NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

terça-feira, 24 de março de 2009

Um horror!

Os esquisitíssimos e hypados góticos do The Horrors voltam com novo álbum, Primary colours, a ser lançado em 4 de maio, e com novo single: "Sea Within A Sea". Faris Hotter, o vocalista magricela e gigante que há alguns anos foi esmurrado no meio da rua por um louco qualquer, apresentou ontem, em Londres, o novo repertório. Após a presentação, o guitarrista Joshua Third disse à NME que o segundo disco abre um novo capítulo para a história da banda (OH!).

– Estamos excitados há tempos para apresentar esse material. Nós evoluímos completamente como banda. Acho que essa é uma boa maneira de descrever o que sinto.

Os músicos aposentaram o antigo visual e apostaram em modleitos mais simples: calças de couro e camisetas de malha, é claro, negras.

– Não queremos mais o visual do passado. É questão de deixar para trás e olhar para frente agora. Sempre tentamos fazer algo novo, e agora parece um pouco bobo tocar as antigas canções".

Aquele velho papo. Assista (ou não!) o bom clipe e a longa e cansativa música (8m23!) que tem tudo para afundar o disco:

Cadê o Jack?!

Enquanto escrevo essa notinha, ouço desatentamente às novas duas canções da terceira banda de carreira do mais interessante guitarrista do pop/rock dos últimos anos (alguém duvida?), Jack White e sua Dead Weather. Nos vocais Allison Mosshart, conhecida como a VV do duo The Kills; o parceiro Jack Lawrence, do Raconteurs, assume o baixo e Dean Fertita, do Queens of the Stone Age, adiciona distorções stoner nas guitarras. E Jack (não pode ser!) faz malabares nada animadores com as baquetas. O fato é que as duas canções disponíveis no Youtube e para compra via Itunes e no site oficial são bem mais ou menos. Abaixo, os "clipes" de "Hang You From the Heavens" e "Are Friends Electric?", essa última com um climinha de abertura bem Raconteurs!



segunda-feira, 23 de março de 2009

Radiohead, NIN e Jane's Addiction

Sim, um post com três das bandas mais importantes e inventivas dos últimos anos:

# Sem tempo para elucubrações detalhadas que pudessem conferir maior ou menor impacto à impressionante apresentação do Radiohead, viro a página. Mas, sim, tenho que dizer: Thom Yorke e companhia fizeram valer a espera, com um espetáculo nos mais amplos sentidos. Som muito bem tirado, telões de altíssima definição, imagens bem enquadradas, iluminação climática e de acordo com o que cada um das 25 canções sugeria. E que canções. Creep, que poderia soar descolada, foi a verdadeira redenção – uma catarse sensorial que tirou o ar de quem já estava cansado, esbaforido e afônico depois de tantos berros, gritos e cantos escandalosos. No surprises, Nude, Karma police entre muitas outras pérolas soaram como pluma na voz flutuante de York, que envolveu do início ao fim todos os compenetradíssimos 20 mil e poucos fãs.

# Não perca tempo! As fotos que sugeriam que o Jane's Addiction estava aprontando todas no estúdio do alucinado Trent Reznor não eram ilusão de fã entorpecido. Juntos, JA e Nine Inch Nails, preparam uma mega turnê a ser iniciada dia 5 de maio. Para esquentar os ouvidos dos fãs, as bandas lançam virtualmente um EP com seis canções. Acesse: http://ninja2009.com/ Como sempre nos mais diversos formatos. Ah, o projeto conta ainda com a nova banda do incansável Tom Morello (Rage Agains the Machine, Audioslave e The Nightwatchman), que se une a Boots Riley para montar o Street sweeper. Ao todo são 6 canções. Abrindo com a tribal e percussiva Chip away (JA), seguem-se Not so pretty now (NIN), Clap for the Killers (SS), Whores (JA), Non-entity (NIN) e The oath (SS).

sábado, 21 de março de 2009

Celebração da dessintonia














Não foi à toa que o Los Hermanos abriu sua apresentação de retorno, mesmo que indefinido, com a canção Todo carnaval tem seu fim. O título da faixa, cunhada para o álbum Bloco do eu sozinho, parecia um sinal, ou mensagem subliminar que indica, principalmente, que a reciprocidade musical e intelectual inconsciente que serviu durante tantos anos (mesmo os de hiato) como elo indissociável entre os comparsas se desfez, ou talvez, tenha se perdido, pelo menos na noite de ontem. Inseguros, desinteressados ou desconfortáveis com a volta aos palcos após dois anos de recesso? Não se sabe a resposta, talvez nem eles.

Felizes, ao menos, eles pareciam estar, mas a frieza com que se comunicaram com o público desde o instante em que pisaram o palco e a falta de pujança na interpretação das canções, assim como na formatação do repertório (irregular) de 18 canções, fizeram do show dos Hermanos uma espécie de quarta-feira de cinzas para os fãs, em que as músicas soaram arrastadas e melancólicas, onde as cores dos confetes e serpentinas, tão inerentes às antigas apresentações do grupo, se transmutaram em um negro palco de atores pálidos vestidos de costumes escuros entoando uma marcha hermânica fúnebre. Selaram, assim, a celebração da dessintonia musical. Uma pena, apesar de grande canções como a supracitada, O vencedor, Cara estranho, A flor, Sentimental, entre poucas outras terem levado os fãs a romperem gogós em abraços emocionados.

terça-feira, 17 de março de 2009

Baladas de pista

Mesmo passados alguns bons dias, é preciso ressaltar que o show do Keane, no Citibank Hall, foi uma ótima experiência. Baladas de melodias pungentes, que sempre foram o forte do grupo, ganharam aliados de peso com os sintetizadores, guitarras e levadas mais dançantes das novas oito canções extraídas do último álbum dos ingleses, Perffect Symmetry. Entre elas, a faixa-título – "Iremos apresentar agora a melhor música que escrevemos em toda a nossa carreira. Ela resume todos os nossos questionamentos", disse Chaplin – e a saculejante Spiralling. Tom Chaplin mostrou que dá conta do recado. Mais magro que nunca, abusou do gestual, das corridinhas pelo palco, da sua guitarra Fender Telecaster, da sua afinação e voz límpida para cantar refrões inspirados, como os das canções Somewhere only we know, Crystal ball e Is it any wonder?

