Chancelado pelo respeitado selo alemão Deutsche Grammophon, Sting apresenta-se austero em If on a winter’s night, álbum que remonta sua veneração pela música tradicional e folclórica das ilhas britânicas. Partindo de suas reminiscências e navegando por uma jornada melancólica e reflexiva, em que elege o inverno como sua estação favorita, o músico patina e se perde nas trilhas que tencionam fazer a ponte entre o seu passado nostálgico e seu presente criativo – aparentemente pouco inspirado.
Para traduzir o sentimento de reclusão que reside em seu flerte com o inverno, o músico, que nos últimos anos acostumou-se a arregaçar as mangas de suas diminutas camisetas para exibir seus bíceps, cobre-se de negro vestindo sobretudo, cachecol e botas na enevoada capa do trabalho. E tão gélido, esquemático e pouco acolhedor quanto o clima que embala tal obra são os arranjos, as melodias e as interpretações excessivamente empostadas do cantor.
Orientação natalina
Embora não tenha sido concebido e promovido como um álbum essencialmente natalino, em If on a winter’s night Sting destaca sua admiração pelos festejos que celebram o nascimento de Jesus Cristo. No texto do encarte que acompanha e serve como guia às intenções do artista, revela que até hoje se encanta com os “elementos mágicos e proféticos” relacionados à data: “Aprecio a beleza dessas histórias e como elas puderam servir de inspiração a tantos músicos e poetas por tantos séculos. Era meu desejo tratar desses temas com reverência e respeito”, escreve o músico. E a despeito de sua opção agnóstica, destaca que o simbolismo das peças de arte sacra ainda lhe causam forte impacto. Tal reverência, respeito e impacto, servem, no entanto, para congelar o espectro de suas canções. De faixa em faixa, o álbum se arrasta, como se todo seu cuidado estético, preciosismo estrutural e estudo do arsenal de antigas referências servissem apenas para engessar seu desempenho e tornar o repertório tão bem cortado quanto entediante.
Dispersivo – ou melhor, digno de bocejos e sonolência em alto grau – é realmente difícil, para um ouvinte casual ou menos atento aos detalhes e finas nuances, manter-se acordado do início ao fim da execução do CD. Produzido em parceira com o arranjador Robert Sadin, o trabalho passeia por uma coleção de 15 canções, cânticos, temas de ninar e baladas tradicionais de sua terra natal, Newcastle, como The snow it melts the soonest, Soul cake (canção “suplicante” inglesa), Gabriel’s message (cântico do século 14) e Balulalow (cantiga de ninar de Peter Warlock), entre outras que marcaram os últimos séculos do cancioneiro britânico.
Inspirado pelo universo lírico e melódico de seus ancestrais, Sting esculpe duas canções próprias, Lullaby for an anxious child e The hounds of winter – único momento em que se aproxima de refrões ligeiramente pop. As duas, no entanto, já haviam sido gravadas, sendo que a segunda serviu à abertura do álbum solo Mercury falling (1996). Ambas soam como o restante do álbum, como se fossem artesanalmente talhadas à mão em madeira, perfeitas para a execução em ambientação acústica, com adorno de violões, violinos, violoncelos e harpas, entre outros instrumentos rústicos.
Releitura de Henry Purcell
Tal roupagem, que sugere o intimismo da foto de abertura do encarte, em que os músicos que o acompanham empunham seus instrumentos numa roda à luz de velas, permanece na cabeça do artista, enquanto que o frio cortante que o move endurece o contato entre os dedos e as cordas e entre suas ideias e o resultado final. Um dos pontos altos do álbum é a interpretação de Hurdy gurdy man, uma versão musical e literária para o inglês de Der Leiermann, um clássico de inverno de Schubert. Outro destaque do álbum é Now winter comes slowly, de Henry Purcell, além do poema musicado de Robert Louis Stevenson, Christmas at sea; e da letra que Sting traça para You only cross my mind in winter, de J. S. Bach – faixa de encerramento que narra uma história de fantasmas, densa e crepuscular.
Como o fim do inverno é prenúncio de dias ensolarados, vale torcer para que o fim do álbum seja indicativo de novos ventos ao cantor, que desde Sacred love (2003), não povoa o imaginário dos fãs com um álbum de canções próprias.
“Assisti Acossado aos 17 anos e um estalo se fez. Juntava dois dos meus maiores interesses à época, jazz e filosofia. Revelou algo desconhecido, até então, que o cinema era muito mais do que um programa de sábado à noite com os amigos. Era uma forma de arte. Mais que isso, a forma crucial da arte moderna”. A declaração acima poderia ser atribuída a um aficionado que tenha se deixado levar pelo encantos da sala escura a partir de uma projeção do longa inaugural da filmografia de Jean-Luc Godard. E é justo esse o caso do então jovem americano Richard Brody, hoje o renomado crítico de cinema da New Yorker.
– Aprendi sobre cinema assistindo aos filmes que ele discutia em suas críticas e acompanhando suas entrevistas – recorda Brody, em entrevista ao Jornal do Brasil.
A lembrança vem a calhar. Há exatos 50 anos, Godard dava corte final ao célebre À bout de souffle – em inglês, Breathless; e em português, Acossado. Sua estreia nos cinemas, em 1960, celebrada como um dos marcos da nouvelle vague, é também considerada um dos pilares dos filmes modernos. Prestes a completar 80 anos, em 2010, o cineasta não deixa de criar. Seu próximo longa-metragem, Socialismo, já dispõe de um trailer postado no Youtube e, em breve, ruma às telas. Admirador da cinematografia do mestre francês, desde o início da década Brody vasculha à fundo sua vida e obra. O resultado da imersão se desvela em Everything is cinema - The working life of Jean-Luc Godard. Em suas mais de 700 páginas, o prestigiado crítico dá forma e sentido ao manacial de conceitos e ideias colhidas em centenas de entrevistas e relatos do diretor. Organizados biograficamente e analisados de forma criteriosa, o livro tenciona desmistificar o indescritível e controverso cineasta, assim como a sua vasta e, muitas vezes, incompreendida obra vanguardistas e, sim, polêmica.
– Ele é o mais importante cineasta moderno, e, embora eu jamais esperasse escrever um livro sobre o seu trabalho, sabia que a ideia de fazê-lo seria uma empreitada muito valiosa – diz.
De Truffaut a relações amorosas
No calhamaço, o autor acompanha a trajetória de Godard desde as suas primeiras incursões no universo da crítica, a bordo de jornais parisienses e de revistas especializadas, como a La Gazette du Cinéma, criada pelo próprio, e, posteriormente, na Cahiers du Cinéma, de André Bazin. Lembra que a publicação lhe serviu de plataforma para esculpir as bases teóricas e estéticas que fomentaram a nouvelle vague, ao lado de nomes como François Truffaut, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jacques Rivette, entre outros. Brody investiga, em profundidade, suas experimentações na linguagem cinematográfica, catapultadas por Acossado e recebidas com efusão ao longo de oito anos de sucesso, até a chegada de A chinesa e Weekend. Daí então, trata das forças políticas que, a partir de 1968, conduziram suas lentes e o levaram a criar o grupo Dziga Vertov, batizado com o nome do diretor russo. E avalia suas produções até os dias de hoje. No viés pessoal, descreve, em detalhes, seus conflitos com o conservadorismo familiar (filho de um médico francês e de uma herdeira de banqueiros suíços) a evolução do seu pensamento político (atrelado ao maoísmo e tantas vezes atribuído ao comunismo) suas tempestuosas relações amorosas, com Anna Karina, e os conflitos em que se meteu mesmo com companheiros próximos, como Truffaut – romperam por questões financeiras e após uma severa crítica a A noite americana.
No prefácio de seu livro, Brody deixa claro que o artista, apesar de uma produção recente pouco avalizada pela crítica internacional, continua a trabalhar no mais alto patamar da criação artística. Para ele, não há dúvidas de que sua obra ainda é determinante para a evolução do cinema contemporâneo.
– Ele influenciou toda a cultura francesa daquele período. E é claro que isso se estendeu ao mundo. Nos EUA, é marcante o impacto de seus filmes em muitos cineastas. É muito maior do que muitos deles percebem. A nouvelle vague ainda é a referência principal do cinema produzido em todo mundo.
Cineasta da inquietação, Godard subverteu gêneros, fragmentou a narrativa, desestruturou a relação entre diálogos e imagens para talhar um cinema de ideias, a maioria delas retirada de um arsenal de referências literárias e fílmicas.
– Jean Cocteau e Jean Rouch foram especiais. O primeiro, por ser também um escritor. Já Rouch se tornou uma referência tardia, com a sua fusão entre documentário e ficção. Para Godard, a literatura fornece um modelo de como a arte pode representar o nosso mundo interno. E não foi copiando histórias de livros, mas pensando em como eles alcançam seus efeitos que ele intensificou o poder da emoção. Em Pierrot le fou, Ferdinand cita um trecho de James Joyce como um modelo, mas diz que o cinema pode ir mais longe. Foi o que Godard tentou, e com sucesso.
Cineasta dá bolo em escritor
Apesar da intensa pesquisa, Brody não chegou a construir uma relação pessoal com o recluso cineasta. O encontrou pela primeira vez em 2000, numa viagem à Suíça, em que teve a oportunidade de entrevistá-lo para um perfil que publicaria na New Yorker.
– Ele foi bastante generoso. Foram três horas de papo.
Godard mostrou ao jornalista alguns novos projetos e outros em andamento, filmes raros e outros nunca lançados. Além de ter o convidado para um jantar.
– Ficamos de nos encontrar no dia seguinte, mas ele não apareceu. Deixou apenas um pequeno recado. Fiquei chateado. Não pessoalmente, mas porque eu estava lá para trabalhar e ele interrompeu precocemente o que eu havia programado. Mas artistas são conhecidos por seus impulsos e caprichos, qualidades que definem sua arte.
Bastou virar o ano. Ele atulhou seus pertences em malas e mochilas e zarpou rumo a Nova York com o intuito de trocar de pele. Durante um mês inteiro, se dedicaria às aulas de inglês e workshops sobre cinema e teatro. Hotel reservado, roteiro assinado, tudo dentro do script. Até que um sentimento inexplicável pregou uma peça em Lázaro Ramos. Naquela terceira semana de 2009, o destino, ou o acaso atacado de mania de grandeza, como disse Mário Quintana, riscou novos planos para o ator. O presidente eleito dos EUA, Barack Hussein Obama, faria seu discurso de posse no Capitólio, em Washington – a algumas milhas de distância. E a vontade de ir até lá e ver o acontecimento de perto pulsava forte, até que o ator não se conteve: “Trem ou avião?”, pensou. Embarcou no primeiro vagão com intenções ainda bambas ventilando a cabeça. Num impulso, decidiu filmar o palavrório do novo governante. Não sabia da necessidade de autorização para as filmagens e muito menos se era necessário descolar um passe para desfrutar os disputadíssimos centímetros no solo em frente ao palanque. Uma coisa era certa: de um jeito ou de outro, era obrigação registrar tal momento. “Era algo histórico”, afirma. Transformado em curta-metragem e exibido como parte integrante do programa que comanda no Canal Brasil, Espelhos, o documentário de 23 minutos O dia da posse de Obama ganhou a tela do Cine Odeon no último dia 15, a bordo da 3ª edição do Encontro de Cinema Negro.
