NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

sexta-feira, 19 de março de 2010

Franz Ferdinand tonight

A estrutura de madeira e ferro que punha em lados opostos a banda e o público que lotava a Fundição Progresso em setembro de 2006 veio literalmente abaixo. Era o início do show, e o Franz Ferdinand arremessava os seus primeiros hits na plateia, que correspondia à altura. A paralisação aumentava ainda mais a tensão e os decibéis, com urros que se valiam do altíssimo pé direito para preencher o ambiente. Era a segunda vez que o quarteto escocês se apresentava no Rio em menos de um ano. Poucos meses antes, em fevereiro, um Circo Voador lotado estufava sua tenda para receber uma das mais incendiárias apresentações que a Lapa já viu. Não era para menos. O FF estava no auge do hype. Havia dois anos que o o disco homônimo chegara às lojas. Seguido por You could have it so much better (2005), o rock cru, de riffs angulados e melodias pegajosas do grupo garantia espaço de destaque para o FF no cenário mundial.

– O último show que fizemos aí foi realmente incrível – recorda o baterista Paul Thomson. – Ficamos até preocupados de as pessoas não entrarem em surto. Foi algo bastante físico. O lugar estava quase entrando em colapso, e não queríamos causar uma catástrofe. Foi muito bom. No ano passado pudemos tocar em São Paulo, era um lugar menor, mas uma excelente casa, com muitas pessoas. Estamos ansiosos para voltar a tocar no Rio.

Quatro anos depois, o grupo volta a se apresentar hoje na mesma Fundição Progresso. Mas, definitivamente, será uma experiência diferente. Ao lado de hits como Take me out, The dark of the matinée, Michael, This fire, Do you want to, Walk away, The fallen, Eleanor put your boots, entre outros, estarão canções com uma nova roupagem, pinçadas do mais recente álbum do grupo, Tonight (2009).

– Vamos tocar basicamente as canções desta turnê, mas é claro que sempre mudamos alguma coisa de um show para o outro... Acho que desde que começamos a excursão nossa apresentação já evoluiu bastante. Mas tudo depende do clima da noite. Se estamos tocando no frio de Glasgow é uma coisa. Tenho certeza que aí vai ser algo bastante diferente. A única coisa que mantemos é a espontaneidade. O nosso maior trunfo é poder ser livre para mudar as coisas quando bem entendermos.

E foi isso que os músicos tinham em mente quando decidiram entrar em estúdio para gravar Tonight. O Franz Ferdinand já havia se tornado uma das maiores sensações britânicas. Mais que isso, haviam definido uma nova estética para o rock atual. O pós-punk cortado por guitarras secas, rápidas e angulosas havia se tornado modelo para uma infinidade de novas bandas do cenário independente. Na sala de gravação, Kapranos e companhia deveriam inventar um novo molde para que a carreira não desandasse em meio à veloz corrida de novas bandas na ilha. O cantor de pouca extensão, mas dono de métricas um tanto quanto originais, perseguia um novo caminho para as suas letras hedonistas, sobre garotas, relacionamentos amorosos frustrados, comportamento urbano e madrugadas de festa e bebedeira. E encontrou. Saíram da cena dos pubs e moquifos underground e invadiram porta adentro os clubes dançantes, mas dessa vez escoltados por densas camadas de sintetizadores.

– Demos muita atenção a tudo que envolvia o primeiro disco. E só o gravamos depois de tocarmos muito, ou seja, mais de 200 shows – recorda Thomson.

No primeiro álbum, como é de costume em bandas iniciantes, foi reunido o que de melhor foi produzido durante a adolescência e o início da vida adulta. Já o segundo, apressados pela expectativa gerada pelo primeiro álbum, soava próximo do debute.

– Tivemos pouco tempo para fazer o segundo disco... Tínhamos feito uma longa turnê e logo depois fomos para o estúdio. Oito meses depois já tínhamos o disco pronto. E então foi bom que, para este terceiro, pudemos ter mais tempo. Ficamos realmente envolvidos em pesquisar novas sonoridades. Estávamos muito mais focados, e mesmo assim as coisas levaram mais tempo para ficarem prontas. Aproveitamos o máximo que podíamos. Nos divertimos bem mais que o segundo, com certeza. O segundo é um disco muito rápido e direto, já Tonight é mais denso e pesado, mas para dançar também, é claro.

Depois de cruzar a América Latina e retornar à Europa, em abril, o FF deve tirar alguns meses de folga. Mas o quarto álbum já está nos planos.

– Não começamos a gravar, mas já temos umas canções. Não há nada muito definido. Ainda vamos trabalhar bastante nelas, e sem pressa. Agora ainda é hora de tocar.

