NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Os melhores do ano

Clique no link para ouvir.

Álbum internacional:

1 -
Wild Beasts - Two dancers

2 -
Jamie Cullum - The pursuit

3 -
Pearl Jam – Backspacer

4 -
Animal Collective - Merryweather post pavilion

5 -
Norah Jones – The fall

6 -
Grizzly bear – Veckatimest

7 -
Iggy Pop - Preliminaires

8 -
Yeah yeah yeahs – It’s blitz

9 -
Phoenix - Wolfgang Amadeus Phoenix

10 -
Antony and the Johnsons - The Crying Light

11 -
Joss Stone - Colour me free

12 -
Dark night of the soul

13 - The Flaming Lips - Embryonic

14 -
Allen Toussaint - The bright Mississippi

15 -
Julian Casablancas – Phrazes for the young

16 -
Nick Cave & Warren Ellis - White lunar

17 -
Girls - Album

18 -
Regina Spektor – Far

19 -
Arctic Monkeys – Humbug

20 -
Muse – The resistance

Hors concours: Nirvana – Live at Reading


Álbum nacional:

1 -
Arnaldo Antunes – Iê, iê, iê

2 -
Caetano Veloso – Zii zie

3 -
João Bosco – Não vou para o céu, mas já não vivo no chão

4 - Letieres Leite e Orkestra Rumpilezz


5 - Pedro Miranda – Pimenteira

6 -
Maria Bethânia – Encanteria e Tua

7 - Céu – Vagarosa

8 -
Ney Matogrosso – Beijo bandido

9 -
Ronei Jorge & Os Ladrões de Bicicleta – Frascos comprimidos compressas

10 -
Moacyr Luz – Batucando

11 -
Ed Motta - Piquenique

12 -
Tiê - Sweet Jardim

13 -
Cidadão Instigado - Uhuuu!

14 -
Mariana Aydar - Peixes, pássaros, pessoas

15 -
Otto - Certa manhã acordei de sonhos intranquilos

*Ep:
Filipe Catto - Saga


Shows:

1 - Radiohead

2 - Friendly Fires

3 - Joss Stone

4 - Arnaldo Antunes

5 - Caetano Veloso

6- Nação Zumbi

7 - Keane

8 - Terence Blanchard

9 - Little Joy

10 - Ney Matogrosso


Filme internacional:

1 - Foi apenas um sonho

2 - Entre os muros da escola

3 - O equilibrista

4 - A partida

5 - Gran Torino

6 - Há tanto tempo que eu te amo

7 - Bastardos inglórios

8 - Milk - a voz da igualdade

9 - 500 dias com ela

10 - Aconteceu em Woodstock


Girls - Lust for life

Continuando com as garotas. Lust for life em versão explícita:

Wild Beasts - Juan's Basement - Pitchfork TV

À época em que os entrevistei, eles estavam no meio de uma primeira e curta turnê pelos EUA. Na verdade, fizeram três noites em Nova York e mais alguns outros lugares. E gravaram o Juan's Basement, da Pitchfork TV. Aqui embaixo, Wild Beasts ao vivo com toda a sua estranheza:

domingo, 27 de dezembro de 2009

Girls, uma banda de outros tempos

Christopher Owens é o retrato de um cruzamento de gerações. Líder de uma das bandas mais cultuadas da atual cena indie, Girls, ostenta longos e desgrenhados cabelos loiros como os hippies dos 60 e os alternativos-grunges dos 90. E é exatamente como soa o disco de estreia da sua banda, Album, um mix de tudo o que se passou entre estes dois tempos. Deslizando pelo surf pop dos 50, a psicodelia dos 60, o shoegaze dos 80, o indie dos 90, Owens esquece os anos 00 para escrever sobre amores perdidos, inseguranças e incertezas que embaralham a cabeça de um adolescente mergulhado em bebedeiras e pirado em viagens narcóticas. Com melodias tão ensolaradas quanto melancólicas, desenrola canções confessionais e românticas como há muito não se vê. Fã de Beach Boys e Nirvana, Owens tem o colorido surfer de um como a angústica obscura e desesperada do outro. E assina refrãos ganchudos e melodias assobiáveis na linha de ambos. Seu estilo chapado-emaconhado faz lembrar o espírito livre de roqueiros de outro tempo, e navega longe do comportamento megalomaníaco e engomado de uma era irônica que lança aos montes ídolos vazios apertados em trajes bem cortados. Owens faz um tipão largado, mas repleto de charme. Fruto da aura desprendida de São Francisco, de quem leva a vida com o violão debaixo do braço. Seu encanto está na crueza, que o torna mais próximo, visceral e, talvez por isso, aparentemente mais real que os outros.

