NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

quarta-feira, 4 de março de 2009

Yeah Yeah Yeahs - It's Blitz


















É como a linda e "apetitosa" capa do álbum "It's Blitz!" indica: a gema sonora estourada em 2003 com o début "Fever to tell" e amadurecida com "Show your bones" (2006) estoura, sai da casca e remodela o arsenal sônico do trio Yeah Yeah Yeahs, que de três em três anos acostumou-se a estalar uma onda de fumaça, levadas dançantes, gritos lascivos e sensuais nas pistas de dança e nas prateleiras físicas e virtuais web afora. O som de inferninho noturno produzido pelo grupo, que sempre soou e funcionou muito bem como trilha sonora para noites de êxtase e entorpecimento, volta à ativa com atmosfera renovada, mas sem deixar completamente de lado o esqueleto musical de garagem que o catapultou na borbulhante Nova York do início dos anos 2000. 
 
Neste terceiro disco de carreira – com lançamento previsto para o dia 13 de abril, mas já disponível na internet – as melodias sensuais proferidas pela boca carnuda, avermelhada e provocativa de Karen O. e as sinuosas linhas de guitarra e baixo arremessadas pelos pedais e amplificadores do guitarrista Nick Zinner continuam intactas. No entanto, uma pulsante e distorcida levada de sintetizador serve para anunciar o novo single, "Zero", assim como para colorir o agora sofisticado e moderno universo pilotado pelo grupo, que conta ainda com o batera Brian Chase. 

A faixa é um amálgama das multifacetadas correntes musicais que atravessaram os dedos de Zinner durante os últimos três anos – ou desde que a banda se apresentou no TIM Festival, em 2006. O multi-instrumentista, assim como em muitas bandas do momento, adiciona sintetizadores para todo o lado, mas dá seu toque ao unir às novas eletronices do grupo distorções potentes, que remetem ao rock industrial de Trent Reznor e seu Nine Inch Nails. E também ao apostar num espectro mais amplo e espacial para os arranjos, que recebem camadas de notas lineares de guitarra buriladas pelas mãos de David Sitek (TV on the Radio). O músico assina a produção do álbum junto com Nick Launey (Arcade Fire, Silverchair e Lou Reed), responsável pelo aclamado EP Is is, lançado em 2007.
 
"Heads will roll" e "Soft shock" seguem a mesma linha de "Zero": combinam introduções lentas, com vocais mastigados sílaba a sílaba, até atingirem o clímax em levadas rítmicas que as aproximam da disco music e da vertente eletro. A aventurosa guinada do grupo, porém, se revela ao mesclar minimalismo e grandiloquência em canções como "Skeletons" e "Runaway". Com arranjos orquestrais, ambas seriam inimagináveis para a banda que em 2003 arrancou os cabelos dos fãs e se tornou febre com os incendiários singles "Maps", "Y control" e "Date with the night". Já "Dull life" faz o trajeto de retorno da viagem sinfônica e atira a banda novamente em seu redemoinho de urgência apocalíptica e agressividade – elementos que impulsionaram a então iniciante banda nova-iorquina, liderada por uma garota, a ser considerada muito mais do que um mero e repaginado estereótipo riot grrrl.

Ao fim de suas 10 faixas, It's Blitz! desvela um curioso painel de contradições: o grupo soa mais ousado e inventivo, porém menos perigoso e direto. É a partir de melodias mais fluidas e ritmos menos angulosos que o YYYs emoldura seu trabalho mais consistente, mesmo que, às vezes, o álbum necessite de uma verdadeira blitz para que suas delicadas nuances não se percam em um emaranhado sonoro dispersivo.

2 comentários:

Marcelo Alves disse...

Não ouvi o disco ainda. Ele pode até ser bom, mas o show do Tim Festival é para ser esquecido. Poucas vezes vi coisa tão ruim quanto aquilo. Meu Deus. Mas talvez seja como você falou. O som deles talvez funcione melhor como trilha sonora para noites de êxtase e entorpecimento, mas, acrescento, num ambiente diferente ao de um show de rock. Queria dizer boate, mas não quero parecer preconceituoso. Mas sem pré-conceitos, vou dar uma escutada no que Karen O tem a dizer.

Luiz Felipe Reis disse...

Eu perdi esse show, no TIM. Ou, como diz, não perdi nada. Os vídeos ao vivo que rolam no Youtube também me decepcionam. Acho que eles viram melhor em estúdio realmente. Vamos ver se com o seu nobre apoio nos comentários eu volto a aparecer nesse espaço.

Abraços!