Ulysses

quarta-feira, 17 de março de 2010

Free Energy - Guitarras à moda antiga

Enquanto queimava os tímpanos para finalizar o último álbum do LCD Soundsystem, James Murphy dividia as atenções no estúdio com uma sonoridade bem distante do que costuma produzir. Fora da trepidante atmosfera de beats eletrônicos, o produtor esmiuçava amplificadores valvulados para extrair riffs crus e as levadas rítmicas simplórias que emolduram o álbum de estreia do Free Energy. A fórmula sintética do minimalismo – menos é mais – servia a intenções nada modestas: reinventar o tão fora de moda classic rock americano que serve de base ao quarteto. Atravessados pela filosofia “faça você mesmo”, o grupo vinha batendo cabeça há alguns anos em sessões caseiras pouco satisfatórias. Em vez de frustração, o resultado deixava clara a necessidade de um produtor – e de peso.

– Eu amei fazer esse disco. Foi tão bom gravar guitarras novamente. Eu havia realmente esquecido que fazia isso tão bem – disse Murphy, numa entrevista recente.

Lapidado à exaustão, Stuck on nothing chegou às lojas há duas semanas e carrega nos versos “We're gonna start a new life, and see how it goes”, que embala o single Free energy, a centelha que moveu o grupo da acinzentada Minnesota aos estúdios da DFA Records, em Nova York.

– O disco é resultado de anos e anos de gravações. Algumas músicas são novas, mas há outras que eu e Paul (Spranger, vocalista) compusemos para bandas antigas. Foi um processo realmente longo, e eu nem me lembro quando realmente começamos a fazer as versões finais com James – lembra o guitarrista Scott Wells.

Ele encara as idas e vindas ao estúdio, assim como as mudanças na formação do grupo como um processo de aprendizado.

– Tocar com caras com quem nunca havia dividido um estúdio antes e conseguir construir uma massa sonora com o mínimo de coesão é algo realmente mágico – diz. – E agora perceber que tudo deu certo e que as pessoas estejam curtindo o nosso som é melhor ainda.

De Thin Lizzy a Cheap Trick

Respaldado pela crítica, o grupo, que é a atração de quarta-feira do talkshow de David Letterman, confere boas doses de ironia e diversão à seriedade do rock produzido atualmente. Lançando mão de distorções setentistas, sinalizam influências como Thin Lizzy, Fleetwood Mac, Tom Petty & the Heartbreakers e Cheap Trick, em canções como Drak trance e Hope child. No entanto, deixam a agressividade de lado em favor de uma combustão eufórica, desprendida e relaxada, que serve a refrões ganchudos muito mais afeitos ao power pop que ao rock de arena.

– James é um dos maiores responsáveis pelo clima descolado do disco. Ele reduz a estrutura do que tocamos aos movimentos mais básicos. Isso faz com que um movimento qualquer de slide ganhe uma potência enorme. Ele sabe como valorizar cada elemento, é muito meticuloso.

Canções ensolaradas como Dream city avalizam a ideia de uma sonoridade um tanto quanto “libertadora e para cima”, como diz Wells; sob medida para aturar a “rotina entediante dos escritórios, momentos difíceis num relacionamento amoroso ou as horas perdidas em meio ao trânsito caótico” das grandes cidades. Como se vê, Stuck on nothing é mais que um bom título, e, sim, perfeitamente adequado às intenções libertárias de versos como “We are young and still alive / And now the time is on our side”.

– Cantamos sobre o nosso crescimento, descobertas, amores, inspirações e toda a energia e desprendimento necessários para viver as belezas que encontramos por aí – diz. – Mas são as melodias, as linhas de guitarra e as dinâmicas que instruem o que devemos dizer. Os temas nascem do que os sons nos levam a pensar. As letras precisam estar perfeitamente conectadas com os arranjos.

A sintonia fina do Free Energy você ouve aqui:

Dark trance



Bang pop



E mais aqui: http://www.myspace.com/freeenergymusic

terça-feira, 16 de março de 2010

Jimi Hendrix - Valleys of Neptune

Gravada em 1966 e lançada como lado B do clássico Hey Joe, a furiosa Stone free serve como cartão de visitas mais do que adequado para este álbum póstumo, cercado de expectativas e alguns mistérios. Considerada uma das mais pesadas da carreira de Jimi Hendrix, a faixa é um líbelo contra o comodismo e a caretice que tanto incomodavam o músico. Acelerando numa jam session, assim como boa parte do disco, explode num refrão que urge pela psicodélica e entorpecida liberdade ventilada pelo músico.

Mesclando sete faixas inéditas, dois covers e três previamente lançadas, Valleys of Neptune denota o apuro da musicalidade de Hendrix, mesmo em canções consideradas inacabadas, como a faixa-título. Para ela, Hendrix experimentou toda uma diversidade de músicos e arranjos em mais de 15 diferentes sessões; as gravações seguiram até poucos meses antes de sua morte, em 1970. Se esta não é a versão final idealizada pelo gênio, serve como belo retrato final para as suas obcecadas e constantes variações sobre um mesmo tema.