Abaixo, entrevista com o tecladista, baixista e principal compositor da banda, Tim Rice-Oxley:
O piano começa a ficar no passado

Mesmo sob o furor do lançamento do seu disco de estreia, o cortejado Hopes and fears, em 2004, nada impedia à crítica de tachar insistentemente o Keane como um simulacro do Coldplay e de suas baladas melancólicas cunhadas ao piano. Cinco anos mais tarde, um verdadeiro espiral de acontecimentos e mudanças afastou o grupo das incômodas similaridades e o tornou quase tão grande quanto o quarteto liderado por Chris Martin – pelo menos em seu país de origem, a Inglaterra. Mas, ao irromper como uma banda remodelada sonora e visualmente em seu terceiro álbum, o elogiado Perfect symmetry (2008), que serve de base ao show que os ingleses apresentam dia 13 de março, no Rio, o trio se viu envolto em mais uma nuvem de equiparações; dessa vez reservadas ao grupo americano The Killers.

– É até legal porque gostamos deles, mas fazemos sempre o que temos vontade. Ser comparado ao The Killers não muda em nada a nossa forma de fazer música – diz ao Jornal do Brasil o tecladista, baixista e principal compositor da banda Tim Rice-Oxley, por telefone, direto da pequena cidade costeira de Plymouth, a 310 km ao sul de Londres.

Ao ser questionado se as tentativas de balizar o som da banda através de análises comparativas tecidas pela mídia especializada ainda o incomodam, Oxley desdenha do arsenal crítico e defende a opção por trabalhar com os produtores Jon Brion (Kanye West e Dido) e Stuart Price (Madonna, Seal e The Killers) apenas como uma necessidade de evolução e de suprir novos desejos de cada um dos integrantes.

– Procuramos Price porque a banda urgia por mudanças – revela o músico. – Queríamos explorar algo mais dançante e funkeado. Talvez para as pistas de dança, sim. As canções têm a ver com uma proposta de club, um som elétrico que faça as pessoas pular. Os shows estão cada vez mais vibrantes, com muita energia e movimentação.

Canções milionárias

Com mais de 7 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo (o último já acumula 584 mil cópias) e tendo os singles à base de piano do disco de estreia – como Somewhere only we know – ainda quentes no imaginário de muitos fãs, Oxley explica que era preciso abandonar fórmulas de sucesso e arranjos mais simples para desbravar um novo caminho, mesmo que não tão experimental assim.

– Amamos testar, descobrir e expandir limites. Sabíamos que era possível fazer música de outra maneira – explica o músico. – Amamos ser desafiados, e encontramos uma ótima oportunidade quando decidimos gravar o novo disco. Sinto que o álbum guarda uma sonoridade renovada, fresca e dançante. Algo variado e muito mais poderoso. É como se estivesse à beira de me lançar numa aventura.

Além de lapidar a construção sonora de sua canções com o uso massivo de camadas de sintetizadores e a infusão de pequenos riffs e notas de guitarra (instrumento inédito nos discos do grupo), e apesar de soar mais expansivo e ensolarado – mesmo com o clima de pista – o novo Keane busca repaginar aspectos ainda mais profundos de seu painel autoral. Oxley afirma que o conteúdo e questionamentos impressos nas letras estampam um novo rumo de temas a serem abordados pelo grupo. Alinhado ao conceito de simetria perfeita, que marca o título da nova obra dos músicos, ele tenta explicar as relações subjetivas que entrelaçam suas ideias e canções.

– Escrevo sobre a capacidade de acreditar e sonhar que a humanidade e a vida podem ser melhores e mais promissoras – acredita. – É um conceito que se assemelha a um sonho, justamente porque no mundo falta simetria e igualdade. Cerco-me de um pouco de ironia, talvez. Então é como uma utopia possível: querer e trabalhar para mudar a realidade não tão favorável na qual vivemos.

Oxley ressalta que são muitas as diferenças entre o grupo que iniciou a carreira em 2004 e se apresentou no Brasil em 2007 e a nova fase. – Em Perfect... apresentamos algo recheado de cores e aspectos visuais. Ao mesmo tempo em que refletimos sobre a humanidade e acreditamos em sonhos como uma espécie de obsessão, nos sentimos mais felizes e mais em paz com nós mesmos. Estamos mais elétricos e roqueiros, animados e descontraídos no palco, com músicas variadas e excitantes.

Desconstrução de um sedutor

Um Don Juan infiel e imortal, que foge do seu perfil original numa completa desconstrução cênica. É o que propõem o produtor Allan Souza Lima e o diretor belga Thierry Trémouroux, que estreiam – e também atuam, ao lado de João Velho – nesta sexta, no Espaço Sesc, uma livre e nada fiel adaptação à célebre obra homônima de Molière. Brincando com a condição imortal do mito, eles fazem de tudo para fugir do texto clássico e de uma representação fidedigna do personagem. Um infiel por essência, que vive em constante fuga para se livrar da existência sedutora, mas vazia e solitária que criou para si desde a infância até a sua morte.

O produtor e ator Allan Souza Lima conta que passou o último ano atuando na novela Caminhos do coração (da Record) para levantar fundos e se dedicar à produção. Explica que a encenação se inicia com um debate sobre a infidelidade da peça para com o texto original; do diretor em relação aos atores; e destes em relação ao papel principal.


– São quatro atos que acompanham a trajetória de Don Juan desde o nascimento até o fim da sua vida, e também o surgimento de seus discípulos. Um deles sou eu – resume o produtor.

Atuando boa parte do tempo como o serviçal Leporello, no meio do espetáculo o ator João Velho encarna Juanito. E se aproveita da ambiguidade insinuada por seu próprio nome.

– Juanito representa sua fase infantil, quando começa a testar seus poderes de sedução e a exercitar suas primeiras safadezas. Faço um personagem imaginado, pensando como Don Juan seria na infância – descreve João, que é filho do ator Paulo César Peréio. O veterano participa do espetáculo numa imagem projetada em que dá uma lição de moral no conquistador.

O ator afirma que a infidelidade e as constantes fugas do protagonista aproximam a montagem de uma sociedade de realidades e sentimentos efêmeros como a nossa. Num mundo em pânico, frenético e caótico, Don Juan sentiria-se em casa.

– Essa balbúrdia alucinada pertence ao seu movimento vital. Por isso ele é tão contemporâneo.

Radicado no Rio desde 1992, Thierry Trémouroux volta a apostar, em seu novo espetáculo, em um mito como principal objeto de investigação e trabalho. Em 2001, além da montagem da peça Aqui jaz Marilyn Monroe 92-58-89 (da dramaturga alemã Gerlind Reinshagen), com sua companhia L’Acte, o belga promoveu leituras de Santo Elvis, do francês Serge Valletti.

– A desmitificação me interessa. Atiça minha curiosidade a idéia de descobrir o que se passa por trás desses grandes homens que não morrem nunca. Quando um mito fisga minha atenção, sei que tenho mais uma peça e uma personalidade para dissecar – conta o encenador.