“Fiquei superentusiasmado com o convite. O canal está dentro do pacote mais caro da TV paga, então poucos espectadores puderam vê-lo na íntegra, enquanto outros assistiram a apenas alguns trechos no YouTube”, diz Ramos.
De mochilas nas costas, câmera nos ombros e Obama na cabeça, deixou-se levar pela vontade de ver e ouvir o que o novo presidente tinha a dizer. “Era janeiro, eu estava em Nova York, Obama faria o discurso de posse e eu tinha uma pequena câmera na mochila”, conta o ator. “Descobri no caminho que, para entrar, seria dificílimo. Não tinha nenhuma autorização oficial... E aí nasceu a ideia de registrar o que acontecia no meu trajeto e o comportamento das pessoas que se dirigiam ao lugar”.
No dia anterior, a imprensa nova-iorquina publicava a imagem de Obama ao lado de uma foto de Martin Luther King.
Na manchete, “O sonho se realiza”. Para o ator, um acontecimento comparável ao emblemático discurso do líder negro e às Diretas Já. “Era algo tão forte que, naquele momento, qualquer pessoa que estivesse com uma câmera na mão estava prestes a registrar algo imediatamente precioso”.
No dia 20 de janeiro, Lázaro captou quatro horas de imagens que ilustravam o sentimento do americano comum.
“Dei atenção especial ao modo como as pessoas ao redor agiam, o que deu um sabor inesperado e único ao filme”, conta. “É o que fez o curta ganhar força. Depois, descobri que não existiam relatos ou imagens parecidos com os que eu consegui. Pesquisei no YouTube e não tem igual. Foi algo totalmente despretensioso. Você vê o que é o acaso, justo numa época em que tudo se filma”, reflete.
Até lá, alguns perrengues não deixaram de cruzar seus ansiosos passos. Tomou safanões mis, por pouco ficou sem um bilhete de passagem e teve que se safar da truculência de seguranças que insistiam em meter a mão em sua câmera, proibindo-o de filmar.
“Não pude mostrar isso no filme, é claro, mas tomei empurrão até não aguentar mais. Era muita gente. Tudo foi complicado, desde achar a porta de entrada até descobrir que precisava de um ingresso. Mas captei depoimentos sensacionais”.
Registrou republicanos que se tornaram devotos ferrenhos da Obamania, além de homens e mulheres desejosos de expressar seus medos, incertezas, mas, principalmente, esperanças.
“Inicialmente, iria filmar o discurso, mas o que eu consegui é muito mais precioso. Não estou centrado no líder e no que ele tem a dizer, mas no sentimento das pessoas. Eu me concentro na ótica do povo, e não no mito”.
O frio, a preocupação em não errar com a câmera e a dor nas costas por passar horas de pé suportando todo o equipamento não lhe permitiram emoção.
Intimidade na cafeteria
“Só quando eu cheguei à ilha de edição e coloquei a fita para rodar que pude sentir na pele”, recorda. “Eu acabei assistindo ao discurso numa cafeteria, porque de onde eu estava não veria nada. E isso rendeu um clima de intimidade com os frequentadores do lugar, algo muito emocionante”.
Naquele dia, ao sair da tal cafeteria, o ator não se deu por satisfeito. Já era fim de tarde, caía a noite e a exaustão lhe subtraía o ânimo, mas decidiu voltar ao lugar para uma última rodada de depoimentos e uma tentativa, a princípio ilusória, de encontrar algum modo de chegar mais perto do presidente.
Ao percorrer o extenso gramado em frente ao Capitólio, observou um portão semiaberto que poderia lhe dar acesso a uma área totalmente isolada. Não titubeou e abusou do descuido alheio.
“Tomei coragem e entrei. Lá, tinha uma senhora escutando o discurso num radinho de pilha. Ela ficava repetindo para mim o que Obama dizia”, conta. “Chegou uma hora que eu estava acabado e queria ir embora, mas decidi ficar em pé por mais algumas horas, esperando alguma chance de vê-lo, uma surpresa qualquer, enquanto filmava quem estava ali comigo. E aí, do nada, Obama surgiu a menos de 30 metros de distância. Não acreditei naquilo. Se eu tivesse conseguido uma entrada, nunca conseguiria estar tão próximo”.
Apesar da perseguição à moda groupie, o ator deixa claro que a admiração que deposita não escorrega em idolatria desmesurada, ingenuidade eufórica e muito menos numa paixão alienada por Obama. Tem a exata noção de que o presidente “defende os interesses do seu país, como qualquer líder de governo”, diz. Mas não deixa de enaltecer o salto que sua assunção ao poder representa para um país que viveu sob a “ignorância e radicalidade do governo republicano de George Bush”.
“Ele é americano e tem seus valores, mas tenho uma identificação com a sua origem, sua postura e honestidade. Como ele mostrou numa recente entrevista ao David Letterman”, cita. Nos primeiros 100 dias em que esteve no poder, o governo Obama registrou umas das mais expressivas percentagens de aprovação da história americana. Prestes a completar um ano de mandato, uma pesquisa divulgada no início desta semana revelou parcos 53% de análise positiva. Uma queda vertiginosa que, em alguns casos, já orbita entre 52% de reprovação, contra 46% de aprovação. As críticas ao desempenho de Obama, porém, pouco abalam as convicções do ator.
“O Betinho já dizia, 'quem tem fome, tem pressa'. Então, encaro como natural toda essa urgência. É um país em crise, que plantou o que está colhendo. Ele está no olho do furacão”, teoriza. “É claro que a euforia pela troca de governo não ia se sustentar até o fim. Ele sabe que não pode fazer tudo o que planeja de uma hora para a outra”.
Provocação e reflexão
O flerte com a política não flui à toa do discurso do ator baiano. Está vinculado às suas raízes, ao engajamento social como integrante do Bando de Teatro Olodum, grupo que o formou. Da arte à política, Lázaro se entrega à missão de explorar novas e diversas facetas. Fascínio que, na condição de ator, o faz vestir a capa de personagens diversos. Tanto os considerados alternativos, como o violento Madame Satã, no filme homônimo dirigido por Karim Aïnouz; e o jovem Deco, em Cidade Baixa, de Sérgio Machado, quanto os mais populares, como o cômico Foguinho, que pintou as telas em Cobras & lagartos, e o Roque, da nova temporada da série Ó paí, ó, que estreia na sexta-feira.
“Meu barato é a diversidade. Vou do alternativo ao popular, sem pudores. Gosto de caminhar entre opostos, porque as pessoas insistem em rotular e eu não quero me acomodar. Gosto de ser tudo e quero ser tudo, sempre buscando qualidade e respeito aos diálogos que marcam a minha trajetória”, explica. “Vejo que alguns produtos se posicionam apenas como um painel de intenção política e perdem a oportunidade de gerar pensamento. E não acho que seja uma obrigação vincular arte à política. No meu caso, tenho, sim, interesse por temáticas sociais e acho que a arte ainda tem grande poder como instrumento de provocação e reflexão”.
Desde pequena ela coleciona objetos diversos. É fascinada por peças que sejam azuis, e quando os amigos viajam, lembranças aos montes surgem em sua casa. Da mesma forma, acumula em profusão miniaturas de toy art, revistas da Luluznha e Bolinha e originais de valor incalculável de Asterix. Agora, porém, resolveu colecionar grandes obras de arte. E além do prazer da pura contemplação, decidiu interagir, ou melhor, criar em cima das tais instalações.
– Faço coleções desde pequena. Gosto muito disso – diz a diretora Valéria Martins.
Ela assina o projeto Coleções, que invade o Palácio Gustavo Capanema a partir desta quinta, no terceiro espetáculo inédito da Intrépida Trupe em 2009. Nele, a diretora faz uma ponte entre as artes plásticas e a linguagem teatral-circense característica do grupo, através de quatro intervenções artístico-urbanas – uma delas ao ar livre.
– Estava mais do que na hora de provocar uma interação mais declarada entre a nossa linguagem corporal, que sempre foi abrangente e híbrida, e as artes plásticas – explica Valéria. – Integrar essas obras aos movimentos cria um novo modo de apresentação. É um aprofundamento da pesquisa e da nossa inquietação artística. Acho que podemos estabelecer uma outra relação com o nosso público.
Para batizar a novidade, Valéria não encontrou dificuldades.
– Chamo de projeto porque é algo que ainda está em experimento, em elaboração. Já Coleções é uma junção de obras.
Uma coleção que apenas se inicia. E que, em breve, deverá se estender, ganhar tamanho e elementos.
– É o começo de uma pesquisa de linguagem que poderá englobar outros artistas mais à frente, assim como abre um novo leque para o repertório da Intrépida – revela. – Acho que posso dividir meu trabalho em antes e depois de Coleções, porque abre-se um novo parâmetro. Continuamos a usar o circo, o teatro e a dança, mas a passagem e a comunicação entre essas linguagens se dá numa fluidez que nunca havíamos conseguido. Não há um momento especifico para cada um.
Símbolo da arquitetura moderna do país, o Palácio Capanema serve de palco para as evoluções do elenco sobre as obras dos artistas Guga Ferraz, Pedro Bernardes, Raul Mourão e Marta Jourdan. Os performers Flávia Costa, Guilherme Lazari, Leonardo Senna, Luciana Medella e Paulo Mazzoni conduzirão o público desde os jardins de Burle Marx, onde estará a Cidade-dormitório composta de ferro e madeira assinada por Ferraz; até a galeria interna, ocupada pelas grades e espaços reprimidos de Drama.mov, de Raul Mourão; as projeções, líquidos e vapores de Marta Jourdan e o objeto incompleto de Bernardes, feita com material asfáltico.
– Criamos uma espécie de circuito para direcionar o público, mas cada um escolhe um recorte de olhar. É apenas uma ordem cênica de atuação em universos distintos. O trabalho de Mourão é um universo de fábula, um mundo que não existe, enquanto o da Marta é algo poético, lírico, suave. Não queremos determinar um conceito nem estamos aqui para mandar recados, mas é claro que as questões urbanas estão inseridas. A sensação é de que é uma obra aberta.