Produzido em sua maior parte por Hendrix, que é acompanhado quase todo o tempo pela formação básica do The Jimi Hendrix Experience (o baixista Noel Redding e o baterista Mitch Mitchell) o disco é um precioso registro do processo criativo do ícone. Em Hear my train a-coming, ele envereda num blues carregado, em que vocifera as dores de um homem solitário que aguarda a chegada do trem na plataforma da estação. Nela, improvisos vocais e solos atiram notas livremente até o fecho dos extensos 7m29s que a conduzem. Já na curta Mr. Bad Luck Hendrix ataca num rock direto, um pouco menos arraigado à verve bluesy que molda suas outras criações. Em seguida, emenda com a versão em estúdio de Lover man, conhecida dos fãs em sua versão ao vivo, executada em performances lendárias (Woodstock, Berkeley, Isle of Wight).

Quanto mais o ouvinte se aproxima do meio de Valleys of Neptune fica claro o caráter laboratorial dos registros, não apenas pela imprecisão dos versos como também pela estrutura ainda pouco coesa dos arranjos, nos quais os solos de Hendrix prevalecem por longos minutos antes ou após versos esparsos de pouco significado. Entre as mais conhecidas pérolas ocultas, destaca-se Fire. A incendiária canção, frequentemente associada à abertura dos shows de Hendrix, recebeu inúmeras releituras até hoje, de Alice Cooper ao Red Hot Chili Peppers, que arremessou a sua versão no caótico Woodstock de 1999, quando um incêndio de grandes proporções se alastrou justamente quando o grupo embalava o cover. Também lançada como bônus, em Are you experienced? (1967), Red house é um blues dramático, arrastado e melodioso; um dos pontos de carga emotiva mais intensa da coletânea. Contando ainda com as instrumentais Lullaby for the summer e Sunshine of your love, do Cream, Valleys of Neptune é uma produção valiosa, mas sem o poder de impacto das jóias raras produzidas pelo músico em sua meteórica carreira.

Assista Bleeding heart:


domingo, 14 de março de 2010

Delphic - O futuro é agora

A cada ano torna-se mais desafiadora – quando não frustrante – a tarefa de acompanhar de perto a enxurrada de canções produzidas e veiculadas por novos artistas todos os dias. Em meio a um cenário pop multifacetado, do indie ao mainstream, cujas barreiras perdem definição gradativamente, se espraiam uma infinidade de nomes que, em questão de dias, horas, minutos e segundos são catapultados ao centro de um furacão midiático. Num tour de force para sacar o que anda rolando, preguei os ouvidos em mais de 50 nomes nas últimas semanas com a missão de separar o que realmente importa. A partir deste domingo, uma série de entrevistas exclusivas se empenha em apresentar e destacar as mais relevantes promessas do ano. Entre elas o trio britânico Delphic, assim como os nove nomes listados abaixo, entre outros que aparecerão por aqui mais tarde.

De volta a Manchester

Enfim uma banda inglesa ultrapassa a velocidade do hype; e sem dar tempo para os semanários musicais deixarem escorrer um novo gênero da ponta da língua. Dando adeus às sirenes ravers, às guitarras angulares, entre outros modismos, o Delphic mescla a house music dos clubes noturnos com a grandiosidade do rock de arena. Enquadram-se num cenário atual de bandas que aposentam a formação instrumental clássica. James Cook (vocal), Matt Cocksedge (guitarra) e Richard Boardman (multiinstrumentista) definem o trabalho como “música eletrônica executada por uma banda de rock”, e dão um tapa na cara do som eufórico e bem-comportado de alguns de seus contemporâneos. Primando pela originalidade, arremessam a sonoridade e a forma convencional de tocar guitarra na lata de lixo e apontam para um revival da Manchester oitentista – época em que os álbuns futuristas do New Order ditavam as ondas de rádio. No fim das contas, não revolucionam a máquina, mas garantem inventividade o bastante para emprestar novo fôlego à saturada cena inglesa.

– O que nos interessa é fazer com que as pessoas se emocionem e, é claro, fiquem estimuladas a dançar. Acho que Manchester precisa aprender a se mexer novamente. Queremos ser os maiores responsáveis por trazer o dance de volta ao mapa – afirma Cook,enquanto descansa após um set de DJ realizado em Newcastle.

A bordo de Acolyte, aclamado álbum de estreia, o grupo desponta como um dos mais energéticos da atualidade. Navegam por referências como Björk, Radiohead, Kraftwerk, Aphex Twin, Sigur Ros e Chemical Brothers para construir uma atmosfera singular, num arco de gêneros que embala o techno minimalista e o pop mais radiofônico.

– Todas as sonoridades que absorvemos estão gravadas no nosso subconsciente, então é difícil entender de onde vêm as conexões. Quando começamos a escrever juntos percebemos o cruzamento de influências comuns – conta o vocalista. – O que faz a nossa cabeça é um tipo de música que leva em conta a noção de pioneirismo. Mas é claro que admiramos e sabemos o quanto é difícil fazer canções que atinjam as massas. É algo tão valioso quanto criar a sonoridade mais original.

A mescla de sonoridades distintas, a quebra de barreiras entre gêneros musicais e o desprendimento quanto à formação sobre o palco não são as únicas facetas que denotam a contemporaneidade do grupo. Dono do próprio selo, Chimeric, o trio elaborou todo o material gráfico do álbum de estreia, assim como os vídeos promocionais. Perfeccionistas, escolheram a dedo o produtor Ewan Pearson, depois que ele fez da faixa Counterpoint o reflexo exato do que os três idealizavam.