A nova montagem repensa o mais famoso personagem cunhado por Molière. Lançando mão de diversas influências cinematográficas (Ingmar Bergman), literárias (o romancista Peter Handke) e até psicanalíticas (Lacan), os atores João Velho, Allan e o próprio Thierry dão vida ao célebre personagem, mas sem necessariamente encarná-lo. O diretor explica que Don Juan contamina e passa pela vida de cada um dos atores.

– Somos infiéis ao personagem e à peça de Molière, como o próprio protagonista é infiel. A maneira como Don Juan manipula as pessoas serviu de base para a encenação – afirma o diretor. – A peça se inicia com um clima circense, uma espécie de teatro dos horrores, onde o conquistador faz truques mágicos para seduzir as mulheres e a plateia, o que representa a grande encenação que foi toda a sua vida.

O diretor trata sua adaptação como um jogo de metalinguagem sutil em que discute a função do ator em cena. Ele afirma que a encenação estimula um olhar questionador sobre a condição dos atores, que ora atuam como o personagem e ora fora deste.

– Relaciono o nosso ofício ao hipócrita, que é a tradução em grego para o termo – explica Trémouroux. – Não podemos tratar da construção de um personagem sem a desconstrução do ator no palco. O Don Juan desconstruído que propomos é o nosso próprio espelho.

Em suas pesquisas, o ator passou a tratar o tubarão como uma espécie de símbolo para o espetáculo.

– É o maior predador dos mares. Está sempre nadando, porque se parar, ele morre. O Don Juan também está sempre em movimento atrás da sua presa – compara João. – No entanto, não o representamos como um personagem malandro, que se dá bem pegando todas as mulheres. Ele envelhece e cai num vazio existencial, mas sem maniqueísmo ou moralismo. Não passamos a mão na cabeça de ninguém, nem das mulheres que são seduzidas ou enganadas por ele. Ninguém é inocente.

Espaço Sesc – Sala Multiuso – Rua Domingos Ferreira, 160, Copacabana (2547-1088). Cap.: 70 pessoas. 6ª e sáb., às 20h; dom., às 19h. R$ 10. Estudantes e idosos pagam meia. Associados do Sesc pagam R$ 2,50. 14 anos. Até 5 de abril.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Intrépida trupe respira seus sonhos

Os raios de sol que devassam os janelões de vidro e a cobertura de metal que abriga o espaço de criação da Intrépida Trupe, na Fundição Progresso, somam às altas temperaturas deste verão o calor dos preparativos para uma temporada de novidades quentes e inusitadas para o grupo, que desde o lançamento de Metegol, em 2006, não levava suas acrobacias ao público carioca. Após circular pelas maiores capitais do país, além de passar 2008 estudando novos projetos e driblando a crise econômica para captar patrocínio, a companhia formada por Cláudio Baltar, Beth e Valéria Martins e Vanda Jacques anuncia não apenas um, mas quatro trabalhos (três deles inéditos), com conteúdo e temporadas independentes, que recheiam o calendário de março até setembro. Criados e dirigidos por cada um dos diretores, a série de espetáculos se inicia com a remontagem de um dos maiores sucessos do grupo, Sonhos de Einstein (2003), que será dirigido por Baltar a partir do próximo dia 20.

Bendito o fruto entre as mulheres que o cercam, ele acredita que os novos trabalhos individuais da Trupe refletem o amadurecimento de todos, que unidos completam, em 2009, 23 anos de existência – a Intrépida surgiu como parte de uma missão cultural brasileira no México, durante a Copa de 1986. Até então condicionados a trabalhar em conjunto, os realizadores decidiram que era hora de a Trupe absorver os sonhos individuais de cada um. Apesar de acreditar que a troca gerada pelas diferentes personalidades e visões artísticas seja o maior trunfo da equipe, o diretor afirma que era preciso mudar.

– Trabalhamos sempre juntos durante mais de duas décadas, e quando decidia fazer algo apenas meu precisava me afastar – conta o diretor. – As diferenças e somas de ideais sempre foram o nosso barato, mas isso acaba castrando a necessidade de cada um de fazer o seu projeto. Era urgente poder respirar os nossos sonhos um por um. Estaremos sempre juntos, e esta é apenas uma nova forma de trabalho que encontramos.

Ele considera Sonhos... o mais bem-sucedido espetáculo desenvolvido pela Trupe em termos de receptividade do público e repercussão crítica. Baltar lhe garante status de obra especial devido a conexão exata entre os conceitos, que unem a linguagem da dança, circo e teatro com o texto do livro homônimo, escrito por Alan Lightman, que retrata o jovem e inquieto Einstein obcecado pela questão do tempo e em meio a criação de mundos fictícios.

– Kaboom e ARN foram importantíssimos, mas Sonhos... foi nosso ponto mais alto – atesta Baltar. – Buscamos para ele uma dramaturgia que é basicamente uma reflexão sobre o que o nosso trabalho tem de essencial, que é o desafio às leis da gravidade. É um espetáculo aberto, que deixa a imaginação fluir e engloba a todos porque o mundo da física está presente na vida de cada um de nós e não apenas na de um acrobata. Somos regidos pelas leis físicas, apesar de não nos darmos conta disso no dia a dia.

Ligação com as artes plásticas

Em 23 de maio será a vez de Beth Martins apresentar Preciosa idade, em que novas criações e clássicos do repertório serão reunidos e recriados por um elenco jovem, formado pela própria escola da Intrépida. Habitué de galerias de arte, exposições e mostras de artistas plásticos contemporâneos, Valéria Martins define sua instalação, ou melhor, seu projeto cênico como uma forma de explicitar a proximidade entre a linguagem teatral-dançante-circense da Trupe e o universo das artes plásticas. Junto aos artistas Raul Mourão, Pedro Bernardes, Hugo Ferraz e Marta Jourdan, ela elaborou o inédito Coleções, que estreia 5 de junho, com quatro intervenções artístico-urbanas ao ar livre, no Museu da República.

– Estava na hora de provocar uma interação mais declarada entre a nossa linguagem corporal abrangente e híbrida com as artes – afirma a diretora. – Talvez seja o início de uma pesquisa de linguagem que poderá se desdobrar.Noites intrépidas, de Vanda Jacques, encerra a temporada 2009 num encontro entre as diversas vertentes do circo contemporâneo. Atuais e ex-integrantes, entre outros convidados, se reunirão para desenvolver novos caminhos a partir de 24 de julho.– Proponho refletir a trajetória de invenções e investigações desse nosso corpo intrépido que não cansa de se arriscar – diz Vanda.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Amarante canta hits dos hermanos em SP















Um mês após fazer seu último show à frente do Little Joy, no Circo Voador, e duas semanas antes de subir ao palco na Praça da Apoteose para a esperada reunião do Los Hermanos – apresentação que abre a noite do dia 20 de março para a apresentação dos alemães do Kraftwerk e dos ingleses do Radiohead – Rodrigo Amarante aproveita sua entressafra musical. Entre as atividades de “férias” está a série Rumos Convida, iniciada na última quinta-feira com a big band brasiliense Móveis Coloniais de Acaju. No sábado, Amarante se juntou à mulher Karine Carvalho e ao amigo Fernando Catatau e seu Cidadão Instigado para a apresentação mais concorrida do projeto.