No espetáculo de Valéria, a obra de arte deixa de ser um objeto de contemplação e se torna o suporte para a representação e movimentação dos atores /bailarinos/acrobatas. Mesmo acostumado a lidar com materiais de naturezas tão diversas como trapézios, tecidos, liras, cabos e bastões, o elenco precisou desenvolver um intenso trabalho físico para interagir com o novo aparato – instalações muitas vezes pesadas e de grandes proporções.
– Essa intensa fruição é provocada pelo confronto com as obras de arte. Parte do impacto do espetáculo vem da habilidade e da maneira como o elenco se relaciona com elas. Por mais que tenhamos subvertido há tempos o senso comum de todas essas vertentes artísticas, interagir com essas obras é diferente. Não estamos no nosso universo habitual. No início, olhávamos para as instalações e pensávamos: “Como é que eu vou criar movimentos dentro disso”? São objetos de ferro pesado, enferrujados, que machucam o corpo.
Todas as instalações ficarão em exposição durante a temporada do espetáculo, com visitação aberta e gratuita durante o dia. Os visitantes também poderão conferir a videodança sobre o projeto Coleções, concebida pela intrépida Carol Cony. O trabalho, que utiliza técnicas como stop motion, vai ser exibido juntamente com o making of da pesquisa para o projeto.
– O legal de tudo é que as obras de arte se transformam num espaço cênico nos fim de semana e num ambiente de visitação livre nos outros dias. Enquanto montávamos, ouvimos reações das mais diferentes. Espero que o público possa dar vazão ao que vier na cabeça.
A epopeia de Plínio Marcos (1935-1999) foi intensa e plural, por mais que breve. Surgido num tempo em que o Brasil mergulhava em trevas pela opressão da ditadura militar – logo após os eufóricos anos JK, 50 anos em 5, cinema novo, bossa nova, imprensa livre – o dramaturgo santista escapou por pouco do exílio – apesar de ter conferido a carcaça quente do fundo de um camburão. Teve, sim, suas obras censuradas. Tolhidas do direito de expressar suas preocupações, angústias e, por que não, revoltas. A bordo de seu estilo verborrágico e enfático, armado pelo ímpeto combativo de suas ideias, impregnou-se da alcunha de autor maldito, inclinado a tratar de temas considerados proibitivos como homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência. Se o país não tinha voz, o que dizer da do submundo da São Paulo sessentista que ele tanto insistia em investigar e lançar luz?
Figura difícil, até que peças como Navalha na carne (1967) e seus textos jornalísticos incomodassem militares, conservadores de plantão e moralistas de faro aguçado, foi tarólogo, camelô de seus próprios livros, técnico da extinta TV Tupi, jogador de futebol e palhaço. Ganhou reconhecimento e muitos amigos, mas foi pego pelo avesso da moeda, à beira da pobreza, perseguido, desempregado, sem casa própria e com um punhado de desafetos. Cada pormenor da breve introdução que inicia esta reportagem é contextualizado e detalhado em minúcias pelas 500 páginas que esculpem a biografia Bendito maldito, cunhado pelo jornalista Oswaldo Mendes. Com base numa apuração que reúne mais de 600 personagens, que tiveram, de uma forma ou outra, suas vidas impactadas pela obra de um dos mais importantes dramaturgos da história do teatro brasileiro, Mendes conduz o leitor por uma saga que traceja relatos, memórias e, principalmente, emoções à flor da pele.
– O dramaturgo já foi revelado e reconhecido através de inúmeras teses sobre a sua dramaturgia e montagens, que não param de correr o mundo – diz Mendes. – Meu livro deve revelar o homem capaz de gestos extraordinários, de uma generosidade que não urgia em ser exposta. A religiosidade de Plínio se manifesta pela paixão que le tinha pelos seres humanos.
Há 10 anos – mais precisamente em 19 de novembro, dia em que o amigo era enterrado – Mendes recebia um convite inesperado. O filho do diretor, Léo Lama, e o editor Quantim de Moraes lhe pediam que escrevesse sobre sua vida. Disse aos dois que não era hora para assumir tal compromisso.
– A cobrança se repetia, mas eu precisava de tempo. Não devia escrever sob a emoção da perda – lembra. – A escrita se processa por estranhos caminhos. Há um ano e meio comecei a extrair as histórias e deixá-las prontas na minha cabeça. Tinha longos depoimentos em que ele falava da sua vida, assim como outros que concedeu ao Quantim, mas que tive acesso.
Papos de redação e botequim
Ao topar o desafio, não fez de sua biografia um buraco da fechadura através do qual o leitor é convidado a invadir intimidades. Prefere documentar a contribuição histórica na área em que se destacou o biografado. Para isso, é claro, lança mão de histórias fascinantes, algumas inacreditáveis, que apagam em borrões a tênue linha entre realidade e ficção, mentira e verdade. – Ele escreveu sua própria biografia enquanto esteve vivo. Seus artigos, crônicas e entrevistas revelam fatos e versões que se misturam. Fala sobre santos, coisas pessoais... O Plínio nunca contava uma história da mesma forma. Dependiam do humor, e ganhavam coloridos e contornos diferentes.
Conheceram-se em 1968, quando Dois perdidos numa noite suja era encenada na cidade de Marília, logo depois, se reencontraram na redação do Última Hora. Entre idas e vindas, trabalharam juntos por quase uma década. Em papos de redação e botequim traçavam assuntos diversos, não apenas teatro.
– Era um vulcão de ideias. Nunca monotemático.
Nos últimos 10 anos da vida de Plínio, tornaram-se ainda mais próximos. O companheiro havia saído da imprensa, atravessava dificuldades pelo desemprego e pela diabetes e vivia de biscates, vendendo seus livros em portas de teatro.
– Até o fim, defendeu com veemência suas ideias, com um entusiasmo que fazia os outros pensarem que ele estava brigando – conta. – Ele tinha vontade de dizer o que lhe vinha à mente, sempre numa linguagem muito peculiar. Ia para dar porrada e isso acabava contaminando a visão das pessoas. E ele ajudava a criar esses personagens de si. Acho que tem muito a ver com o palhaço que ele foi na juventude.
Ao contrário de seus textos publicados na imprensa, o autor defende a ideia de que sua obra dramatúrgica não contém traços biográficos. Define como aspecto fundamental da sua dramaturgia uma escrita desvinculada de um olhar umbilical. Não escrevia para extirpar dramas pessoais. A exceção fica por conta única e exclusiva do texto Balada de um palhaço. Na peça, dois palhaços, que na verdade representam um só, vivem sob dilemas.
– Se devem ou não agradar ao público com seu trabalho, se isso é se vender... Nesse embate, fica claro que é Plínio quem fala. Só podemos reconhecê-lo nesse texto. Fora isso, nunca usou seus personagens para se defender. Defendia, sim, o ponto de vista dos marginalizados, daqueles jogados para escanteio... Dava voz para o povo.
Escrevia sempre motivado por histórias que via ou ouvia, mas que, sobretudo, o emocionassem. Definia-se como um repórter do mal.
– Plínio tinha uma intuição e uma percepção profunda sobre a humanidade. Olhava o ser humano com paixão. Tentando entendê-lo e fazendo com que todos se manifestassem.
Para a crítica teatral e amiga íntima Ilka Maria Zanotto, que também assina o prefácio do livro, a biografia de Mendes se desvela como um espetáculo teatral dividido em atos e cenas, cortado por flashbacks e zooms, em vaivéns que, através de uma linha do tempo rigorosa e repleta de fatos, situam o leitor em meio ao turbilhão de histórias que o furacão Plínio protagonizou – ou, como era do seu feitio, provocou. Entre elas, a montagem de Dois perdidos numa noite suja, no Rio de Janeiro, em abril de 1967, com Fauzi Arap e Nelson Xavier – fato decisivo para o reconhecimento do dramaturgo pela crítica. Ainda em 1967, embalado pela repercussão de Dois perdidos..., Plínio concluiu em três noites uma nova peça, Navalha na carne, sumariamente proibida pouco antes de sua estreia. Para os militares, seu trabalho continha cenas “obscenas, termos torpes, anomalias e morbidez”. Sem meias palavras, direto e convincente, dava tratamento dramático à realidade de prostitutas, gigolôs e bandidos. Considerado subversivo, teve outras peças proibidas, como Abajur lilás (1970), um dia antes da estreia.
– Ele era perseguido. Perdeu todos os seus empregos. Era uma barbaridade o que fizeram – lamenta. – Mas o que ele dizia não era nada mais que a realidade. Ele incomodava a alma, mas não era algo ideologicamente engajado. Dava voz aos que não sabiam de sua miséria. Amava ao próximo com todas as suas contradições. Afinal, não era um anjo, mas um homem.
Em torno da multifacetada e intensa vida da poeta Ana Cristina Cesar (l952-l983) não falta espaço para mistérios, angústias, sentimento de perda e, acima de tudo, encantamento – seja pelo primor de seus escritos quanto pela verve dramática de sua trajetória pessoal, interrompida aos 31 anos, ao se atirar do oitavo andar do apartamento de seus pais, em Copacabana. A julgar pelos traços da sua vida e obra, há tempos a literatura, o cinema, a TV e o teatro poderiam ter iluminado sua breve e impactante existência. Tributo que, sob o empenho de Paulo José e sua filha, a atriz Ana Kutner, chega aos palcos sob o título de Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar, que inaugura, nesta sexta, o novo Teatro Oi Futuro Ipanema.
– Sempre me perguntei por que tantas mulheres inteligentes acabam tirando a própria vida – diz Paulo José, que volta a atuar em teatro após nove anos. – Parece que não conseguem suportar esse terrível rótulo do feminino. Como se a mulher não tivesse o direito de ser inteligente. Desde que li seus primeiros poemas, em 1983, Ana me pareceu rebelde em relação a tudo isso.
Convivência pouco amigável
Para a montagem, Ana Kutner assume o papel-título, enquanto seu pai, o diretor Paulo José, vive a si próprio. Construída a partir de uma peça escrita por Maria Helena Kühner, em 1996, o texto, a princípio um monólogo, ganhou nova feição dramatúrgica sob as mãos de Walter Daguerre, que decidiu incluir a breve e pouco amigável convivência entre Paulo José e a escritora nos bastidores da TV Globo.
– Mudamos o rumo quando nos deparamos com o livro Antigos e soltos, publicado recentemente. Encontramos ali material para mais de 20 peças – conta Ana.
Com a maior parte da narrativa extraída de prosa e poesia, rascunhos, textos inacabados, bilhetes, cartas, diários e frases soltas da autora de Luvas de pelica (1980) e A teus pés (1982), o espetáculo não pretende responder às recorrentes indagações que remontam os motivos de um suicídio. Pelo contrário, urge em amplificar, a partir de sua palavra poética, as reticências, dúvidas e a complexidade de seu pensamento. Apresenta ao espectador suas buscas e angústias, a inquietação que impulsionou sua escrita – metade ficcional, metade biográfica.