– Somos extremamente detalhistas, então gravar e compor se torna um trabalho muito penoso e estressante. Ewan impediu que nos matássemos – brinca. – Ele transformou em realidade tudo o que estava dentro da nossa cabeça. Ele mora em Berlim, que é casa do techno. Foi tudo muito inspirador já que estamos imersos nessa cultura há muitos anos.

Jovem, ambicioso e inventivo, o guitarrista Matt Cocksedge diz estar cansado do rock calcado em riffs de guitarra.

– Passamos muito tempo ouvindo bandas que ditavam “A guitarra está morta, vida longa à guitarra”. Esse tipo de música se tornou cansativa e entediante. Sentimos que deveríamos usar a nossa criatividade para inovar e capturar uma sonoridade única.

Conceitual, a abordagem de Acolyte tem na faixa-título a matriz dos arranjos que moldam as outras nove canções.

– Acho que construímos um álbum fluido e consistente, áspero e bonito – diz Cook. – Acolyte é a peça-chave. Tudo gira em torno e deve caber dentro dessa atmosfera.

A cada uma das questões respondidas, o trio deixa escorrer certezas e um otimismo que vez por outra se confunde com prepotência. Celebrados por resenhas favoráveis e pela instantânea glorificação do jornalismo musical britânico, eles sabem, porém, que ainda lhes resta um longo e instável caminho à frente.

– Fico eletrificado, mas sei que é só o começo. Acabamos de lançar o primeiro disco, mas já estamos profundamente envolvidos com os conceitos do segundo. É claro que é incrível poder rodar o mundo tocando, mas fazer novas músicas é o que nos move. É como uma obsessão. Estamos sempre de olho no futuro.

Veja essa: Halcyon



E mais aqui: http://www.myspace.com/delphic

Chew Lips - Em busca do pop perfeito

Escoltada pelos multiinstrumentistas Will Sanderson e James Watkins, a lourinha Tigs tem a fórmula do pop gravada na boca. Envolta em bases eletrônicas e sintetizadores pulsantes, constrói refrões grudentos com a mesma facilidade que desenha linhas melódicas sinuosas de forte apelo sensual. Fã do rock alternativo cravado por ícones como Pavement, Dinosaur Jr. e Yo La Tengo, enfileira hits certeiros como a hipnótica Play together. Produzido por David Kosten (Bat For Lashes), Unicorn é um apanhado de chicletes que fixam à primeira orelhada e versam sobre a passagem para a vida adulta. “Não sabíamos muito bem onde chegar, mas era claro que não deveríamos soar como algo pós-Strokes, Bloc Party e Foals. É um disco de transição”, revela Tigs.

Veja essa: Salt air




Veja essa: Play together



E mais aqui: http://www.myspace.com/chewlips

The Drums - Nas ondas do surf pop

Enquanto a eletrônica continua a mexer com o som e a cabeça de roqueiros – seja pela sobreposição de sintetizadores ou pela imersão em beats programados – Jonathan Pierce (voz) e Jacob Graham (guitarra) trilham o caminho inverso. Cansados das eletronices produzidas na Flórida, juntaram uma grana, arrumaram as malas e partiram para Nova York, onde se juntaram a Adam Kessler (guitarra) e Connor Hanwick (bateria). De guitarras em punho, mergulham na década de 50 e no surf pop dos 60, pegando carona na sonoridade oitentista de Orange Juice e The Smiths. Relegados a moquifos de segunda categoria nos EUA, ganham fama sob a grita da atenta mídia britânica, que os tem como “a banda mais cool de Nova York”. Ecoando Factory e Beach Boys, assinam hits pegajosos, dançantes e ensolarados como Let's go surfing e Saddest summer, assim como melancólicas e nostálgicas baladas. Down by the water é um caldo de tirar o fôlego.

Escuta essa: Down by the water



Veja essa: Best friend


E mais aqui: http://www.myspace.com/thedrumsforever

Rox - Do reggae ao soul com personalidade

Desde que Amy Winehouse e Mark Ronson pintaram seu set de tintas sessentistas, uma profusão de jovens cantoras se lançaram à sonoridade Motown. Se em 2009, Adele, Duffy e VV Brown fizeram suas releituras, em 2010 a jovem Rox... já não tem mais nada a ver com isso. Entre Sade e Lauryn Hill, cita de Portishead a Elton John como influências. Cruzada por referências aparentemente desconexas, essa inglesa de 21 anos, metade jamaicana, metade iraniana, assina em Memoirs uma odisseia amorosa. “Começo o disco falando sobre uma relação estável, depois falo sobre perder alguém que não lhe faz bem e, finalmente, o caminho até encontrar um novo amor”, diz Rox. Dona de um timbre cristalino e de uma extensão invejável, aposta na diversidade. Hits instantâneos como No going back cruzam o terreno do soul, reggae e o mais puro pop.