Hellhole ratrace:


Lust for life:


Laura:

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Yeasayer é a banda de 2010

O quarteto nova-iorquino Yeasayer é a banda a ser observada em 2010. Depois de um álbum de estreia acachapante, All Hour Cymbals, o quarteto soltou o single Ambling alp para chamar a atenção enquanto o segundo disco não chega. A ser lançado no primeiro trimestre de 2010, Odd blood apresenta a mesma pegada experimental – na sonoridade – e pop – em linhas melódicas e refrãos. O flerte com a eletrônica e as dinâmicas rítmicas e harmônicas da música indiana e do leste europeu continuam presentes. Assim como o mix de euforia psicodélica e surrealismo apocalíptico contido nas letras. Em Odd blood, a banda acena com uma produção mais polida, bem menos enfumaçada do que o clima que envolvia os maiores hits do début, como 2080, Sunrise e Wait for the summer.

O Yeasayer iniciou a carreira na mesma leva que o duo MGMT. Aliás, a primeira turnê nacional das duas bandas, em 2007/2008, foi realizada em conjunto, com as bandas revezando a abertura e o encerramento das apresentações. A bordo de singles mais pungentes, como Kids, o MGMT disparou em projeção no cenário, enquanto o Yeasayer permaneceu como um tesouro indie a ser revelado. O que, principalmente, diferencia as duas bandas é a capacidade de performance no palco. Enquanto o MGMT sofre para reproduzir as sonoridades e vocais criados em estúdio, o Yeasayer é um quarteto de músicos tarimbados e cantores de afinação precisa e potência vocal. Ao vivo, como evidenciam os vídeos abaixo, retratam uma banda ensaiadíssima e criativa, que solta os bichos sem nada a dever ao material coletado em estúdio. Se há algum show a ser visto por aqui nos próximos meses é o do Yeasayer.

Ambling alp:




Tightrope:




Wait for the summer:




2080, Jools Holland:


terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Norah Jones, Jamie Cullum, Cat Power e Lemonheads

Ao bater à casa dos 30, Norah Jones parece ter se deixado levar por uma torrente de avaliação artística. Uma análise que remonta todo o trajeto percorrido desde o seu lançamento como fenômeno da indústria fonográfica - a bordo do multiplatinado Come away with me e suas mais de 20 milhões de cópias vendidas. Seu quarto álbum de carreira, The fall, acena (em primeiro plano) a uma desvinculação com as raízes do country absorvidas em sua adolescência texana. A faceta de talentosa cantora, já revelada e aprofundada nos três discos anteriores, dá vez a uma compositora madura, que navegou fundo em sensações turbulentas e talvez obscuras, como mostrou o anterior Not too late.

Neste, Norah arriscava-se como autora de todas as composições. Percorria sinuosas melodias em busca de uma atmosfera sonora teatral, com elementos percussivos e instrumentos de sopro que, em certas canções, ecoavam e pintavam cenários de fanfarras e cabarés à Tom Waits. Agora, justo citando referências como o álbum Mule variations, do inquieto Waits, ela apresenta um conteúdo aparentemente menos experimental, mas que cruza terrenos inexplorados.

Com significados múltiplos na língua inglesa (entre eles, "queda" e "outono"), o título indica o que o álbum propõe em sonoridade: transição. Jones faz do estúdio de gravação seu isolado confessionário particular; um idílio em meio à paranoia e à fugacidade do correcorre diário da Nova York que a cerca. No entanto, a quietude, a placidez, o intimismo e aconchego sonoro estampados por órgãos, pianos e fluidas linhas de guitarras, que preenchem as novas composições, em nada têm a ver com a palavra comodismo. Jones explora ritmos, grooves, harmonias não apenas próximas do rótulo jazzy que a acompanha, mas também do indie rock ou pop. Ladeada por uma banda completamente reformulada, deixa de lado o piano como instrumento em que burila suas composições, dedilha sua guitarra elétrica e se une a uma série de novos parceiros para tecer as faixas que enredam The fall.

Produzido por Jacquire King (Kings of Leon, Tom Waits e Modest Mouse), o trabalho abriga assinaturas divididas com Ryan Adams e Will Sheff (Okkervil River), além do frequente Jesse Harris. Apesar das (boas) parcerias é quando Jones põe-se sozinha na labuta de canções, como em Wouldn't need you, Waiting, It's gonna be e You've ruined me, que o álbum ganha conjunto e espinha dorsal. Erigidas por arranjos minimalistas, que valorizam o silêncio como principal adorno à límpida voz da cantora, cada uma das faixas repousa o ouvinte num misto de melancolia e estado lúdico, que reforçam o talento da artista.