Assim como a sua obra, o espetáculo expõe enigmas e lança no palco as peças para que o público se encarregue de montar o quebra-cabeças.
– Não há resposta para o que leva alguém à solidão e ao desejo de se matar. E é difícil resumir a vida de uma pessoa em pouco mais de uma hora, ainda mais de alguém tão intensa como ela – conta a atriz. – Ana era um vulcão, com diversas facetas e personagens. Mais do que fazer uma peça sobre uma suicida, queremos falar do caráter genial de sua obra. Sua escrita tinha o poder de fazer com que o leitor se sentisse parte do poema. Um comprometimento que aproximava o leitor.
Predestinada a traçar caminhos literários, aos 4 anos passou a ditar aos pais seus primeiros versos. E aos 20 e poucos tornara-se tradutora de nomes do porte de T. S. Eliot, Ezra Pound, Emily Dickinson, Mallarmé, Dylan Thomas, Walt Whitman e Sylvia Plath. A mesma precocidade, impulso e obstinação que a levou a riscar as primeira linhas, traduzir com esmero obsessivo outras obras e a retirar-se do mundo aos 31 anos e com apenas um livro publicado. Entre o início e o fim de sua curta e potente trajetória, de necessidade profunda do ato de escrever, Paulo José e Ana Kutner lançam mão de adjetivos que a sintetizam como uma combustão de lucidez, loucura, talento, senso crítico e, além de tudo, visceralidade.
– Sempre mantive uma relação muito próxima com a poesia. Acompanhei e li muitas gerações de poetas, inclusive a dela, dos mimeógrafos, que se distingue bastante das anteriores – conta o ator. – Ela circulava na academia e entre os poetas marginais, Chacal, Cacaso e Geraldo Carneiro. Mas o que me deixa encantado é que, a meu ver, ela não se enquadrava em nenhum movimento, grupo ou rótulo geracional. O que ela tinha com esse pessoal era uma coincidência de idade. Mas sempre foi diferente, uma figura rara, mulher.
“Aquela pedante, chata e pretensiosa era uma grande escritora”
À época em que travaram contato pela primeira vez, em 1982, Paulo José havia sido escalado pela Rede Globo para criar um novo programa. O produto deveria concorrer com o então líder de audiência O povo na TV, exibido pela extinta Tupi. Entre idas e vindas do projeto pelo Departamento de Análise de Textos, Caso verdade recebia críticas ferozes de um funcionário, assinadas com a abreviatura “A. C. César”, que irritavam o diretor. Recém-chegada da Inglaterra, onde concluíra o Master of Arts (M. A.) em Teoria e Prática de Tradução Literária, Ana Cristina integrava o tal departamento.
– Ela era implacável com os roteiros. Nos relatórios que circulava na direção, dizia que eram superficiais e simplórios – lembra o ator.
Em menos de um ano, ele e a analista de roteiros tornaram-se, na sua definição, “inimigos quase íntimos”.
– O fato é que ela estava no lugar errado. Eu tinha que fazer um programa popular que atraísse as senhoras, os aposentados e as empregadas domésticas...
Pouco tempo depois da estreia do programa, Paulo se deparou com o segundo livro de Ana Cristina Cesar, A teus pés. Já afastada dos quadros da Globo, a poeta deixou o ex-companheiro pasmo com o trabalho. Amante da poesia, o diretor ficou impressionado com o misto de sofisticação e visceralidade.
– Comprei o livro e vi que aquela pedante, chata e pretensiosa era uma grande poeta. Não trabalhávamos juntos nessa época. Vi sua fotografia em jornal, e no dia 29 de outubro fiquei perplexo com a sua morte. A partir daí, me bateu um grande remorso, por ter vivido ao lado de uma pessoa incrível como ela e de ter perdido tanto tempo com besteiras.
A montagem marca a volta aos palcos do ator, após um hiato de nove anos. Além do reencontro com a atuação no palco, a peça serve ao primeiro encontro cênico com a filha Ana Kutner:
– Grupo de teatro tem a ver com família. Agora concretizo dois desejos de uma só vez.
Naquela noite de verão de 1989, o palco do Circo Voador adormecia sonolento com uma atração pouco conhecida, vinda do Maranhão. Na plateia, o cantor Sérgio Sampaio, em visita ao Rio, passava despercebido. Não que fosse difícil. Afinal, fazia sete anos desde que ele lançara seu último trabalho, Sinceramente (1982), e um bocado de tempo desde que havia regressado à sua Cachoeiro de Itapemirim natal. Reconhecido pelos integrantes da tal banda, foi chamado ao palco e, em poucos minutos, eletrizou a madrugada com uma canja que incluía seu maior sucesso Eu quero é botar meu bloco na rua e uma homenagem a Cazuza. À beira do palco, um amigo do grupo, o então jornalista e conterrâneo Zeca Baleiro pirava com a performance.
Após o fim apoteótico, traçou linha reta e foi ao camarim para conhecer o herói das rodas de violão que seus irmãos mais velhos embalavam quando ele era pequeno. Não perdeu tempo, e convidou o ídolo para uma entrevista a ser publicada na edição inaugural de uma revista de cultura que editava com alguns colegas. Apesar do aceno positivo, apenas alguns meses mais tarde teve acesso ao cassete que o entrevistado utilizara como meio de resposta. Jamais publicada na imprensa até a inclusão de alguns trechos nesta página, o contato serviu para insuflar a admiração por Sampaio.
“Sérgio era camicase”
– Era um cara fascinante, cheio de mistérios, maldito, com histórico sobre drogas, tudo que um adolescente como eu se impressionava – diz Baleiro, que até o fim do ano reedita Sinceramente. – É frustrante ver um cara que morreu cedo sem ter feito metade do que poderia. Não segurou a barra da popularidade e tornou-se irascível.
Diferente de outros da época, como o Luiz Melodia, que voa na loucura, mas retorna. Sérgio era mais camicase.
Lembro desse encontro com carinho e a fita com a entrevista era impressionante, porque ele deixou uma gravação caseira de uma música inédita, Maiúsculo.
Anos mais tarde, em 1994, Sampaio parecia empenhado em pôr fim ao hiato de mais de uma década que o punha no ostracismo. Mas em maio daquele ano, vítima de uma crise de pancreatite, o músico não resistiu, deixando versões demo em voz e violão para oito faixas que se transformariam em seu quarto álbum de carreira, a ser editado pelo selo Baratos Afins. Era a deixa para que Baleiro iniciasse uma garimpagem sonora junto à família do músico, que o levou a restaurar faixas e lançar, em 2005, o álbum póstumo Cruel.
– Três anos depois da sua morte, fui chamado pelo Sérgio Natureza para um projeto em sua homenagem.
Recebi oito canções inéditas para escolher, mas acabei optando por Tem que acontecer, que eu já namorava – conta o músico.
Ele refere-se ao álbum-tributo Balaio de Sampaio, relançado agora pelo produtor Marco Mazzola, como marco aos 15 anos da morte do compositor, aos 47 anos. O disco, composto por 13 faixas interpretadas por pesos-pesados da MPB, como Erasmo Carlos, Lenine, , João Bosco, João Nogueira, além de antigos amigos, como Luiz Melodia e Jards Macalé, conta com arranjos inéditos tecidos por Mazzola para a faixa-símbolo de Sampaio.
– Eu quero é botar meu bloco na rua foi um grande sucesso e quis fazer uma versão mais atual – conta Mazzola. – Depois de 11 anos, consegui reaver os direitos e colocar o disco na rua. Não é uma questão de vender, mas, sim, de expor uma raridade sobre um compositor que desperta muita curiosidade. Sérgio era autodestrutivo. E, apesar dos discos que fez, não conseguiu fincar seu nome entre os maiores da música brasileira. Acabou no ostracismo e nem sequer noticiaram a sua morte.
Técnico de mixagem da antiga gravadora Philips, Mazzola era chefiado por Roberto Menescal e André Midani quando conheceu Sampaio, em 1972. Ele fora chamado para participar de uma reunião na sede da companhia. Lá, um homem de terno, gravata e óculos escuros, chamado Raulzito, acompanhava um jovem músico que havia descoberto num teste para a CBS e que havia decidido empresariar.
– Sérgio mostrou algumas canções e o achei incrível. Mas saí da sala e o tal empresário veio junto. Disse que tinha umas canções, tirou o paletó, a gravata e começou a cantar. Não acreditei, entrei na sala e bati no ouvido do Menescal. “Esse tal de Raulzito tem uma canções que você vai pirar”. Ele respondeu: “Quer produzir? Toma conta dele”. E foi aí que Sérgio e Raul Seixas foram contratados e participaram do Festival daquele ano. Depois o Raul se tornou um fenômeno porque conseguiu segurar e ir em frente na sua loucura, enquanto o Sérgio não acompanhou aquele ritmo.
A aversão ao showbusiness, à badalação dos bastidores, o assédio dos fãs e à exposição massificada aliada à falta de estrutura pessoal (marcada por sua solidão) e profissional (não tinha uma banda e nem um empresário que cuidasse somente dos seus negócios e o ajudasse a desenlaçar problemas) serviram como embuste à pecha de maldito. Autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua, que, em outubro, voltou às livrarias em nova e revisada edição, Rodrigo Moreira acredita na tese acima como fator levou Sampaio ao limbo profissional nos anos 80, com escassos shows em bares a minguados cachês:
– Ele passou a sofrer com a censura política e estética, que minaram sua expectativa e o levaram a um desencanto pelo mercado da música. Essa coisa do maldito só é boa para o folclore, mas foi extremamente prejudicial. O maldito não faz show, não é convidado para programas de TV e, também por isso, vende poucos discos. Ele não tirou proveito do sucesso do seu primeiro disco. Não consolidou a carreira porque não tinha estrutura. Não havia um Guilherme Araújo, como os baianos tiveram.
Presente na “virada noturna” da MPB
Dedicado a analisar a estrutura poética e melódica do álbum Eu quero é botar meu bloco na rua, a editora Língua Geral dá início à série de livros de bolso Língua Cantada – organizada pelo núcleo de estudos musicais do Cesap (Ucam). Neste primeiro volume, escrito por Paulo Henriques Britto, o clássico de Sérgio Sampaio é esmiuçado letra por letra, acorde por acorde.
– Já havia escrito sobre o momento do rock brasileiro posterior ao tropicalismo. Quando recebi o convite, voltei a escutar os discos do Sérgio, pesquisei na internet o que eu não conhecia e li a sua biografia – conta o autor.