Veja essa: My baby left



E mais aqui: http://www.myspace.com/roxmusik

Phantogram - Eletro pop hipnótico

Procedente da remota Saratoga Springs, a poucos quilômetros de Nova York, não demorou para o duo formado por Sarah D. Barthel (voz e piano) e Joshua M. Carter (guitarra) aterrissar na metrópole. Avançam sobre a música neoclássica, krautrock, shoegaze e o afrobeat para embalar melodias soturnas e as letras sobre amor e morte que recheiam o début, Eyelid movies. “Tentamos fazer a música que gostaríamos de ouvir... Algo fresco e novo, mas que seja familiar e estimule a nossa criatividade, como os Beastie Boys, Flying Lotus, Pavement, Bowie, Sparklehorse...”, enumera Josh, que anda escutando Beach House e excursionando com bandas como XX e Yeasayer.

Escuta essa: Mouthful of diamonds


Veja essa: Running from the cops



E mais aqui: http://www.myspace.com/phantogram

Two Door Cinema Club - Indie rock pra dançar

Amigos desde os tempos de colégio, Alex Trimble, Kev Baird e Sam Halliday são apontados como a grande revelação irlandesa dos últimos anos. Usam a formação de power trio para passar bem longe do punk e se filiar à sonoridade eletrônica. Expoentes do indie rock sob medida para as pistas de dança, desenham refrões melodiosos à Death Cab For Cutie e “levadas rítmicas chupadas de Daft Punk e outros combos eletro, como Digitalism”, diz Kev. Produzido por Eliot James (Kaiser Chiefs, Bloc Party), Tourist history já embarca os irlandeses numa turnê ao lado do Phoenix e confirma o nome da banda no line-up dos maiores festivais de verão da Europa em 2010.

Veja essa: Undercover Martyn

Chapel Club - Infinita herança do pós-punk

Entra ano e sai ano, o cenário britânico catapulta uma releitura do pós-punk cunhado por Ian Curtis e seu Joy Division. Com a mesma verve carregada de bandas como The Editors e White Lies, o vocalista Lewis Bowman desenlaça melodias soturnas mas de irrefutável apelo pop. Barítono, empresta vocal encorpado para preencher arranjos que valorizam linhas de guitarras pontuais e estridentes. Citando Sonic Youth, New Order, Yeah Yeah Yeahs, Atlas Sound e Liars, Bowman ainda revela desconforto à frente do microfone. “É a minha primeira banda. Tive que aprender a cantar, escrever canções e me apresentar ao vivo. Fico surpreso que os nossos shows estejam chamando atenção. Ainda me parece um pouco ridículo”, confessa.

Veja essa: O maybe I


Theophilus London - A nova cara do rap

Fugindo à tradição gangsta arraigada aos guetos mais populosos e pobres de Nova York e dos EUA, London passa longe da persona machista que corrompe e empobrece o rap americano. Incensado pelo universo da moda, por trás de seus óculos de grau, jaqueta de couro e influências pinçadas do rock britânico metralha versos inteligentes e – mais um diferencial – entoa alguns de seus refrões. Guiado por dançantes linhas de baixo, destila poesia urbana e contemporânea por entre batidas cruas e camadas de sintetizadores. Conhecido por mixtapes em que sampleia ícones do soul, R&B, jazz e até do pós-punk, conta com colaboradores de peso, como o produtor Mark Ronson e o cantor Sam Sparro. Se não deixa o materialismo excessivo de lado, ao menos redimensiona a estética e a sonoridade das ruas.

Veja essa: Humdrum town

Baixe de graça The charming mixtape aqui.

E mais aqui: http://www.myspace.com/theophiluslondon

Holly Miranda - Folk com tinta eletrônica

Dona de uma voz suave e de canções de tinta folk, Holly Miranda caiu nas graças de um dos mais celebrados produtores da atualidade, o guitarrista do TV On The Radio, David Sitek. Sob o estofo de uma cuidadosa produção, seu disco de estreia, The magician's private library, chancelado pela XL Recordings, ganha a companhia das originalíssimas vozes de Tunde Adepimbe e Kyp Malone, ambos do TVOTR. Sob uma torrente de metais, teclados e guitarras, a moça desfila um repertório comovente em meio a paisagens sonoras acinzentadas, desoladas e, por vezes, fantasmagóricas.

Holly Miranda canta, toca violão e é acompanhada por um violinista enquanto passeia por Williamsburgh, num giro de mais de 17 minutos:


Veja essa: Waves:


E mais aqui: http://www.myspace.com/hollymiranda

Free Energy - Back to the basics

Eles não reinventam a roda mas emprestam generosas doses de diversão e ironia à seriedade do rock produzido atualmente. Distribuindo riffs clássicos em distorções setentistas, prestam tributo ao hard rock, mas deixam de lado a agressividade para construir uma sonoridade despojada. Refrões ganchudos fizeram a cabeça de James Murphy (LCD Soundsystem), que produziu o álbum de estreia, Stuck on nothing, e agora o distribui pelo seu selo DFA. “James nos encorajava, dizia que deveríamos nos divertir no estúdio. É ele é o responsável pela atmosfera relaxada do disco”, ressalta o guitarrista Scott Wells.