Também com 30 anos recémcompletos, Jamie Cullum tenciona uma reinvenção para o punhado de referências que cruzam sua formação musical jazzística e sua inclinação, como ouvinte, para ícones do pop e do rock. Em The pursuit o pianista e compositor empresta novo e inspirado fôlego à já clássica fusão entre os gêneros, que marcara seus três discos precedentes. Apesar da abertura em grande estilo, com direito à big band na versão para Just one of those things, de Cole Porter, o músico deixa claro nas faixas seguintes sua reverência ao formato canção e à linhagem pop. Faz do single I´m all over it a canção mais assobiável e radiofônica do seu repertório próprio - e nem por isso soa superficial.

Pelo contrário, usa um arsenal de ricas influências harmônicas e desemboca num refrão repleto de cores e nuances melódicas, que acobertam versos que dão conta de um caso de amor rompido. A veia aberta para o pop ganha liga com a balada conduzida ao piano Wheels, a versão para If I ruled the world e o cover para Don't stop the music, de Rihanna. Além da "roqueira" Mixtape, da hipnótica Not while i'm around, da grooveada We run things e da batida house dançante para Music is through. Mesclando sonoridades que atravessam o jazz, a música latina e até a eletrônica, Cullum empresta, em apenas um disco, novo sentido ao termo pop e à sua própria carreira, como artista indiscutivelmente popular.







Em seu segundo álbum dedicado a covers, Cat Power transpõe clássicos de universos musicais distintos para sua ambientação sonora calcada no blues e fincada no indie pop. Diga-se: arranjos minimalistas, pontuados por interpretações cool e intimistas. Canções como New York (popularizada por Liza Minnelli e Frank Sinatra como Theme from 'New York, New York') e Ramblin' (wo)man, de Hank Williams, navegam em sintonia moderna, com solos de guitarra e kit de bateria ressoando vivo numa sala repleta de ambiência. É na melancólica e autoral Metal heart, previamente gravada no álbum Moon pix (1998), que a cantora dá seu tiro mais certeiro. Guiada por piano e recortada por solos distorcidos, a balada cresce à medida que a voz cheia de Power ganha intensidade.A veia aberta para o blues expele tristeza e desolação em Silver stallion (Lee Clayton), na bela Aretha, sing one for me (George Jackson), assim como na densidade acústica de Lord, help the poor & needy (Jessie Mae Hemphill), Don't explain (Billie Holiday) e Blue (Jonie Mitchell). Do início ao fim, Power extrai sutileza de pérolas do cancioneiro americano, sempre em tratamento sofisticado, como em I believe in you, içada do álbum Slow Train Coming (1979), clássico de Bob Dylan; e na faixa bônus Angelitos negros.

Depois de lançar um álbum de inéditas, The Lemonheadas (2006), após uma hiato que durou quase 10 anos (1996 a 2005), o grupo liderado por Evan Dando aposta num repertório de covers para esculpir Varshons.Produzido pelo líder do Butthole Surfers, Gibby Haynes, o disco navega entre o rock alternativo, que caracterizou o grupo nos anos 90, e flerta com as tradições do folk, country e do punk rock. Com timbre grave e profundo, Dando empresta desolamento e melancolia para cada uma das canções que compõem esta série, iniciada com I just can't take ir anymore, de Gram Parsons. Como um arqueólogo do underground, resgata pérolas perdidas do repertório de artistas obscuros dos anos 60 e 70, como Green fuz, de Randy Alvey & The Green Fuz; e Yesterlove, da finada banda inglesa Sam Gopal; assim como da atualidade, caso de New Mexico, da desconhecida Der FuckEmos; e Layin' up with Linda, do alucinado GG Allin. O clima intimista e acústico cede espaço para a fusão com a eletrônica na dançante Dirty robot, que conta com os luxuosos vocais da junkie-model Kate Moss. O trabalho chega ao fim com a participação da atriz Liv Tyler na delicada versão para Hey, that's no way to say goodbye, de Leonard Cohen, e com a surpreendente interpretação de Dando para Beautiful, içada a hit pop por Christina Aguilera.

Susan Boyle, Otto e Cauby

Em poucos minutos de audição decifra-se sem esforço, mas com muitos percalços, os erros (em maior número) e acertos (escassos) da cantora Susan Boyle em seu álbum de estreia, I dreamed a dream. Com um timbre pouco elegante, afinação imprecisa e interpretação exagerada, a anti-heroina do programa televisivo Britain’s got talent arrasa uma bela canção como cartão de visitas. Estridente, demole a crueza e a simplicidade da versão assinada por Mick Jagger para o clássico Wild horses, dos Rolling Stones. Na faixa-título, I dreamed a dream, a interpretação megalômana e os arranjos orquestrais seguem impulsos desmesurados, guiados pelo descontrole de Boyle – condutora de uma carruagem que acelera desenfreada pelo galgar de seus cavalos de potência vocal. Em Cry me a river, Boyle termina a trilogia que a anuncia e a destrói num só arfar de pulmões. Num exibicionismo de pretensas qualidades, aniquila a paciência e os tímpanos do ouvinte com o mesmo ímpeto que arrasa as nuances melódicas, a cadência e a dinâmica dos originais que tenta, sem sucesso, recriar. Seu estado constante de grandiloquência e desequilíbrio ganha sintonia apenas em How great thou art, cântico religioso que marca sua infância.