Paulo Henriques Britto define Sampaio como representante paradigmático do movimento pós-tropicalista, momento que associa a uma “virada noturna” da música popular brasileira liderada por nomes como Luiz Melodia, Jards Macalé, Wally Salomão, Torquato Neto, entre outros, logo após a implementação do AI-5 em plena ditadura militar:
– As coisas mudaram drasticamente com o AI-5. Em 1972 e 1973, morei na Califórnia e vinha embalado com os festivais de rock e a contracultura. Mas no Brasil, as guitarras, o rock e os cabelos longos não se relacionavam com o paz e amor, ou até com a contestação aguerrida do sistema político. O pós-tropicalismo tinha um clima de medo. Vários amigos piraram, foram exilados, viviam na clandestinidade. A música era muito baixo-astral, falava de noite, solidão, derrota, exílio e loucura.
“Toco violão como quem toca o corpo de mulher”
A entrevista perdida, usada apenas como material de suporte ao lançamento do álbum Cruel, idealizado e concebido por Zeca Baleiro, pode ser conferida, em alguns trechos abaixo:
Início “Comecei em 1971, na CBS. Fui até lá para acompanhar no violão um rapaz, que queria fazer um teste para cantor. E quem nos recebeu foi um produtor chamado Raulzito, que era o Raul Seixas. Ele cantou, eu toquei, e aí o Raul disse para o Odibar que para lançar um cantor novo precisava de uma música muito poderosa, que invadisse as rádios e chamasse atenção. E eu, inocentemente, falei: “Tenho umas coisas aqui, será que interessa?”. Ele olhou pra mim com aquela cara de enfado, pensando “Ai, meu Deus, mais um compositor”, e disse: “Tá bom, então canta”. Aí eu cantei uma canção e ele arregalou o olho: “É sua? Tem mais?” Cantei outra e outra e outra… Na saída, ele nos convidou para tomar um café, e falou baixinho pra mim: “Volta amanhã”. Voltei e fiquei”.
Música
“Eu não sou músico. Músico é Hermeto, é Egberto... Músico eu não sou. Faço meus acordes, pego o violão... Toco no violão como quem toca o corpo de uma mulher sem saber as zonas erógenas. Vai tocando por instinto... Assim é a minha relação com o instrumento. Sou um poeta, mas a poesia se manifesta em mim através da letra de música. Não seria um poeta como Vinicius, como Drummond, como Fernando Pessoa, por exemplo. Talvez não fosse capaz de sentar e escrever um livro de poesia e, mesmo que escrevesse, não iria sair lá grande coisa. A música é uma coisa muito forte e, geralmente, quando faço as músicas, sai tudo junto, letra e música. E é uma coisa bastante agradável, tesuda, extasiante mesmo de fazer. Eu me coloco nu nas coisas que faço”.
Inspiração
“Costumo dizer que o luar não teria razão alguma de existir se não tivesse, por exemplo, um casal de namorados admirando aquele espetáculo deslumbrante. Acho muito mais bonito o êxtase no semblante de um casal do que propriamente o espetáculo. Então, a fonte de inspiração são as relações humanas. O ser humano é a coisa mais bonita”.
Desde que deixou os pilotis da universidade para trás, com o canudo de comunicação debaixo de um braço e o violão do outro, Marcus Coutinho, 25 anos, vulgo Qinho, dedicou-se integralmente à produção, gravação e composições para a banda Vulgo Qinho & Os Cara, firmada em parceria com o poeta Omar Salomão. De lá para cá foram mais de quatro anos em cima dos mais variados palcos da cidade, do Circo Voador ao Cinemateque, onde as noites dos caras ganhavam participações especiais de gente graúda, como Luiz Melodia, Jards Macalé, o soulman Hyldon e o eterno “leãozinho de Caetano”, o baixista Dadi. Apontado como uma das novas caras do Rio pela revista Domingo, do Jornal do Brasil, Qinho sobe ao palco do Cinemateque nesta quarta para entoar as canções de seu primeiro trabalho solo, Canduras.
– Hoje em dia o artista se torna produtor de si mesmo – afirma Qinho, que prepara um EP com o projeto paralelo Irmãos Brutos e que, em dezembro, realiza shows semanais a bordo da Cia. Velha, dedicada à releitura de hits de 1969. – E foi assim que a gente conseguiu tocar com tanta gente e vender mais de duas mil cópias do nosso primeiro trabalho. Mas chegou a hora de eu me dedicar às minhas composições, explorar minha criatividade em novos temas.
As 10 canções que recheiam Canduras e boa parte do repertório do show resultam de parcerias talhadas com uma nova safra de escritores, poetas e letristas, como os integrantes da banda Os Outros (Vitor Paiva e Botika); Miguel Jost, Ericson Pires, Rodrigo Gameiro (que também assina a direção do videoclipe para o single Mais de uma janela), além, é claro, do comparsa Omar Salomão. A noite, que terá a presença de Amora Pêra (Chicas) e Botika, serve ainda como batismo para algumas faixas recém-traçadas, como Maravilhosa beijoca, que recebeu remix do DJ alemão Ian Pooley, além de versões para Fazenda, de Nelson Ângelo, e Morena, de Gonzaguinha.
– Descobri Morena num disco do Gonzagão e mostrei para Amora, que é filha do Gonzaguinha... Ela não conhecia. A Amora incentivou muito este trabalho e o Botika praticamente me deu Mais de uma janela, que é um das mais pedidas.
Se à frente de sua ex-banda, o jovem trovador versava sob a influência concreta do ambiente e do comportamento frenético da urbe, agora navega por outros tons.
– Vou cantar pela primeira vez Vivo sonhando, do Tom. Os versos têm muito a ver comigo, “E eu a falar de estrelas / Mar amor e luar / Pobre de mim que só sei de amar” – cantarola, trocando o te por de.
Como indica o batismo de seu novo trabalho, Qinho soa mais doce, viajado, encantado pelas coisas simples da vida. Ao elaborar Canduras, referências imagéticas como ônibus, prédios, balas perdidas, entre outras peculiares à sua banda foram substituídas por um mergulho na subjetividade e nas relações humanas. No fim das contas, mantém intacto o espírito desbravador arraigado à vivência por entre ruas e vielas da cidade, como as do Morro do Galo, onde até há um tempo fazia explodir as caixas de som locais num programa de rádio dedicado à black music, com muito Fela Kuti, Donny Hathaway, entre outras gemas.
– Com a banda fiz as minhas primeiras canções e elas são mais cruas, diretas e críticas. Mas em vez de falar do que eu achava errado, resolvi cantar o que eu acredito. Passei a falar do que eu acho mais certo, que é o amor, o afeto, a delicadeza, coisas que eu sinto falta no mundo de hoje. São canções que me fizeram refletir e mostram como eu quero interagir com o mundo.
Compostas no velho esquema voz e violão e registradas em gravações caseiras feitas no computador, as novas canções ganharam admiradores através do MySpace antes de serem transportadas ao estúdio.
– Fiz tudo em casa e gravei naqueles microfones toscos de computador para colocar na rede. E o resultado ficou muito íntimo. Quis levar essa delicadeza para o estúdio.
Chegando lá, Qinho contou com o acompanhamento de outros músicos, em arranjos intimistas pontuados por instrumentos de sopro como clarinete e trompete, além de baixo acústico e uma percussão minimalista. No palco, ele empunha violão e uma guitarra semiacústica para deitar sua voz macia num repertório próprio que ecoa influências de linhagem nobre. A maior parte delas listadas no set que o moço comanda no início da noite, quando ataca com Caras e bocas (Gal Costa), Agora (Dóris Monteiro), Refavela (Gilberto Gil), Mico de circo (Luiz Melodia), Coisas (Moacir Santos), além de uma série de referências como D'Angelo, Duke Ellington e John Coltrane, além de Marvin Gaye, entre tantas outras da bossa nova à tropicália, do soul ao funk setentista.
– Refavela e O canto jovem de Luiz Gonzaga foram referências centrais para o Canduras.
“Um disco à moda antiga”
Organizador da mostra de cinema Rock and Totem, dedicada à exibição de pérolas do documentário musical, o surfista e empresário da moda Fred D'Orey é um entusiasta do talento de Qinho. Apoiador de Canduras, Fred define o trabalho solo do cantor como “meditativo, gostoso, um disco à moda antiga. Feito para colocar na vitrola, deitar num sofá, deixar o tempo parar e escutar”.
– Quando eu o conheci, ele era só um garoto que ia lá em casa fazer uns saraus. Fazia versões muito particulares de artistas que eu admirava. Ele sempre ouviu muita música brasileira, enquanto eu cresci ao som do que rolava lá fora. E ele pegava uma canção do Van Morrison e fazia aquilo soar como uma espécie de mantra, com um viés de samba – recorda D'Orey.
Já Dadi destaca o timbre vocal do músico. Diz que Canduras traz “leveza, frescor, um suingue essencialmente carioca, uma sonoridade das antigas, que me faz lembrar Jorge Ben, a pegada soul do Hyldon...”
Citado por Dadi, Hyldon não deixa a bola cair e emenda:
– É um dos maiores talentos dessa nova geração. Tem atitude dentro e fora do palco. Sou frequentador do Baixo Leblon há anos, mas só cantei a primeira vez ali por causa deles, que montavam a banda no meio da rua para tocar.
Em seu primeiro trabalho solo, lançado há dois anos, o cantor, compositor e instrumentista Edu Krieger extraía de seu balaio o melhor de um repertório autoral talhado ao longo de anos dedicados a imersões criativas em muitos sambas, marchinhas e forrós, entre outros gêneros brasileiros enraizados em botecos espalhados pela Lapa.
Deixando-se levar pela mesma maré que conduziu sua primeira barca de canções, Krieger segue caminho estético similar nas 12 faixas que moldam Correnteza (Biscoito Fino), atracadas ao porto seguro de violões (de sete e oito cordas), cavaquinho, guitarra e percussão – e avança pouco.
A faixa-título e também abre-alas do seu novo álbum mostra o quanto o músico se banhou em linhagens melódicas e líricas que prestam tributo à fina estirpe de Paulinho da Viola – em especial, seus sambas que tratam do mar como inspiração, tanto pela fluidez melódica quanto pela atmosfera melancólica e contemplativa. Introduzida pelas graves notas de um sete cordas e pelo ressoar nostálgico de uma cuíca, a canção desliza por versos simples que clamam que a tal correnteza o leve, o mais depressa possível, ao encontro de um amor perdido ou distante.
Já nas faixas seguintes, Feira livre e, principalmente, Desestigma, Krieger acerta a caneta em longas e inventivas letras, mas deixa a desejar em motivos melódicos cíclicos e pouco inspirados. Versos como “Nem tudo que se publica é fato / Nem todo galã das oito é rico / Nem todo camisa 10 é Zico / Nem todo cantor de rock é chato” e “Nem todo maluco é sem juízo / Nem todo grã-fino tem fineza / Nem toda pintura tem beleza / Nem toda beleza é paraíso“ sinalizam a imaginação fértil de um compositor maduro, mas igualmente solto e repleto de frescor em seus traços.
