho decidi caminhar em direção aos intermináveis chopes do Baixo-Gávea, que varam madrugadas e cartões de crédito, sempre a postos e insones. Ao me deparar com a charmosa, mas careira, loja de CDs (?!), Tracks, não titubeei e adentrei o recinto. Ali, uma profusão de CDs intocados – como virgens santas doidas para serem acariciadas, bulinadas e ouvidas pelo menos por uma única vez – eram cuidadosamente organizados a fim de, pretensiosamente, seduzir algum desmiolado a desembolsar 60 pratas.

Pobres CDs; os larguei sem piedade, ou nostalgia, e parti rumo ao fundo da loja, onde uma minguada coleção de livros jazia disposta nas curtas e empoeiradas prateleiras do pequeno reservado dedicado aos amantes da literatura – musical, diga-se de passagem. E de passagem, como quem não quer nada, de uma hora para outra, senti-me entorpecidamente livre, assim como as frenéticas batidas do grupo afrobeat do Brooklyn, Antibalas, que explodiam quentes pelas caixas de som do local. Tomado de assalto pelas batidas negras que, àquela altura, subjugavam sem cerimônia meu já abalado inconsciente, tratei de apanhar duas pequenas jóias editadas pela Conrad.

O primeiro, "Abutre": obra de estréia do poeta, músico e escritor negro norte-americano, Gil Scott-Heron, ou, como preferem, um dos pais do Rap – quando o termo ainda significava ritmo e poesia. O segundo, "New thing": título que, para mim, era realmente novidade. Folheei suas poucas mais de 200 páginas e me interessei de imediato pela história escrita pelo coletivo literário Wu Ming, que narra o florescer da cultura afro-americana em fins da década de 60. Saquei no impulso meu cada vez mais fino, surrado e esvaziado cartão magnético à débito e silenciei o espírito com minhas duas pequenas new things.















New Thing

"New thing" não é apenas um romance, mas sim, como seu autor, Wu Ming 1, assinala: “um objeto narrativo não-identificado”. Assim como sua obra, o autor italiano e não chinês, como o nome sugere, também faz parte de um "coletivo de escritores não-identificados": batizado Wu Ming. Lançado em março pela Conrad, a obra usa e simula arquétipos do jornalismo investigativo, como depoimentos, entrevistas, artigos e notas para desenvolver um romance calcado em uma suposta realidade: a América negra nos turbulentos anos 60, onde as lutas de classe que se desenrolaram no período e o surgimento do free jazz servem como pano de fundo para uma onda de crimes e assassinatos que invadem os bairros negros de Nova York.

Seguindo a linha da chamada narrativa coral – consagrada no cinema por Robert Altman –, e na história oral de livros como "Mate-me por favor", de Legs McNeil, o autor cria uma verdadeira multidão de narradores-personagens, cujas histórias se encontram e se entrelaçam. Composto por uma extensa gama de entrevistas, documentos e anotações diversas o material condensa a partir de elementos distintos e, por vezes, desconexos uma rede de informações que mistura no mesmo turbilhão, jazz, cultura negra, política e violência.

A partir de depoimentos, ora atuais, ora de arquivo, o livro narra uma história em que as lutas pelos direitos dos afro-americanos no Brooklyn da primavera de 1967 ganham destaque. Exatamente um ano antes do explosivo 1968, quando o establishment norte-amerciano já estava de pernas para o ar, Martin Luther King liderava os protestos contra a guerra no Vietnã, Stokely Carmichael disseminava por toda parte a filosofia Black Power, assim como em Newark e Detroit conflitos de rua eram deflagrados por questões raciais, deixando dezenas de mortos e milhares de feridos. Na música, o título de um célebre álbum de Ornette Coleman passa a batizar um novo gênero musical: o free jazz, ou melhor, a new thing.

Já no Brooklyn, em Nova York, o assunto que mobilizava a comunidade local era uma misteriosa série de assassinatos que, em poucos meses, deixara mortos alguns dos mais ilustres representantes da vanguarda jazzística da cidade. Enquanto John Coltrane - um dos maiores músicos do século XX - morre consumido por um tumor, o misterioso assassino, apelidado "Filho de Whiteman" não pára de matar jazzistas famosos, ou não, assim como ativistas dos movimentos negros. Para a população em geral e para o aguerrido jornal Brooklynite, não havia dúvidas: os crimes eram motivados por ódio racial. Já para a polícia, os homicídios não possuíam relação entre si, muito menos com um suposto serial killer racista.

No entanto, teorias de conspiração começam a surgir e a tensão na cidade chega ao seu limite quando prefeitura, polícia, imprensa e representantes dos movimentos negros continuam a falar cada um à sua maneira, atendendo aos seus princípios – boa parte das vezes distantes e em completo desequilíbrio. Hipóteses das mais tresloucadas surgem sobre quem poderia ser o assassino e sobre o papel do governo dos EUA em todo o ocorrido.

Em uma verdadeira aula de contextualização histórica, Wu Ming 1 mostra conhecimento profundo dos temas postos em jogo, entre eles cultura negra, engajamento social, diferenças humanas, medos, desejos e arte popular, no caso, o jazz. O autor transporta o leitor ao centro dos fervilhantes bairros do Brooklyn e do Harlem nos anos 60. Uma viagem polifônica e nostálgica a dois dos mais genuínos e importantes pólos de efervecência da cultura negra e que, hoje, esvaziados pela especulação imobiliária, são apenas pálidas sombras do que um dia foram e representaram.

Wu Ming

Surgido em 2000, o coletivo de escritores, Wu Ming, compõem uma bem-sucedida rede internacional de sabotagem midiática e guerrilha cultural que abarca o universo do cinema, teatro, quadrinhos, artes plásticas, projetos multimídia e literatura. "Wu - Ming" é uma expressão chinesa, significa "sem nome" ou "cinco nomes", dependendo de como se pronuncia a primeira sílaba.

O nome do grupo tem tanto a intenção de homenagear a dissidência ("Wu Ming" é uma assinatura muito comum entre os cidadãos chineses que pedem democracia e liberdade de expressão) quanto de rejeitar a máquina de fabricar celebridades cuja linha de montagem transforma o autor em astro. A rigor, no entanto, os elementos do grupo não se dizem anônimos anônimos.

– Nossos nomes não são um segredo. No entanto, usamos cinco nomes artísticos formados pelo nome do grupo mais um número, seguindo a ordem alfabética dos nossos sobrenomes – explica Wo Ming 1, ou melhor, Roberto Bui, que é acompanhado por Giovanni Cattabriga, Wu Ming 2; Luca Di Meo, Wu Ming 3; Federico Guglielmi, Wu Ming 4; e Riccardo Pedrini, Wu Ming 5.

Entre 2000 e 2006, a obra de maior destaque internacional do grupo está no romance 54 (Conrad, 2005), thriller de espionagem internacional envolvendo o ator Cary Grant, o ditador iugoslavo Marechal Tito e o mafioso Lucky Luciano. Os membros do grupo também escreveram livros "solo", entre eles, New Thing, de Wu Ming 1, lançado em 2004 e só agora traduzido para o português. Ainda na praia do jazz, em 2007, também foi lançada uma coletânea de jazz dos anos 60 organizada por Wu Ming 1, The Old New Thing (composto por 2 CDs e um livro).