Amigos desde a adolescência, época em que surfavam juntos nas praias de Fortaleza na década de 90, Amarante e Catatau promoveram um encontro musical fraterno com canções de melodias nostálgicas, melancólicas e praianas, como a parceria inédita Land of light, cantada metade em inglês e português.

– Conheci esse cara em Fortaleza, a gente era da galera do surfe. Psicodelia, style, uhu! – brincou Amarante, saudando a platéia com um hangloose. – Roubei uma fita VHS do Santana, que era do meu pai, e dei de presente para ele. Comprei a amizade assim, já que ele era mais velho, eu tinha 14 anos e tal. Acho que ele até já tocava guitarra mais ou menos, mas depois disso virou fã do cara.

Por volta das 17h, enquanto do lado de dentro do teatro Amarante aprendia os acordes de Minha imagem roubada na passagem de som, mais de 50 pessoas já ocupavam a calçada em frente à sede do Instituto Itaú Cultural para garantir as disputadíssimas senhas para o show, marcado para as 20h. Como na quinta-feira, quando o Móveis Coloniais e o trombonista Bocato levaram a produção do evento a organizar duas sessões extras, o encontro de Amarante com o Cidadão Instigado rendeu o mesmo para os fãs.

– Como é que vai ser tocar três vezes, cara? Minha energia foi quase toda aí – indagou Catatau, no camarim, logo após a primeira leva de canções.

– Cara, a gente segura a onda – animou o guitarrista Regis Damasceno.
Empunhado diversas guitarras, como uma bela Flying V e uma gatorra negra, Catatau arremessava solos distorcidos com os timbres característicos que os seguidores dos LH aprenderam a admirar. A inédita O nada abriu o espetáculo com a voz anasalada de Catatau, convocando a todos para deixar os ladrões entrarem em suas casas e levarem tudo.

– O nada, assim como Uhu e Recomeçar são canções inéditas que apresentamos e que estarão no nosso próximo álbum. São todas composições minhas e algumas coisas mudaram em relação à estética e aos temas. Começamos a gravar essa semana e devemos lançá-lo em junho, mas ainda estamos discutindo o nome do trabalho – diz o músico, referindo-se ao sucessor do álbum E o método tufo de experiências (2005).

Foi só Amarante subir ao palco, que já contava com Karine, para que a comportada plateia deixasse de lado a compostura a pedido do próprio. Canções dos Hermanos como Do sétimo andar, Evaporar e O vento despertaram os gogós das cerca de 200 pessoas que lotavam o espaço e se juntaram aos temas mais conhecidos do Cidadão Instigado, como O pobre dos dentes de ouro, O pinto de peitos e Os urubus só pensam em te comer.

– Teatro é silêncio demais. Show é para fazer barulho, galera. Muito obrigado – agradeceu Amarante, o último a deixar o palco, após ter sido acompanhado em uníssono nas canções hermânicas de sua lavra que serão novamente apresentadas no próximo dia 20, no Rio, ao lado de Marcelo Camelo, Bruno Medina e Rodrigo Barba.

Euforia na rua, plateia e palco em SP















Meia-hora antes de começar o show da big band brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, que recebeu como convidado especial o trombonista Bocato na noite de estreia da série de shows Rumos Convida, a face do quarteirão que margeia a Avenida Paulista e abriga a sede do Instituto Itaú Cultural comportava uma grande fila com cerca de 300 jovens alinhados na calçada. O público era muito maior do que a mais otimista das expectativas poderia prever, e os organizadores do evento tiveram que desdobrar a única performance em mais duas sessões para acalmar os ânimos daqueles que disputavam ingressos na entrada do prédio.

De camiseta regata estampada, corpo esguio e com um cabelo black power de um palmo de comprimento acima do couro cabeludo, o energético vocalista André Gonzáles dançava de um lado para o outro do palco, conversava e interagia com os fãs a todo momento, assim como os outros nove instrumentistas que compõem o grupo. Ao lançar sua mistura de ska, rock, música latina, jazz, entre outros estilos, o grupo ficou surpreso com a devoção do público paulista, que entre berros escandalosos e requebros espasmódicos entoava em altíssimo som as canções do primeiro disco da banda, Idem (2006).

– Geralmente entramos no palco limpinhos, com roupas secas e arrumados, agora já estou todo molhado. Mas é do caralho poder tocar essas três sessões para a galera que ficou esperando tanto tempo do lado de fora, na fila – diz o vocalista André Gonzáles.

André e sua trupe comemoravam naquela noite o fim das gravações do próximo CD, C_mpl_te, que estará disponível para audição a partir do dia 18 de março através do site www.moveiscoloniaisdeacaju.com.br. Em abril, o disco poderá ser baixado gratuitamente pelo Álbum Virtual (www.albumvirtual.trama.uol.com.br). Com produção de Miranda, o novo trabalho do Móveis, que começou a ser gravado nos estúdios da Trama no fim do ano passado, contará com 12 canções inéditas, mas muitas já conhecidas do público.

– Levamos um ano compondo e criando o novo disco. Estivemos nos últimos três meses em estúdio e, exatamente há duas horas, terminamos o trabalho. Por isso estamos muito felizes em tocar para o público. Ainda não sabemos o dia exato em que o novo álbum estará disponível. É para ficar atento – aconselha o trombonista Xande Bursztyn.

Expulsos pelas notas expulsas pelo quinteto de sopristas, os hits Copacabana, Perca peso, Menina da Moca, entre outras, receberam tratamento de gala com a performance de Bocato e os diálogos musicais que ele travava com cada integrante do Móveis. O instrumentista, que já rodou os principais palcos do país acompanhando nomes como Roberto Carlos, Elis Regina, Ney Matogrosso e Rita Lee, estava visivelmente emocionado com o calor do público que berrava seu nome a cada solo e intervenção.

– Fico feliz em receber toda essa energia do público e de ouvir da rapaziada do Móveis que eles curtem o meu som há tempos. Esse é o maior objetivo da música: fazer com que uma felicidade com conteúdo invada nossa mente. Não é como uma noite num bordel onde você se acaba e nada resta. Aqui no palco o prazer e a felicidade se eternizam – disparou Bocato.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz


















É como a linda e "apetitosa" capa do álbum "It's Blitz!" indica: a gema sonora estourada em 2003 com o début "Fever to tell" e amadurecida com "Show your bones" (2006) estoura, sai da casca e remodela o arsenal sônico do trio Yeah Yeah Yeahs, que de três em três anos acostumou-se a estalar uma onda de fumaça, levadas dançantes, gritos lascivos e sensuais nas pistas de dança e nas prateleiras físicas e virtuais web afora. O som de inferninho noturno produzido pelo grupo, que sempre soou e funcionou muito bem como trilha sonora para noites de êxtase e entorpecimento, volta à ativa com atmosfera renovada, mas sem deixar completamente de lado o esqueleto musical de garagem que o catapultou na borbulhante Nova York do início dos anos 2000. 
 