Contando com a participação especial de um dos integrantes do grupo Tira Poeira, o bandolinista Henry Lentino, Krieger sem empenha em levar adiante o samba de roda Clareia, mas o resultado deixa a desejar se comparado aos sambas que o mesmo riscou em seu debute. Também adornada pelo instrumento de um antigo companheiro de Lapa, o violinista Nicolas Krassik, Galileu é outra que, salvo o belíssimo solo final do francês, pouco acrescenta ao repertório melódico de Krieger. Dando sequência à série de participações musicais que recheiam o miolo de Correnteza, o músico apresenta o bolero Sobre as mãos, assinado em parceria com o violonista Zé Paulo Becker e com direito ao trombone de Roberto Silva e o sofisticado piano de João Donato, além da bela A mais bonita de Copacabana, azeitada pela gaita quente de Rildo Hora.
Pouco ousado, Correnteza surpreende apenas pelo inusitado arranjo tecido para Ela entrava, onde a voz de Krieger é embalada pelos “sopros” de um naipe de cinco cuícas sobrepostas, tocadas pelo percussionista Fabiano Salek. E só recolhe a fluidez plantada na faixa inicial ao se deixar levar pela sanfona de Marcelo Caldi no xote Rosa de Açucena, assim como no forró Graziela, disfarçado de canção pop. Encerrado com o samba(anti)exaltação Serpentina, este ciclo de canções repousa em calmaria e deixa clara a urgência de novas, e talvez revoltas, ondulações musicais.
Desde que foi cunhado, o termo black music – nas décadas de 60 e 70 mais associado ao soul e ao funk – assume a condição genérica de um guarda-chuva, ao mesmo tempo amplo e redutor, da produção musical afro-americana. A partir do fim dos anos 80 e com a chegada do século 21, o “problema” ganhou dimensão ainda mais significativa com a evolução das mesclas, samplers e colagens capitaneadas pelo movimento hip hop e pela nova geração do r&b. Justo no auge das misturas impulsionadas pela digitalização dos mecanismos de produção, surge um cantor que, descartando o aparato eletrônico e suas múltiplas possibilidades, faz de sua voz um instrumento, ou melhor um sintetizador orgânico e natural de todas as referências que se espremem no tal panteão black. Após a salva de palmas da crítica internacional ao seu debute, The dreamer, aos 30 anos José James finaliza seu próximo álbum, que sob o sugestivo título de Blackmagic – com cinco faixas já disponíveis em seu MySpace – leva a crer que, mais que um agrupamento de gêneros, a tal black music é coisa mágica, e no caso de JJ, talvez, magia negra.
– A minha música é apenas o reflexo de quem eu sou. Venho de um mundo de diversidades, inúmeros backgrounds, paixões e experiências. Gosto de uma porção de coisas e posso fazer da minha música a união de uma série de escolhas. Eu quero que a minha expressão seja natural e repleta de sentidos – diz José James, enquanto saboreia um chá de menta, ao som de Benji B, num estúdio ao leste de Londres, onde ajusta os toques finais do novo disco, previsto para ser lançado em janeiro de 2010, pela Brownswood Recordings.
À sua frente, espalhados ao redor de seu laptop, discos de dubstep, um novo CD do Spectrum e outros de Alice Coltrane, sobre quem prepara um projeto para o London Jazz Festival – elementos que povoam suas mais recentes audições.
– Além disso, tenho escutado muito Flying Lotus e Zahra Hindi – detalha JJ, que acaba de se apresentar na Europa à frente de um projeto tributo a John Coltrane.
Para os próximos meses, além de acertar sua banda para os shows da turnê Blackmagic, ele se apresenta em duas datas junto a outra sensação do jazz, Melody Gardot, e termina de afinar as notas para dois projetos paralelos, com o pianista Jef Neve e a participação em duas canções para o novo trabalho do Bassment Jaxx. Numa época em que cantoras parecem dominar a cena jazzy, José James segue a tradição vocal de ícones como como Joe Williams, Nat King Cole, Mark Murphy, Leon Thomas, Andy Bey, entre outros, que lhe conferem uma sonoridade vintage à base essencial de piano e baixo acústico. No entanto, mais que apenas prestar tributo às feras do soul e do jazz, James simboliza a música negra contemporânea ao unir estilos clássicos à cultura de rua, ou hip hop.
– Gosto de música que soe como os discos da Motown, Nick Drake e Cat Power – exemplifica. – Já Gaye, Billie Holliday e Coltrane assumem um comprometimento com a comunicação que é ina creditável. Se você aplica essa dedicação e paixão, realmente não importa em que época você está vivendo ou criando a sua obra.
Para o músico, seu primeiro álbum, The dreamer , soa como uma “tarde de domingo, o espaço entre a vida privada do fim de semana e nossa vida pública durante os dias normais”. Diz que é mais pessoal e intimista que Blackmagic , que define como um disco contemporâneo “influenciado pela noite, pelo quarto de dormir, por confissões de amor e muitos beats”.
Produzido por Flying Lotus, Moodymann, DJ Mitsu the Beats, Taylor McFerrin e pelo próprio, o CD traduz esse emaranhado de referências novas e antigas.
– Marvin Gaye e hip hop estão mais no foco dessa sonoridade, mas é claro que através do meu próprio processo de composição. The dreamer e Blackmagic são álbuns sombrios e calorosos, mas com uma leveza que vem de diferentes lugares.
Filho de uma descendente de irlandeses e de um músico panamenho ligado às tradições do reggae, José James nasceu em 1981, na fria e cinzenta Minneapolis – segundo alguns, a mais hostil cidade americana. Cresceu enquanto as rádios locais faziam explodir os alto-falantes da sua casa ao som de Jimmy Jam and Terry Lewis, Prince e The Time. Durante a adolescência, a cena hip hop o levou a devorar álbuns de De La Soul, A Tribe Called Quest, Digable Planets, The Pharcyde, Ice Cube, Cypress Hill, entre outros que também sampleavam os discos de seus cantores de soul e instrumentistas de jazz prediletos.
– Eu ficava louco com Digable Planets, que me levou ao jazz por citar todos os maiores nomes em seus raps – recorda.
Aos 15 anos, quando sua voz de repente mudou e passou a assumir o registro grave e profundo de barítono, José James decidiu se juntar ao coral da high school católica em que estudava.
– Eles davam ênfase a coisas como Gloria, de Vivladi – lembra.
E enquanto se dedicava a algumas performances em musicais como Cinderella, começou a escutar os grandes nomes do jazz, como Duke Ellington, Louis Armstrong, Nat King Cole, Billie Holiday, Thelonious Monk, Charlie Parker, Charles Mingus, Ella Fitzgerald e, finalmente, John Coltrane.
– Depois de muito aprender com eles, decidi arriscar e ouvir como a minha voz soava ao tentar cantar alguns temas. Até que comecei a ganhar prêmios e o pessoal da cena de jazz começou a elogiar meu trabalho, essas coisas.
Também no Brasil, onde se apresentou ano passado, seu requintado trabalho chama atenção. Um dos maiores colecionadores de vinis do país e fã incondicional da música negra americana, Ed Motta passou a admirar a voz encorpada do cantor após conhecer The dreamer.
– Ele é a grande continuação de cantores como Joe Lee Wilson, Mark Murphy, Leon Thomas, Bobby Cole, entre outros – compara. – Um timbre com som envelhecido em barricas de carvalho.
Frustração em Nova York e sucesso em Londres
Com Coltrane, Billie Holiday e Marvin Gaye ressoando em seus ouvidos, José James deixou, em 2000, sua Minneapolis natal e zarpou rumo a Nova York, mas para uma frustrante e desencorajadora experiência. Lá, não conseguiu estabelecer contatos e muito menos atrair o interesse dos nova-iorquinos. De uma hora para a outra, sua paixão por cantar evaporou. Durante três longos anos não soltou a voz em casa, e muito menos em shows. E até a sua namorada, à época, desconhecia o requinte de sua criatividade, que transportava para a escrita.
Ao regressar a Minneapolis, a inspiração voltou a brotar. E após uma série de shows, JJ fez o caminho de volta e, em 2004, ingressou na prestigiada New School For Jazz & Contemporary Music – a mesma que abrigou nomes como Roy Hargrove, Robert Glasper e Brad Meldau. Três anos depois, armado pela autoconfiança recuperada e por um EP que emprestava sua voz a uma versão para Equinox, de Coltrane, além de uma composição própria, The dreamer, JJ chegou às mãos do DJ inglês Gilles Peterson.
– Gilles recebeu meu EP durante uma viagem para Londres, que fiz em 2007 – conta. – Lembro que ele me escreveu logo, porque tinha adorado os caminhos que eu seguia e decidiu me contratar.
Preterido por NY e abraçado pelos clubes e selos londrinos, como Brwonswood Recordings, de Petterson, JJ pôs à baila seu debute.
– A partir daí, o disco foi um processo natural. Trabalhei intensamente nele até que estivesse pronto – diz o cantor. – Nova York é ótima para você aprender, ninguém se importa. Existe uma atitude esnobe de quem já ouviu e viu de tudo, enquanto Londres se interessa mais por música nova. Em NY, tudo que você acredita ter de maravilhoso é posto à prova a todo momento. Às vezes é fácil ficar meio metido lá, algo que pode te fazer crescer ou quebrar completamente, ou as duas coisas.
Dividido entre as duas cidades, o cantor diz que hoje se sente à vontade em NY, mas a insegurança de se reconhecer como um artista de porte internacional, ele diz, só foi descartada ano passado, após um show no North Sea Jazz Festival
– Até ali, eu tinha me apresentado por mais de 10 anos em lugares menores. Aquela noite me fez acreditar que o meu público e o meu talento realmente tinham se tornado internacionais. E que eu tinha uma mensagem a passar. Durante o último ano, pela primeira vez, eu tenho sido 100 % música e esse caminho não tem volta.
Realmente, eles não começaram nada. Mas, sem dúvida, amplificaram a sonoridade e impulsionaram o conceito estético que funde a música pop e eletrônica ao indie rock. Formado em Londres pela cantora e guitarrista Katie White – mesmo que, até o primeiro disco, ela não soubesse tocar o instrumento – e o baterista Jules de Martino, o The Ting Tings sintetizou nas 10 faixas de seu certeiro debute, We started nothing os caminhos que a cena indie inglesa traçava há alguns anos: pouca instrumentação, letras diretas e dinâmicas simples e dançantes. E foi assim que, em poucos acordes e minutos, chicletes como Shut up and let me go, Great DJ e That's not my name – responsável por desbancar Madonna do topo das paradas britânicas – despertaram a atenção e grudaram na cabeça de gente como Jools Holland e o produtor Rick Rubin. Depois, elas incendiaram clubes londrinos e cruzaram a internet e estações de rádio, através de radialistas badalados como Zane Lowe, até chegar ao Brasil, onde o duo se apresenta no dia 7 de novembro, no festival Planeta Terra, em São Paulo.