Escuta essa: Dream city



Veja essa: Free energy


quinta-feira, 11 de março de 2010

"Era no tempo do rei" embalado por canções inéditas de Aldir Blanc e Carlos Lyra

A ansiedade é incontida. Assim como irremediável qualquer “Fique tranquilo” amenizado pelo repórter. “O que você vai assistir não é exatamente a peça. O som ainda não está muito bom. Estamos sem o figurino...”, ressalta João Fonseca, segundos antes de simular o terceiro sinal que daria partida ao ensaio corrido do musical Era no tempo do rei, baseado no romance homônimo escrito por Ruy Castro. O relógio anda em contagem regressiva. A menos de uma semana da estreia o diretor dá a impressão de que ainda tem muito com o que se preocupar. Mas, ao que parece, não é bem assim. E, no fundo, ele demonstra saber disso. Aos primeiros minutos, já relaxado na poltrona de uma das primeiras fileiras do teatro João Caetano, ele se refestela em gargalhadas irrefreáveis ante à marcante atuação de Alice Borges, que dá vida à voluptuosa e histérica Dona Maria, a Louca. A matriarca da família real portuguesa serve como narradora onisciente do espetáculo; comenta e interage com os atores e com a plateia em meio a tiradas de lascar. Entre uma pontuação e outra, Fonseca deixa transcorrer sem grandes intervenções as cenas que, mesmo sem figurino, som e seja lá o que for, denotam a excelência da produção que o público carioca está prestes a conferir nesta sexta-feira (12), quando a montagem definitivamente entra em cartaz.

– Fui pego de surpresa. Até agora foi tudo muito corrido. Eu estreei uma peça no comecinho do ano e só pude começar a ensaiar no dia 18 de janeiro. A minha sorte é que eu tenho um elenco de sonho, além da riqueza do texto e das canções lindíssimas – elogia Fonseca, diretor de espetáculos como Gota d'água, assim como o recente e premiado musical Oui oui, a França é aqui.

Quando deixa escapar “canções lindíssimas”, ele se refere às 19 músicas inéditas criadas por uma igualmente debutante parceria entre Carlos Lyra e Aldir Blanc. Não é todo o dia que uma dupla de craques da MPB empresta talento melódico e lírico ao teatro. Exemplos marcantes, como o lendário encontro entre Tom Jobim e Vinicius de Moraes, para Orfeu da Conceição, ou as contribuições de Chico Buarque e Paulo César Pinheiro, entre outras emblemáticas, atiçam a memória e instigam a expectativa. Passeando por lundus, maxixes, modinhas, marchas-rancho, choros, valsas, fados, viras, entre outra infinidade de ritmos, o espetáculo ganha vigor com a execução de uma banda ao vivo, adornada por cordas e sopros, além de bandolim e cavaquinho.

– Compositores como esses criando canções exclusivas faz toda a diferença do mundo – derrama-se Heloisa Seixas, mulher de Ruy Castro e corroteirista da peça ao lado da filha, Julia Romeu. – Não chegam a ser 19 ritmos diferentes, mas Carlinhos é de uma inventividade... Só não temos samba porque o texto do Ruy se passa em 1810, dois anos após a chegada da corte ao Brasil. O samba não havia sido criado e o carnaval tinha outro nome.

Apaixonado pelas palavras pesquisadas e cravejadas no romance, Aldir Blanc encarou o desafio de criar faixas que respeitassem a linguagem da época, mas que, ao mesmo, tempo sugerissem uma entonação confortável. Em uma das passagens, Solilóquio para Vidigal, o letrista lançou mão de seu malabarismo poético para emprestar 15 sinônimos à palavra canalha.

– No livro, Ruy já havia pesquisado 10, mas Aldir não repetiu nenhum. Ele é de uma riqueza vocabular impressionante. Consegue ser culto, coloquial e escatológico ao mesmo tempo – destaca Heloisa. – Ele é louco pelo Memórias de um sargento de milícias, que dá certa base ao trabalho do Ruy. O Carlinhos sabia disso e o convidou logo no início do trabalho. Ele se apaixonou pela ideia.

Autor de canções para musicais como Pobre menina rica, ao lado de Vinicius de Moraes;Gata borralheira, com Maria Clara Machado; Vidigal, com Millôr Fernandes e Cangaceiro, com Zé Celso Martinez, Lyra não teve dúvidas, ao imaginar a trama cantada sobre o palco, em ligar imediatamente para Ruy Castro: “É a história do príncipe e de um menino. Isso dá um musical!”, disse.

– Senti todo o clima do Brasil império e a vivência desses garotos. Ele se empolgou e me perguntou se eu gostaria de criar com o Aldir, pensando que eu não fosse concordar... Aldir nunca foi meu parceiro, mas o nosso encontro foi magnífico. Queremos gravar a peça para lançá-la em DVD e as músicas em CD.

Enquanto afinavam as notas para a empreitada, Lyra sugeriu que Blanc lhe enviasse alguns escritos.

“Você vai colocar música nas letras?”, perguntou Blanc, ainda desconfiado.