Neste terceiro disco de carreira – com lançamento previsto para o dia 13 de abril, mas já disponível na internet – as melodias sensuais proferidas pela boca carnuda, avermelhada e provocativa de Karen O. e as sinuosas linhas de guitarra e baixo arremessadas pelos pedais e amplificadores do guitarrista Nick Zinner continuam intactas. No entanto, uma pulsante e distorcida levada de sintetizador serve para anunciar o novo single, "Zero", assim como para colorir o agora sofisticado e moderno universo pilotado pelo grupo, que conta ainda com o batera Brian Chase. 

A faixa é um amálgama das multifacetadas correntes musicais que atravessaram os dedos de Zinner durante os últimos três anos – ou desde que a banda se apresentou no TIM Festival, em 2006. O multi-instrumentista, assim como em muitas bandas do momento, adiciona sintetizadores para todo o lado, mas dá seu toque ao unir às novas eletronices do grupo distorções potentes, que remetem ao rock industrial de Trent Reznor e seu Nine Inch Nails. E também ao apostar num espectro mais amplo e espacial para os arranjos, que recebem camadas de notas lineares de guitarra buriladas pelas mãos de David Sitek (TV on the Radio). O músico assina a produção do álbum junto com Nick Launey (Arcade Fire, Silverchair e Lou Reed), responsável pelo aclamado EP Is is, lançado em 2007.
 
"Heads will roll" e "Soft shock" seguem a mesma linha de "Zero": combinam introduções lentas, com vocais mastigados sílaba a sílaba, até atingirem o clímax em levadas rítmicas que as aproximam da disco music e da vertente eletro. A aventurosa guinada do grupo, porém, se revela ao mesclar minimalismo e grandiloquência em canções como "Skeletons" e "Runaway". Com arranjos orquestrais, ambas seriam inimagináveis para a banda que em 2003 arrancou os cabelos dos fãs e se tornou febre com os incendiários singles "Maps", "Y control" e "Date with the night". Já "Dull life" faz o trajeto de retorno da viagem sinfônica e atira a banda novamente em seu redemoinho de urgência apocalíptica e agressividade – elementos que impulsionaram a então iniciante banda nova-iorquina, liderada por uma garota, a ser considerada muito mais do que um mero e repaginado estereótipo riot grrrl.

Ao fim de suas 10 faixas, It's Blitz! desvela um curioso painel de contradições: o grupo soa mais ousado e inventivo, porém menos perigoso e direto. É a partir de melodias mais fluidas e ritmos menos angulosos que o YYYs emoldura seu trabalho mais consistente, mesmo que, às vezes, o álbum necessite de uma verdadeira blitz para que suas delicadas nuances não se percam em um emaranhado sonoro dispersivo.

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

O pop metafísico de Leo Cavalcanti




Uma filiação nobre, um punhado de canções postas na internet, além de elogios e audições atentas das cantoras Adriana Calcanhotto e Fernanda Takai: eis o começo do culto ao trabalho do jovem músico paulista Leo Cavalcanti. Apresentado como uma das promessas da música brasileira para 2009 no Caderno B do último domingo, o cantor de 24 anos, filho do compositor Péricles Cavalcanti, ainda é um ilustre desconhecido da cena musical carioca. Mas já se consagrou no cenário musical emergente em São Paulo e também no universo virtual, onde suas canções são caçadas como pequenos tesouros.

Concentrado na gravação do seu álbum de estréia, a ser lançado no segundo semestre, Cavalcanti também se empenha em remixar cinco faixas registradas numa home session, e que vão se transformar no EP Ao Leo – em parte disponível para audição na sua página no Myspace (www.myspace.com/leocavalcanti).

– Quero lançar o disco nos mais diferentes formatos – adianta o músico. – Não penso em ganhar dinheiro com a venda de CDs. Quero fazê-lo circular para que impulsione muitos shows. Amo o Rio e estou louco para tocar aí. Acho que minha obra tem muito a ver com o clima da cidade.

Cavalcanti é também produtor e arranjador de composições como Frenesi de otário e Vou ser você, entre outras, que carregam genes exóticos e perpassam o flamenco de Paco de Lucia, a percussão africana, orquestrações árabes, instrumentos de sopro e a música árabe-andaluza, herdada do império muçulmano na Espanha. Ainda se esgueiram entre o pop de Michael Jackson, o soul de Stevie Wonder, o ritmo de Jackson do Pandeiro e o samba de Noel Rosa e Nelson Cavaquinho. Tal emaranhado sonoro é definido pelo autor como "pop metafísico".

"Originalidade é o trunfo"

– Fiquei impressionada quando ouvi o trabalho de Leo e o assisti ao vivo – diz Adriana Calcanhotto. – Ele tem uma linda voz. De extensão incrível e afinação precisa. É extraordinário. Um enorme talento.

A cantora mineira Fernanda Takai é outra que se rende aos encantos do paulista. Após receber uma demo num show em São Paulo, a vocalista do Pato Fu se derreteu ao ouvir canções como Medo de olhar para si e A tal da paciência.

– Suas músicas são excelentes e prenderam minha atenção de imediato – conta Fernanda. – Nunca ouvi nada como o que ele faz. A originalidade é o trunfo de qualquer artista. E ele tem isso na forma de compor, produzir e cantar. Ser completo assim tão jovem é um sinal de consistência.

O músico se define como uma espécie de terapeuta musical.

– Os temas que eu abordo e o modo como componho refletem os pontos centrais das minhas crises – esclarece. – Verso sobre os assuntos que considero problemas fundamentais: a briga eterna que o ser humano trava consigo mesmo e a forma como nos boicotamos e deixamos de explorar nosso potencial criativo e de amor.

Mergulhado em inusitadas misturas rítmicas, harmônicas e líricas, Cavalcanti dá vazão a sua profícua imaginação musical em um estúdio caseiro. Pilota sozinho as traquitanas que originam beats e grooves eletro-acústicos, como violão, baixo, guitarras, cajón, beat-box, palmas e timbaus. Da sua voz ambígua e suave, reverbera um manancial de idéias e questionamentos internos.

Para o pai do compositor, a aflorada musicalidade do filho era evidente desde criança, quando o caçula tirava de ouvido harmonias complexas e distinguia tonalidades de canções mesmo sem conhecimento teórico. Mas observa que as canções do jovem são muito diferentes das suas.