– É lógico que foi o máximo todas essas pessoas comentarem o nosso trabalho. Mas para que tudo isso acontecesse passamos cerca de um ano e meio tocando na noite – conta Katie White, que diz estar ansiosa para tocar pela primeira vez no Brasil. – Claro que a internet e o rádio foram importantes, mas é preciso tocar para que as pessoas conheçam o som. E ainda bem que agora poderemos tocar todas as canções do nosso disco aí.
Dois é bom, três é demais
Até que a sonoridade do Ting Tings deixasse sua marca, algumas frustrações com o mercado fonográfico atravessaram notas e chegaram a desafinar a relação musical entre os dois. Amigos desde o início dos anos 2000 e fãs de Portishead, eles montaram o trio Dear Eskimo e assinaram com a Mercury Records. As conversas com diretores de marketing e empresários, mais interessados em associar a imagem da vocalista com revistas masculinas do que suas composições com o meio musical, levaram ao fim da banda e uma experiência traumática com o mercado. Mas não o bastante para uma segunda tentativa, em dupla, sem ninguém para atrapalhar.
– Quando só nós dois criamos a banda, houve uma mudança de atitude. Antes tínhamos que lidar com pessoas que não queríamos, gente que tentava forçar a barra – lembra Katie. – Mas acho realmente que não nos vendemos, muito pelo contrario, ganhamos a nossa identidade e, hoje, podemos tocar nas casas e festivais que sempre sonhamos, no mundo todo. Além de podermos escolher os produtores com quem iremos trabalhar.
Influenciados por Talking Heads e Blondie, mas exalando referências pop e eletrônicas modernas, o Ting Tings seguiu à risca à filosofia do it yourself (faça você mesmo) para delinear seu primeiro disco.
– Não sei de onde vem o nosso som. Acho que posso definir como pop experimental. Afinal, ouvimos muita música pop e seguimos a filosofia DIY. Tentamos sempre fazer as coisas da nossa maneira, escrever sobre o quisermos falar. Algo que vem do punk e do pós-punk. Mas o lado pop alternativo vem do Blondie e dos Talking Heads, que conseguem ser pop, mas extremamente criativos.
Após o sucesso de We started nothing, o duo já finaliza seu próximo álbum, ainda sem título definido. As sessões foram realizadas num antigo clube de jazz, em Berlim, que foi transformado em estúdio. Se as primeiras composições da banda foram talhadas me festas caseiras, para que sentissem no ato a resposta às canções, o duo repetiu a experiência, desta vez, com alguns alemães na plateia. Apesar do clima dançante e as eufóricas palavras de ordem catapultadas em suas canções, Katie conta que precisa de um pouquinho de depressão para acionar seus impulsos e inspiração festeira. E mesmo com o sucesso da banda nos últimos dois anos, ela diz que que tem, sim, o que lamentar.
– Somos sensíveis e românticos, então sempre tem algo no ar. Para compor é bom estar um pouco afastado de toda a euforia – ressalta. – Por isso decidimos gravar nosso novo álbum em Berlim. Nos apaixonamos completamente pela cidade e passamos os últimos meses por aqui. Quase não conhecemos ninguém e a cidade é vazia, fria demais e tem um clima meio depressivo. Poderíamos ter gravado em Los Angeles, mas acho que lá iríamos acabar indo à praia todos os dias. Não ia dar certo. Combinamos mais com a atmosfera dark de Berlim.
Desde a morte de Layne Staley, por overdose, em 2002, o guitarrista e cofundador do Alice in Chains Jerry Cantrell tenta manter acesa a centelha criativa da banda. Após o último CD de estúdio, Alice in Chains (1995), Cantrell lançou dois álbuns solos, Boggy depot (1998) e Degradation trip (2002), em que presta tributo ao amigo. Três anos mais tarde, juntou-se ao baixista Mike Inez e ao baterista Sean Kinney para um show beneficente, que culminou no retorno do grupo aos palcos e, mais tarde, na contratação do vocalista William DuVall. Desta nova formação, surge este quinto trabalho, Black gives way to blue. Dos quatro pilares do grunge, o AIC segue fundo em seu mergulho pelos ingredientes mais “deprês” do movimento, notadamente seus densos riffs de guitarra, melodias lúgubres e versos desolados. Ao contrário do que o título indica, escuridão e tristeza caminham juntas em faixas que versam sobre morte, dor, fantasmas psíquicos e suicídio, como em Your decision e Last of my kind. Claras referências a Staley ecoam do início ao fim, como na derradeira faixa-título, entoada por Cantrell e adornada pelo piano de Elton John. De técnica precisa e timbre muito próximo ao do ex-líder, DuVall emula, quase à perfeição, os maneirismos vocais de Staley. Contando com os notáveis vocais de apoio ou solo de Cantrell, o AIC acerta em Looking in a view, mas passa longe de atingir a urgência e a profundidade de hits como Would? e Man in the box.
Looking in a view
Muse - The Resistence
Black holes and revelations (2006) já sinalizava a jornada que agora aporta em The resistance, quinto álbum do aclamado trio inglês. Nele, assumem de vez, e com êxito, a megalomania sinfônica que o trabalho anterior apenas vislumbrava. Também ventilando rocks dançantes, como Uprising e Undiscled desires, The resistance mergulha mesmo – e fundo – em referências clássicas para esculpir faixas como United states of Eurasia, que inclui trechos de uma peça de Chopin; I belong to you e Exogenesis, uma sinfonia pop cindida em três partes.
Uprising
Sabrina Starke - Yellow brick road
Nascida no Suriname e criada em Roterdã, Sabrina Starke surge sob a chancela da Blue Note, num álbum que reverbera o neosoul de tintas jazzísticas catapultado por Amy Winehouse e seguido por tantas outras. Com um pé no pop e outro em referências sessentistas, Starke tornou-se hit na Holanda a bordo do single Do for love. Nesta estreia, acerta a mão em boa parte das 14 composições próprias, explorando bem seus límpidos agudos em faixas como Foolish e Keep it simple.
Do for love
The Jet - Shaka rock
Desde que Are you gonna be my girl escancarou as portas do novo rock ao Jet, a bordo de Get born (2003), a fonte secou. Enquanto Shine on (2006) emulava, sem sucesso, as baladas certeiras do debute, Shaka rock (2009) aposta, do início ao fim, no vigor de guitarras distorcidas e refrões gritados. O trabalho se resume a um amontoado insosso de clichês e riffs banais, com direito a palmas e coros infantis. Serve para abaixar ainda mais a crista dos irmãos Nic e Chris Chester, que acertam a mão apenas em Black hearts e Beat on repeat.
Killed in action
Willie Nelson - American classic
Ícone do country americano, Willie Nelson põe o par de botas de lado, se apruma num terno negro, laça a gravata, mas não se desfaz da cabeleira para reverenciar o cancioneiro americano. Esta é a primeira vez que o artista visita standards desde que lançou Stardust (1978). Desfilando entre blues e baladas de acento jazzístico, Nelson põe-se no centro de um sofisticado piano bar, em vez de um cabaré ou saloon do Meio-Oeste. Acerta em Fly to the moon e nas parcerias com Diana Krall, If i had you, e Norah Jones, Baby, it's cold outside.
Era 1942. Caía a noite e Vinicius de Moraes acabara de chegar à casa do pintor Carlos Leão, ao pé do Morro do Cavalão, em Niterói. Ao fitar a estante do anfitrião deparou-se com um libreto da ópera Orfeu e Eurídice, de Gluck. Não titubeou. Deslizou os dedos sobre o objeto e o pinçou da coleção. Chafurdou na poltrona e, numa sentada, devorou suas linhas. Aproximava-se o Carnaval. Da janela ao lado, o morro em polvorosa emendava uma batucada que avançava os ponteiros do relógio. Passava da meia-noite. E o poetinha lá – imóvel. Naquela única madrugada, completamente absorto, destrinchou um rascunho até chegar o amanhecer. Às primeiras hora do dia dava à luz o primeiro ato de Orfeu da Conceição.
“Orfeu sempre me interessou por causa do negócio do poeta músico, do poeta total, né? E, depois, por causa da relação sublime do amor dele por Eurídice. As duas ideias se fundiram. Eu senti o morro negro numa série daqueles elementos. As paixões, a música, a poesia...”, relatou o poeta em depoimento ao MIS, em 1967.
Cinquenta e três anos após a estreia de Orfeu da Conceição num Teatro Municipal apinhado com a nata da intelectualidade carioca, em 1956, o produtor Gil Lopes está submerso em seu novo projeto. Define cada detalhe de uma nova montagem para a ópera greco-carioca cunhada pelo poeta e adornada pelas composições de Tom Jobim – marco do primeiro encontro da eterna parceria. A partir de 2010, palcos de 10 capitais brasileiras ganham o presente. Cotado para assumir o protagonista, Lázaro Ramos não pôde atender ao convite, devido à agenda repleta. Com a direção de Aderbal Freire-Filho, o cartaz da montagem afixa, até agora, uma única mensagem: “Procura-se Orfeu”.
– Conversamos bastante, mas infelizmente não conseguimos conciliar – diz Lopes.
E quem será Eurídice?
– Ela depende quase que exclusivamente de quem será Orfeu... – despista Freire-Filho.
Afinada, só há duas semanas a dupla pôde celebrar a aprovação integral do Ministério da Cultura para o projeto. Com a injeção de ânimo, Lopes trabalha para captar recursos, que estão disponíveis via Lei Rouanet. Desde a sua mítica estreia, “a mais célebre tragédia carioca não é montada seguindo à risca as orientações firmadas pela dramaturgia original de Vinicius”, diz Lopes.
– Montamos clássicos mundiais e esquecemos que Orfeu, o nosso grande baluarte, não é encenado desde 1956. A nossa geração não conhece Orfeu – afirma. – O país precisa se rever através do mito. Hoje vivo para montá-lo, num desejo obstinado. Não vejo nada mais oportuno e urgente do que revermos a poética da peça. É o que de melhor criamos na música e no teatro. Precisamos recobrar essa inspiração. Por trás da obra, está todo o conhecimento de Vinicius sobre o Rio, o morro e o Carnaval. Temos que celebrar a nossa memória e usufruir da obra que esses dois nos legaram, esse mito que nos constitui absolutamente.