Ante à afirmativa do compositor, o escritor retrucou desconfiado: “É porque nunca funciona assim com outros parceiros”.

– Ele ficou surpreso, e aí começou a escrever aquelas letras incríveis, verdadeiras obras-primas. Comecei a imaginar um ritmo para cada uma delas. Só não compus sambas, porque iríamos pecar pelo anacronismo. Foi muito gratificante, porque é o inverso do que faço no samba ou bossa nova. É um compromisso com a letra e a situação dramática. Não é qualquer um que quer ou sabe fazer.

Escrito em 2007, Era no tempo do rei recria de forma bem-humorada a chegada da corte portuguesa ao Brasil. Exatos 200 anos atrás, o ainda menino D. Pedro foge do palácio para curtir “as músicas melodiosas, as mulheres deliciosas e as paisagens lindíssimas”, como assinala o texto, em pleno Carnaval de 1810. Assim como o autor do livro, Heloisa Seixas e Julia Romeu sentiram-se desobrigadas a reproduzir fielmente a trama e as intrigas palacianas desenvolvida por Castro. Em pleno Centro da cidade, o cenário faz referência ao Rio antigo. Em meio a nove painéis, Pedro (Christian Coelho) e seu fiel assecla, Leonardo (Renan Ribeiro) – personagem emprestado do clássico Memórias de um sargento de milícias, de Manuel Antonio de Almeida – aprontam de tudo enquanto passeiam pelos Arcos da Lapa e do Telles, assim como pela Praça 15 e o Paço Imperial.

– Tomamos muitas liberdades. Fundimos personagens e transformamos alguns vilões em heróis – conta Heloisa. – Quando você transpõe uma obra literária para o teatro é natural a recriação e, com ela, a criação propriamente dita. É aí que surgem as alterações.

Mudanças que servem ao tom farsesco de uma comédia musical fiel ao pano de fundo cultural e histórico detalhado no texto original.

– Ruy foi muito generoso, e se manteve totalmente afastado até que concluíssemos o trabalho – revela Julia. – Deve ser difícil para ele perceber que muitos de seus personagens não estão na peça. Ele só assistiu quando estava pronto.

Apesar dos cortes, o que se vê é o mesmo frescor e safadeza contidos no livro.

– Evitei participar da adaptação porque acho que o autor não deve se meter. São linguagens diferentes – analisa Ruy Castro. – O mais importante é que se preserva o espírito, a densidade verbal e a ação. É a história de Portugal se defrontando com o Brasil. O jovem príncipe sendo recebido por um brasileiro que lhe ensina a arte das ruas.

No palco, em meio às peripécias dos adolescentes, se desenrola um golpe armado por Carlota Joaquina (Izabella Bicalho) para destituir D. João (Léo Jaime) do trono. Contando com o auxílio do diplomata inglês Jeremy Blood (Tadeu Aguiar), seu amante, ela se embrenha num Rio mezzo fictício mezzo real, onde passeiam figuras exóticas como o Major Vidigal (Luis Nicolau), o pilantra Calvoso (André Dias) e a prostituta Bárbara dos Prazeres (Soraya Ravenle), personagem real que, na trama, é mostrada como ex-amante do príncipe D. João. Leo Jaime ressalta uma necessária revisão da importância do governante português e ressalta alguns de seus feitos, como a criação do Banco do Brasil.

– Ele foi um grande estadista, que teve um trabalho gigantesco para trazer toda a biblioteca de Portugal para o Brasil de navio. Todo o planejamento urbano, paisagístico e estético que faz do Rio uma cidade maravilhosa também começou com ele – destaca o ator e cantor.

Preocupado em emprestar a D. João uma série de matizes, Léo Jaime canta, dança e rodopia em saltos no ar, sempre com sotaque azeitado e humor em boa medida.

– Não posso deixar o meu personagem cair num tom monocromático, simples e bobo. Depois do centenário começamos a entender que o brasileiro não tinha a concepção exata do que representou a família real portuguesa ao Brasil.

Parece que a gente nunca se redime da nossa alma de cachorro vira-lata, como dizia Nelson Rodrigues, sempre como se não fôssemos donos da nossa própria história.

Com um extenso currículo em musicais – Os cafajestes, Viva Elvis, Rock horror show, entre outros – o cantor ressalta o sinuoso repertório cunhado por Blanc e Lyra.

– As canções dão um toque de brilhantismo. É um apanhado de valor inestimável para o teatro musical brasileiro. Nós, que somos tão musicais, merecemos um repertório mais extenso, original, e que represente com beleza a nossa história.