– Falo para o (Gilberto) Gil que o Leo é filho dele, e não meu – provoca Péricles Cavalcanti. – Ele tem aquele violão exuberante, explora divisões rítmicas complicadas e esbanja no uso das metáforas. É extremamente visual e barroco ao construir suas canções.

E o filho complementa:

– Mas tenho um compromisso natural para que as canções soem frescas e não carregadas de lamúrias. A vida não precisa ser martírio. É preciso haver celebração. Quando tudo isso se transforma em ritmos e melodias, temos um poderoso instrumento de meditação.

A afinação impecável e os agudos límpidos povoam os arranjos. Coros de vozes em camadas preenchem os vazios deixados pela escolha de poucos instrumentos.

– Começo a compor no violão, buscando células rítmicas completamente inusitadas – detalha. –O problema surge quando tenho que encontrar melodias e letras que se encaixem nessas coisas malucas. Mas gosto de transformar essa confusão em canções de apelo pop.

Timidez some no palco

Suas catárticas performances ao vivo, quando Cavalcanti dança e delineia movimentos corporais precisos, fazem parte do final de seu processo de elaborações mentais.

– Minha preocupação é com o canto e de como me sinto no palco – garante ele. – Sou tímido nas relações sociais, mas parece que me aferro num fio condutor que me guia ao palco e me deixa seguro.

Além dos shows em locais badalados como Studio SP e nos teatros do Sesc Paulista, o músico se dedica a dar aulas de ioga e usa suas mãos como massoterapeuta. Estudioso das ciências holísticas, que prezam a conexão entre o corpo e a mente, o músico não abre mão das sessões de psicanálise.

– Desde criança tenho elaborações existenciais – conta Leo. – Sempre fui inquieto em relação a questões sobre os nossos mundos externo e interno. Escrever sobre isso é o que me pega na veia. Não assino histórias ou idéias pensando no entretenimento de determinados guetos e não faço relatos concretos das situações que vivo.

Parceira musical do pai Péricles, Adriana Calcanhotto admira a inteligência das letras e temas abordados por Leo.

– São mergulhos psicológicos muito bem elaborados – elogia Adriana. – Além disso, ele tem uma forte ligação com o teatro, o que o ajuda a apresentar um trabalho de palco muito original.

A admiração das cantoras se estendem a possíveis parcerias. Adriana, que já se apresentou no mesmo palco que Leo, dá o aval.

– É possível que façamos algo, mas o que interessa é vê-lo trilhar essa interessante carreira.

Já Fernanda incentiva Leo a investir em seu viés autoral.

– Posso estar antecipando algo, mas digo que o Leo é um artista que tem ótimo material para mostrar às pessoas – aposta Fernanda. – Quem sabe não trabalhamos juntos.


Chuvarada - Leo Cavalcanti + Tatá Aeroplano


Medida por medida

Montada pela primeira vez por uma produção 100% brasileira, a encenação da comédia Medida por medida, de William Shakespeare, estréia da semana no Centro Cultural Banco do Brasil, marca também a primeira incursão do diretor e ator Gilberto Gawronski no comando de um texto do bardo inglês. Embora já tivesse atuado em Sonho de uma noite de verão (dirigido por Moacyr Góes, em 1984) e em Rei Lear (ao lado de Raul Cortez, em 2000), Gawronski concretiza agora um antigo desejo: lançar seu olhar sobre o texto que, junto a Tudo bem quando termina bem e Troilus e Créssida, compõe a trilogia de “peças sombrias” escritas pelo dramaturgo inglês, que navegam pelos meandros do debate moral e ético.

Comportamento, sexualidade, poder e hipocrisia são os temas que amarram o escrito, cuja primeira montagem foi levada aos palcos em 1604. Acostumado a dirigir espetáculos da sua lavra, assim como de autores contemporâneos, como Caio Fernando Abreu e Daniela Pereira de Carvalho, Gawronski se deu conta da afinidade entre o seu trabalho e essa obra.

– Falamos sobre hipocrisia, a falsa moral e o comportamento sexual dos seres humanos – define Gawronski. – São temas recorrentes no meu trabalho como diretor ou autor. Acho extremamente oportuna a montagem numa época de tolerância zero como a que vivemos. Nenhum ser humano é completamente puro ou incorruptível. Se fosse assim, seríamos todos heróis ou santos. Só existem leis e a religião porque o homem as infringe e peca. Como diz Brecht: “Infeliz a nação que precisa de heróis”. Devemos valorizar o ser humano.

Respeitando o rigor do teatro elisabetano da época em que a peça foi concebida, onde apenas homens podiam atuar, Gawronski reuniu 13 atores para representar personagens masculinos e femininos, entre eles Rodolfo Bottino (Japassada), Sergio Maciel (Isabela) e Rafael Leal (Mariana).

– A opção por um elenco composto só por homens não é uma apelação, e sim mais um elemento de comicidade no texto – destaca o diretor. A adaptação também reduziu o número de personagens do original (ao todo 19).– No teatro elisabetano, os personagens falam direto para o público. Por isso, suprimi algumas intervenções que serviam apenas como suporte – explica.

Apesar dos cortes, o diretor faz questão de entrar em cena. Interpreta o marginal Bernardino. Condenado a morte há mais de nove anos, ele perambula livremente pelo ducado se valendo de uma brecha da lei, que impede a execução de pessoas bêbadas.

– Ele permanece bêbado o tempo todo. Assim, não pode ser morto. É um artifício que ilustra a hipocrisia daquele tempo.

Passado em Viena, o texto de Shakespeare se inicia quando o Duque (Luís Salem) finge abandonar a capital austríaca rumo à Polônia e passa o governo às mãos de Ângelo (Ricardo Blat) e de Éscalo (Nildo Parente). Permanecendo em Viena, disfarçado como um frade, o Duque observa como agem seus substitutos. Principalmente Ângelo, que ressuscita a pena de morte por “atos de fornicação” para pôr limite à corrupção moral da população.

– Meu personagem começa como um puritano insensível, mas no decorrer da peça paga por sua postura. O Duque descobre a forma arbitrária como ele lidera o governo, e Ângelo acaba condenado por suas ações – conta o ator Ricardo Blat, que participou da encenação para Medida... dirigida pelo inglês Paul Heritage, em 2004.

O primeiro refém do autoritarismo é o jovem nobre Cláudio, condenado à morte por ter engravidado Julieta antes do casamento. Ao saber da notícia, sua irmã, a religiosa Isabela, é convencida por Lúcio, amigo de Cláudio, a pedir absolvição ao governador. O pedido serve aos desejos de Ângelo, que promete libertá-lo, desde que Isabela – cuja pureza chamava a atenção na corrupta Viena – aceitasse se deitar com ele.