Há quem, todavia, conteste a versão. Protagonista da encenação original, com cenários de Oscar Niemeyer e direção de Leo Jusi, Haroldo Costa defende suas duas montagens realizadas em 1995 e 1997, protagonizadas por Norton Nascimento e Kadu Carneiro.
– Foram montagens fiéis. É claro que a atmosfera em que os atores representam gira numa visão diferente, que era a minha como diretor. É um texto tão rico que, agora, Aderbal, com todo o seu talento, dará grandes proporções – recorda Costa. – Na época da primeira montagem, Vinicius reuniu um time memorável para esse grande acontecimento cultural, talvez o marco fundador da bossa nova. Espero que o impacto se repita.
Entusiasmado com a possibilidade, Aderbal Freire-Filho ratifica a tarimba de Vinicius de Moraes como um grande dramaturgo.
– Orfeu é o mundo. Ao mesmo tempo humano e marginal, ele representa a combinação do mito com as peculiaridades da cultura brasileira. Seja na a música que ainda hoje interessa o mundo inteiro, assim como nos nossos costumes, na mistura de raças. É a conjunção dos traços que nos diferenciam.
Obra influenciou até a mãe de Barack Obama
“Uma noite, enquanto folheava o jornal, os olhos de minha mãe se iluminaram com o anúncio do filme Orfeu negro (1959) – longa de Marcel Camus, baseado na peça de Vinicius de Moraes e premiado com o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e com a Palma de Ouro em Cannes – que estava em cartaz no centro da cidade. Ela insistiu que fôssemos vê-lo naquela noite... Subitamente percebi que a representação dos jovens negros, que eu via agora na tela... era reflexão das fantasias simples que haviam sido proibidas a uma garota de classe média branca do Kansas... Minha mãe era aquela menina do filme, cheio de belas pessoas negras na cabeça, seduzida pela atenção de meu pai”. O relato acima é do atual presidente dos EUA, Barack Obama, e consta em sua biografia A origem dos meus sonhos.
– O Brasil conhece pouco o Brasil. Quase ninguém sabe dessa historia aponta o produtor Gil Lopes. – O presidente dos EUA, filho de uma americana branca que se encantou pela cultura negra ao ver Orfeu, que representa um Brasil livre, a democracia em sua plenitude, o desejo de potência que nos alimenta. É o marco de um monumental legado artístico. O cinema do mundo e do Brasil se apoderou e reverberou sua potencialidade nas telas. Já passa da hora de o teatro revivê-lo.
Após o convite de Lopes, Aderbal Freire-Filho colocou-se a redescobrir o mito e toda sua potência política e cultural.
– Não vi Orfeu..., mas senti todo os ecos. Hoje temos o negro cada vez mais presente em todos os segmentos sociais. Vinicius prenunciou esse avanço. Em 1956, era um diplomata e não tinha nenhum negro como companheiro de trabalho. O teatro afro ainda era muito incipiente, apenas com algumas tentativas experimentais de Abdias do Nascimento. Mas Vinicius reposicionou nossa arte.
Em 2002, Hayden Thorpe e Ben Little eram só dois moleques de 15 anos que aproveitavam o tempo fora da Queen Katherine School para começar uma banda. Criados na pequena e conservadora cidade de Kendal, queriam — como a maioria dos adolescentes do lugar — chocar os pais, colegas e quem mais viesse pela frente. E foi nesse espírito que batizaram o duo que tinham juntos de Fauve — termo francês que designa “bestas selvagens”. A cada ensaio, Hayden estrebuchava em gritos que tateavam cumplicidade com as angústias e inseguranças arremessadas pelos urros de Kurt Cobain. Apenas dois anos mais tarde, o cantor entendeu um sutil truque do destino, algo que o faria opor-se diametralmente às peculiaridades vocais do seu ídolo grunge: seus afeminados falsetos causavam reações tão fortes de estranhamento e magnetismo quanto os brados roucos e lancinantes de Cobain.
– Dos 14 aos 16 eu tentava desesperadamente soar como Kurt, bem ao estilo adolescente irritado e explodindo em testosterona que eu era. Achava que havia algo de errado comigo por ter uma voz mais suave e afeminada – recorda o líder e principal compositor do quarteto inglês Wild Beasts, Hayden Thorpe, em entrevista ao Jornal do Brasil.
Sentado à frente de um laptop, numa mesa do seu café favorito, em Leeds, o músico de 22 anos lembra que o desconforto e o medo em assumir sua voz o dominou até a descoberta de artistas como Leonard Cohen e The Smiths. Foi só aí que compreendeu que as palavras poderiam ser tão ameaçadoras quanto a mais violenta das ações.
– A minha voz permitia que eu envolvesse letras agressivas e as disfarçasse, como um cavalo de Tróia. Descobri a minha arma. Dizer coisa horríveis da forma mais bela possível era o meu modo de gritar “fuck you”. Era a minha rebelião.
Lançado em 2007, o primeiro álbum do quarteto, Limbo, panto já prenunciava suas particularidades sonoras, que lembram nomes como Elbow e Antony and the Johnsons. E é justo por força de seus agudos, e das vozes encorpadas de Tom Fleming (baixo) e Chris Talbot (bateria), que o segundo trabalho do grupo, Two dancers, tornou-se um fenômeno de crítica desde o lançamento, no mês passado.
– É um disco humano, com personalidade e caráter. Decidimos deixar que o acaso e os acidentes guiassem a sonoridade explica o músico. – É um álbum de tempo e espaço, um produto daquele ambiente. Acredito que as pessoas queiram sentir a presença dos artistas, em vez de um disfarce perfeito.
À primeira vista, a tríade vocal é o que os distingue das centenas de bandas que pululam o cenário indie inglês da atualidade. Mas não só. A cada verso atinado por Thorpe, impressiona a variedade e a complexidade dos questionamentos, sentimentos e desejos que se agitam na cabeça do compositor. Lançando mão de metáforas, simbolismos e poesia refinada, o grupo expõe um mundo de amores perdidos e lares despedaçados, numa montanha russa que reflete seu estado mental ao longo da última turnê , época em que deu talho às canções de Two dancers.
– A estrada é uma espécie de hiper-realidade, uma estranha condição de existência em que você passa a experimentar a vida num misto de estafa e lucidez. É um turbilhão de sentimentos que te leva a um perigoso nível de adrenalina. Tentamos condensar a beleza e a fragilidade desse complexo estado mental.
Referências explícitas a órgãos sexuais e cenas de orgias compõem o arsenal lírico e libidinoso do grupo. À flor da pele, mas longe de intenções meramente apelativas, Thorpe expressa o desejo de perturbar o puritanismo vigente – inglês ou não. Como alvo, a banda mira nos velhos tabus que ainda encontram guarida nos “liberados” anos 2000.
– O álcool e a vulnerabilidade das turnês aguçam a sensibilidade. Quando estamos sóbrios ou caretas não percebemos o que se passa com tanta clareza. As construções da nossa sociedade, que reprimem nossos desejos instintivos de sexo e violência, vão abaixo. E aí podemos dar vazão ao que nossos corpos desejam. Esse sentimento de crueza sexual e fome se infiltraram definitivamente no nosso trabalho. E é para isso que as canções, os poemas e arte servem. Revelam o que não podemos dizer no dia a dia. Se comunicam com todos nós da forma mais honesta possível.
Two dancers é esculpido por canções que tracejam dinâmicas próprias. Não que isso determine uma falta de conexão entre as faixas que se seguem. Muito porque o conceito estético e temático que permeia o álbum mantém-se, do início ao fim, intacto. Abre-se ao ouvinte uma espécie de ópera pop, em que interpretações dramáticas dão vida a personagens, com suas emoções, humores e intensidades. Dificilmente apreciado em todas as suas nuances numa primeira audição, Two dancers desvela sutis e instigantes paradoxos. O maior deles talvez seja a maturidade com que seus jovens componentes encaram o universo pop da sua geração.
– O pop tem essa qualidade mágica de ser um gênero sem limites, que não se fixa a um determinado tipo de ouvinte. E é por isso que colocamos em nossas canções todas as influências que nos tocam sem medo algum. O pop não requer grande inteligência. Sobrevive do nosso dom de interpretar e imaginar as coisas do mundo.
NYT: “Grandes ambições e músicas brilhantes”
Já na primeira passagem por Nova York, os ingleses do Wild Beasts conseguiram captar a atenção do jornal New York Times, que elogiou o grupo num texto recente. “Os Wild Beasts encaixam grandes ambições em sucintas e brilhantes músicas”, disse o diário, admirando a “mistura de inteligência e reflexos, invenção e destruição” da banda. Eles chegam a comparar o vocal melodramático de Hayden Thorpe aos de Morrissey e Bono – a semelhança com U2 vai também para a parte instrumental – e classificam as letras como “igualmente elegantes e feias”, como na música Hooting and howling. O som que as acompanha é definido pelo New York Times como camadas de esquisitices e complexidades musicais.
E não é só o jornal nova-iorquino que vem despejando elogios à banda. O semanário inglês NME (New Musical Express) admirou a “alquimia artística” do grupo, que faz o estranho parecer normal. “Em um ano de segundos álbuns não muito difíceis aparece o mais surpreendente de todos”, diz o veículo sobre o Two dancers. Eles destacam ainda a coesão do CD – quando “na era dos downloads”, a ideia de álbum não é mais tão importante: “Este é um disco no qual pular uma música parece sacrilégio”.
O site Pitchfork, conhecido pela exigência e arrogância nas críticas, deu a nota 8,4 para Two dancers. E destaca o falsete usado pelo vocalista Hayden Thorpe, “um som que apesar de tender à risada e ceticismo (...) ainda é uma arma altamente eficiente na guerra sem fim contra o indie cauteloso e sério”. O site ainda classifica a música This is our lot como um “hino para a era”, o tipo de música que os fãs que esperam o “retorno do rock” do Radiohead queriam que a banda soasse.
Apesar do elogioso retorno da crítica, Thorpe não se sente confortável com a vulnerabilidade de sua condição de elogiado ou humilhado. Referências freudianas, versos sobre narcisismo e obsessão refletem um leque de defesas contra a opinião alheia.
– É uma constante de estresse. Acho que o narcisismo age como um mecanismo de defesa. Você apenas precisa ser bravo o bastante para refletir ao final de cada dia e se questionar o que tem a perder.
Num mundo em que as portas da web permitem que o mais renomado especialista ou o mais afoito adolescente destrinchem opiniões, unanimidade tornou-se um termo utópico. Mas bem que o Wild Beasts chega perto.
– O que é positivo dessa repercussão é perceber que os críticos nos deram o mérito da dúvida. Certamente os fizemos confrontar ideias pré-concebidas. A vida pública da nossa banda situa-se num patamar diferente da nossa existência como um grupo de garotos que apenas ama se reunir para tocar e compor.