Ruy Castro concorda:

– Não quero me antecipar, mas tem cheiro de clássico.

domingo, 7 de março de 2010

Karina Buhr – Mentiras sinceras lhe interessam

Ela ajusta os cabelos ondulados com presilhas coloridas, enfeita as mãos com anéis de acrílico, veste sapatos de boneca e meia arrastão 7/8. Dona de um olhar esverdeado, Karina Buhr trasmite imprecisão. Nem doce, nem amarga. Às vezes fofa, outrora mulher perigosa, esta baiana radicada em São Paulo é um complexo mosaico de estímulos. Se a persona descrita na primeira linha se adequa a versos como “Eu quero passar a tarde estourando plástico bolha”, outros como “Eu sou uma pessoa má. Eu menti pra você” insinuam um avatar misterioso. Mas ela não esconde o jogo. Eu menti pra você não serve apenas ao rótulo deste primeiro trabalho solo. É a faixa-título e carro-chefe de um disco intimista, confessional e personalíssimo. Com pose de menina e sensibilidade de mulher madura, aos 35 anos se revela como artista de melodias originais e letras afiadas.

– Não tenho a menor intenção de definir alguma coisa, ou de passar alguma coerência – alerta Karina. – Escrevi letras e canções de estilos muito diferentes umas das outras. O meu campo está aberto e eu posso ir para onde eu quiser justamente por causa da primeira canção. Ela não está aí à toa. E é por isso que o disco tem esse título. Ele sintetiza o que acontece daí em diante.

Se o disco abre com a despudorada Eu menti pra você, cabe à inocente Plástico bolha fechar o arco de temas e sonoridades multicoloridas pintadas por Karina e pelas guitarras de Edgard Scandurra e Fernando Catatau.

Vocalista da banda Comadre Fulozinha desde 1997, ela assina um disco onde a dualidade, a contradição, a incoerência, a confusão e imprecisão de seus escritos ganham forma e síntese semelhante à explorada por tom Zé em versos como “Tô te explicando pra te confundir. Tô te confundindo pra te esclarecer. Tô iluminando pra poder cegar. Tô ficando cego pra poder guiar”. Ao fim de suas 13 canções, o que se desenha é um álbum coeso, por incrível que pareça. Realizado por uma artista em constante reavaliação, perdida entre o acaso e as incertezas do cotidiano, Eu menti pra você não é um emaranhado de referências cruzadas aleatoriamente. Fala com propriedade sobre desilusões amorosas (Eu menti pra você e Mira ira), as guerras no Oriente Médio (Nassíria e Najaf), odes existencialistas (Vira pó) e até as penúrias de uma artista independente para conseguir financiamento para a produção de um disco (Ciranda do incentivo).

Inspiração no cotidiano

– Gosto muito de escrever, não necessariamente para compor. Escrevo sobre o dia a dia, as coisas que acontecem na minha vida, na cidade ou no mundo – explica a cantora. – Minha inspiração vem do cotidiano. Não toco nenhum instrumento harmônico, apenas arranho uma rabeca. As melodias nascem por intuição. Começo a cantar e aí gravo em casa com um tambor e mostro aos músicos.

Nascida na Bahia, mas criada em Pernambuco, Karina absorveu as tradições da música regional, entre elas o ritual das pastoras, o cavalo marinho e o maracatu. Mais tarde, ao entrar na vida adulta, se debruçava à beira do palco em meio à borbulhante cena independente local. Bandas como Eddie, Mundo Livre S/A, Chico Science e Nação Zumbi efervesciam o cosmopolita cenário de Recife, que absorvia influências contemporâneas e as fundia com tempero local. E é justo pelo acúmulo de tal vivência que a cantora refuta a tese de que a faceta multidisciplinar, contemporânea e urbana de seu novo trabalho reverbere o sentido que sua vida ganhou ao se mudar para a capital paulista.

– Sempre estive perto de um som urbano. Não é porque estou em São Paulo que o meu disco reflete apenas essa vivência – garante. – Experimentei uma movimentação intensa na época do mangue. Eram muitas influências convergindo e isso veio comigo desde lá.

E foi por conta daquele “rebuliço” que Karina não topou um inusitado convite do diretor teatral Zé Celso Martinez Corrêa, que, ao assistir a uma performance de Karina à frente do Comadre Fulozinha, decidiu convidá-la para integrar o Oficina.

– Estava muito envolvida com a música, com o início da banda... E queria mostrar coisas novas – recorda.

Anos mais tarde ela não escapou à segunda investida de Zé Celso. Integrada ao Oficina, encenou Bacantes e, logo depois, encarou Os sertões. Radicada em São Paulo, os compromissos com a banda escassearam, mas a continuidade de sua produção musical não foi abalada.

– Confesso que não tinha muita consciência da importância do Zé Celso quando ele me convidou pela primeira vez. Me interessava a figura dele – lembra. – Quando fui a São Paulo entendi como funcionava o Oficina. Como atriz, cantava e compunha músicas para as peças. Não era apenas de teatro. Foi uma experiência muito intensa.

Aos poucos Karina entendeu que era chegada a hora de formatar as canções que burilava entre ensaios e coxias. Com a liberdade experimentada no Oficina, segue agora um fluxo próprio, sem barreira de gêneros ou impasse com os colegas de banda.

– Temos uma relação legal, mas estava me achando invisível... Não era uma necessidade de aparecer, mas de botar a cara a tapa. Não queria misturar as estações. E, sim, ter mais independência e liberdade.

Ouça Eu menti pra você aqui:
http://www.myspace.com/karinabuhr

*Publicada no Caderno B, do Jornal do Brasil.