– Não o encaro como perverso – explica Gawronski sobre o personagem de Blat. – Ele se achava completamente puro dentro da sua retidão política e da esfera das leis. Enquanto Isabela se limitava à pureza no campo da religiosidade. Mostramos que o desejo sexual deles está além da razão. O embate entre suas purezas os afasta e os une pelo desejo. Sentem atração.

Ao recusar a proposta, Isabela encaminha a ex-mulher de Ângelo em seu lugar. Após a consumação do ato sexual, mesmo sem perceber que fora enganado, Ângelo decide prosseguir com sua empreitada moralista e não cumpre o prometido. Manda cortar a cabeça de Cláudio. Seus planos são frustrados pela intervenção do Duque, que, após uma reviravolta, deixa de lado a camuflagem de frade e retoma o poder.

– Apesar de o traço cômico da peça se iniciar quando o Duque abandona seus dotes para se imiscuir nos porões do seu ducado como um frade, sua aparição surpreende a todos – conta Luís Salem.

O ator conta que não conhecia o texto de Shakespeare quando foi convidado por Gawronski, há um ano, para participar da peça. Ao contrário dos outros atores, que se revezaram durante alguns meses até que definissem seus papéis, Salem abraçou o seu personagem no primeiro dia de leitura.

– Foi algo imediato por causa da veia cômica que carrego – acredita. – O Gilberto me conhece bem. Acho que esperava que eu representasse o papel.

Centro Cultural Banco do Brasil – Rua Primeiro de Março, 66, Centro (3808-2020). Cap.: 172 pessoas. 4ª a 2ª, às 19h. R$ 10. Estudantes e idosos pagam meia. Duração: 1h20. Até 1 de março.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

A nova passarela do pop

Entra ano, sai ano, e a máquina propulsora do mundo pop nem sequer vislumbra um cessar-fogo. Todo o mês de janeiro é assim: uma nova e frenética rede de apostas é aberta, posicionando no centro do tabuleiro jovens e ambiciosos músicos à espera de ouvidos atentos que possam acalentar seus anseios de fama, status e dinheiro.

O Caderno B, assim como fazem anualmente a rede britânica BBC, a MTV e o semanário NME, se lança pela segunda vez ao desafio de apresentar 10 ilustres desconhecidos que podem se transformar, até o fim do ano, em novas estrelas do pop mundial.
São eles: Lady GaGa, White Lies, Little Boots, Florence and the Machine, The Virgins, VV Brown, La Roux, Empire of the Sun, Kid Cudi e Dan Black.


Eles terão a missão de assumir o espaço deixado pelas apostas de 2008, como as bandas MGMT e Foals, promessas que se cumpriram, virando verdadeiros fenômenos na Europa, nos Estados Unidos, assim como no Brasil, onde participaram do Tim Festival (MGMT) e Planeta Terra (Foals). Naquele ano, nomes como Adele, Duffy, The Wombats, Laura Marlin, Santogold e Friendly Fires também fincaram seus versos na Europa. Dawn Kinnard e Liam Finn não tiveram a mesma sorte.

Responsáveis pelas rédeas do circuito, os executivos da indústria fonográfica (agora nem tanto), assim como os produtores de rádio e TV e os jornalistas especializados já tratam de conectar seus fones de ouvido à web. Desde já, saem à caça das pérolas que irão rechear as páginas de jornais e revistas, line-ups dos principais festivais do globo e estampar as campanhas publicitárias para os novos gadgets e brinquedos eletrônicos por mais 12 meses. Ou quem sabe mais.

Lady Gaga: Influenciada por medalhões do pop e do rock como David Bowie, Queen, Michael Jackson e Madonna, Joanne Stefani Germanotta, 22 anos, trabalha ao piano suas composições. Canções da sua lavra já foram registradas por Fergie, Pussycat Dolls, Britney Spears, além de músicos do selo Konvict, capitaneado por Akon. Lançado no fim de 2008, seu début, The fame, é um amálgama de batidas retrô dançantes e melodias eletro glam. O singleJust dance já lidera os charts Pop e Hot 100 da Billboard. Faixas como Paparazzi e Poker facejá despontam nos principais clubes de Manhattan. Como ouvir: http://www.
myspace.com/ladygaga

Just dance


Florence and the Machine: Vencedora da categoria Escolha da Crítica do prêmio mais importante da música inglesa, o Brit Awards 2009, Florence Welch, 22 anos, conta com um dos singles mais pegajosos deste início de ano, a psicodélica Dog days are over. Vestida como uma hippie do século 21, a ruiva canta como uma Björk menos viajante e mais roqueira, ou como uma Karen O (Yeah, Yeah, Yeahs) menos estridente e mais melodiosa. A ascendente estrela indie versa por meio de fábulas enigmáticas e abstratas sobre sexo, violência e vingança. Como ouvir: http://www.myspace.com/florenceandthemachinemusic

Dog days are over


Little Boots: Já é um fenômeno da música inglesa. Eleita este ano como a nova aposta da música pela BBC, em enquete realizada com mais de 130 especialistas, Victoria Hesketh, 24 anos, já colhe os louros da fama em participações nos principais programas de rádio e TV da ilha. Além disso, a moça ficou em segundo lugar na Escolha da Crítica do Brit Awards 2009. A loura de olhos azuis pousa sua nave entre o pop futurista e a house music, mas lista como influências Joni Mitchell, David Bowie, Kate Bush, Gary Numan, além de Jamie Cullum, sobre quem escreveu uma tese para a University of Leeds, onde se formou em estudos culturais. Como ouvir: http://www.myspace.com/littlebootsmusic

Meddle


VV Brown: Bata no liqüidificador Amy Winehouse, Duffy e Lily Allen e adicione chocolate à mistura. O resultado é a vedete VV Brown. Ex-backing vocal de Madonna, Brown também é compositora requisitada, já tendo registrado suas canções em álbuns de artistas como Sugarbabes e The Pussycat Dolls. Nascida em Northampton, a cantora bebe de fontes como Elvis Presley, Aretha Franklin e Ella Fitzgerald, assim como do doo-wop dos anos 50 e dos grupos vocais femininos da década de 60. Produtora e instrumentista, VV se prepara para o lançamento de seu álbum de estréia, Travelling like the light. Como ouvir: http://www.myspace.com/vvbrown

Crying blood


Kid Cudi: O rapper americano não pode ser considerado dono dos insights e versos mais inteligentes, nem das batidas mais inventivas já criadas. Mesmo assim, sua capacidade de reunir com competência e originalidade as duas principais armas para um bom rap – além da megalomania – chamou a atenção do maior astro da cultura hip hop, Kanye West. Contratado pelo selo de West, GOOD Music, o novato está em turnê com o seu mentor, além de ter gravado participação em seu mais recente álbum, 808s & heartbreak. Enquanto ganha fama e trabalha em seu début, Man on the moon: The guardians, seu primeiro single, Day 'n' nite, já bate as primeiras posições nos principais charts da Billboard, aliando o rap ao pop de refrões assobiáveis. Como ouvir: http://www.myspace.com/kidcudi

Day 'n' nite


Empire of the Sun: Se os neo-hippies do MGMT deram o que falar em 2008, com sua psicodelia roqueira calcada em Flaming Lips e Rolling Stones, cabe ao duo australiano Empire of the Sun a missão de assumir o posto de banda mais esquisita do ano. Formado por Luke Steele (Sleepy Jackson) e Nick Littlemore (Pnaud), que já trabalhou com Sir Elton John e com o The Killers, a dupla aposta numa viagem cósmica e futurista baseada em filmes comoJornada nas estrelas e nas aventuras de Indiana Jones. Assim como grande parte dos novos artistas que despontam em 2009, o Empire of the Sun carrega o gene dos anos 80, abusando de melodias pop adornadas por batidas espaciais de sintetizadores. Nos vídeos para os singles do disco de estréia da banda, Walking on a dream, gravados em países como China, México e Islândia, eles aparecem vestidos como verdadeiros super-heróis. Como ouvir: http://www.myspace.com/empireofthesunsound

We are the people


La Roux: Ostentando um corte de cabelo estilizado, a ruiva Elly Jackson aposta em sua obsessão por sintetizadores pesados para levar o ouvinte a uma viagem de volta para o futurismo da década de 80. Para a jornada, propõe uma espécie de manifesto musical que urge pela eliminação das bandas indies, dos grupos vocais pop femininos e dos artistas que usam a dança como forma de escamotear seus dotes artísticos. Ao lado do músico inglês Langmaid, La Roux mergulha de cabeça em referências musicais como Eurythmics, Depeche Mode, Gary Numan, Heaven 17, Prince, Boy George e Blancmange. Disposta a mexer com o visual e com o som do pop moderno, a inglesa defende sua arte como entretenimento, e suas canções têm apelo épico, megalômano e teatral. Como ouvir: http://www.myspace.com/larouxuk

Dan Black: As canções que o inglês radicado em Paris Dan Black produz soam como se o cantor Sam Sparro deixasse de lado um pouco do seu vozeirão e da vertente soul que o consagrou a bordo do hit Black and gold, em 2008, e partisse para a fusão entre o pop, o rock e a eletrônica. Desde que deixou de lado o posto de líder da banda indie The Servants, Black vem chamando atenção como DJ nos clubes mais antenados da Europa. O cultuado radialista inglês Zane Lowe tratou sua versão para Hypnotize, do rapper Notorious BIG, como um dos melhores remixes de 2008. Cantor e compositor, Black se apóia em samples e batidas eletrônicas para moldar singles urgentes, como Alone e Yours. Como ouvir: http://www.myspace.com/danblacksound

The Virgins: O quarteto de Nova York paga tributo aos ícones do art rock, como Velvet Underground e Talking Heads. Na bagagem, carregam ainda as referências dançantes colhidas durante as andanças noturnas do vocalista Donald Cumming pelos principais clubes de Manhattan. Formado em 2006, o quarteto mescla a atmosfera crua e simples de uma banda de garagem com levadas funkeadas que fazem dos singles One week of danger, Private affair eRich girls hits nas rádios e pistas americanas e européias. Como ouvir: http://www.myspace.com/thevirginsnyc

White Lies: A nova promessa do indie rock britânico bebe da mesma fonte que os nova-iorquinos do Interpol e dos conterrâneos The Editors: o pós-punk cunhado por Ian Curtis à frente do Joy Division. O barítono encorpado do vocalista Harry McVeigh preenche arranjos esfumaçados, delineados por guitarras e camadas de teclados sintetizadores. Com produção de Ed Buller e Max Dingel (The Killers e Glasvegas), as gravações do álbum de estréia do trio londrino contou com uma pequena orquestra formada por 20 músicos. Como ouvir: http://www.myspace.com/whitelies

sábado, 29 de novembro de 2008

Artista ao léu

É aquele lance... Se tivesse uma porra de um estúdio, grana em mãos e, óbvio, motivos para convencê-lo botava esse cara lá dentro e pronto: tá feito o que há de melhor em termos de jovem cantor da nossa música brasileira. Leo Cavalcanti é o cara a ser ouvido. Mistura de afrobeat, tropicália, soul, funk e música flamenca, assina uma combinação irresistível de ótimas melodias e letras bem acima de qualquer média que vemos por aí. Média, não... Baixa...

Leo gravou uma home session, Ao leo (demo), com apenas quatro faixas. É mais do que o bastante para identificar seu talento como artista e sua profícua imaginação musical, já que sozinho pilota as traquitanas que originam seus beats e grooves eletro-acústicos. Filho do mais constante parceiro de Adriana Calcanhotto, Péricles Cavalcanti, ele tem ótima voz e idéias na cabeça. Sim, é preciso leitura, pensamento, questionamento e IDÉIAS à mulambada que sonha ser artista da noite para o dia, só porque é afinado demais ou domina um instrumento musical. Não. Isso não basta. Afinal, o que significa bastar, fazer o suficiente, segurar a onda legal?

Se fazer arte é se expor e transcender, por que é que essa galera tá se enganado, copiando a torto e a direito tudo que o ídolo X já fez?! Pelo amor de Deus... Dá até pena de ver a quantidade de meninas empacotadas em CDs chegando às redações. Uma mais bonitinha e talentosinha que a outra. Uma mais sem criatividade e coragem que a outra. É tudo plain! Liso, efêmero, não machuca os ouvidos, easy listening que fere a alma. Tô fora. Poucas sobrevivem. Enquanto Leo, de voz ambígua e suave, é o cantor e a cantora, não do momento, mas, sim, de talento.

Ouça: http://www.myspace.com/leocavalcanti

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Radar Pop?

Afinal, o que é ser pop? Profundidade de um radar, hein... O que é ser radar? Existencialismo pop, hã... Mas com tantos por aí, escravizando ignorâncias fugazes full time não há porquê e nem como sê-lo. A incompletude da tarefa porém é a mesma de qualquer outra tentativa. Mas antes de se prestar a ser radar, e sugar e reverberar o externo, é melhor que eu seja um endoscópio. Aí o compromentimento não tem razão, hora ou data marcada com você leitor. Prefiro assim: navegar livre para o que der e vier. E só não mudo o nome disso aqui porque não tenho saco. Mas de pop, por agora, só o que pipoca aqui dentro. Se genial ou imbecil que seja (quase) inteiro.