Mas logo em seguida, põe tudo a perder. Ataca You’ll see, de Madonna. Sem o menor tino, ou sex appeal, tenta fazer da faixa o retrato cantado de suas aspirações como ser humano. No encarte, trata o hit como um hino sobre “determinação, independência e a habilidade de mostrar a todos do que você é feito... Minha maneira de me livrar de todos os rótulos que são injustos”. Boyle é uma mulher atormentada, mas não faz do seu sofrer alimento para uma criação artística ousada. Perdida em meio a fama, deixa seu próprio dom depor contra si. E exagera. Nada disso, porém, impede que este début tenha se tornado um fenômeno de vendas mundo afora. Mas muito menos as cifras e o volume de cópias faz desta obra algo de valor.

Otto - Certa Manhã Acordei de Sonhos Intranquilos - Em seu novo álbum, Otto exorciza, em oito faixas próprias, os demônios internos e externos que o lançaram ao limbo da MPB nos últimos anos. Revigorado, se inspira em Metamorfose, de Kafka, e na lírica de Ben Jor para assinar um repertório de mais altos que baixos. Arquitetado pelos criativos Dengue e Pupilo (Nação Zumbi) e aclimatado pelas guitarras de Catatau, o disco acerta em Crua, Meu mundo dança, Seis minutos e na catártica Filha, mas escorrega em Janaína e em Lágrimas negras, com participação de Julieta Venegas.

Cauby Peixoto - Cauby canta Roberto - Ao contrário do que sugere o título do álbum, Cauby Peixoto empresta toda a sua "elegância" a peças icônicas criadas em dupla pela parceria entre Roberto e Erasmo Carlos. No repertório, belas e tristes canções ganham verve dramática sob o impacto da voz encorpada e profunda de Cauby - em excelente forma, por sinal.Sentado à beira do caminho, Proposta e A volta, entre outras recheiam um trabalho bem cortado, com arranjos de cordas e instrumentação acústica dando espaço de sobra para Cauby deitar sua bela voz.

"Cantar é a minha droga", diz Joss Stone

Pode-se dizer que Joss Stone instaurou o revival soul que, após Amy Winehouse, passou a frequentar com assiduidade as paradas. Em seu quarto álbum, Colour me free!, a cantora sofistica a direção adotada como mote para o predecessor: a maior versatilidade com que empresta sua voz e alma não apenas às harmonias vocais à Motown, mas ao funk e ao r&b fincado nos anos 70 e aos grooves de hip hop. Com sete produtores, o álbum é, do início ao fim, uma aula de musicalidade, arranjos repletos de textura e cor, além de interpretações de altíssimo nível.

Da primeira vez em que esteve por aqui (em julho do ano passado) até agora, a moça pintou o cabelo várias vezes, brigou com sua gravadora e gravou o trabalho mais “adulto” de sua vida: pela primeira vez, um disco seu saiu com o infame adesivo advertindo sobre “letras explícitas” na capa. Mas algumas coisas não mudaram desde então: o vozeirão de soul singer aprisionado numa lourinha (ruivinha? moreninha?) inglesa e a beleza, que nos últimos tempos perdeu o tom juvenil e tornou-se mais maduro e, claro, sensual. Em sua segunda passagem pelo rio, no palco do HSBC Arena, soltou os cachorros acompanhada de uma banda afiada e de um figurino ousado, um curtíssimo vestido branco. Mostrou que não adianta querer aprisioná-la. Sua
relação com a música é, digamos, química.

– Cantar é algo mais do que um prazer qualquer: é uma necessidade vital. É como se fosse uma droga que eu realmente preciso usar – narra Joss à Programa . – A música é algo que me faz renascer a cada dia. E se não a fizesse, não sei se conseguiria tocar minha vida adiante.

A “libertação” que a inglesa tanto busca, e que acabou parando no título do primeiro single do novo disco (Free me) se refere à gravadora EMI. Joss teve seguidos problemas com o selo, que atrasou o lançamento de Colour me free! e cobrava que a cantora seguisse a imagem modernizada de diva R&B que assumiu no trabalho anterior, Introducing Joss Stone. A moça reagiu à domesticação gravando o disco em menos de uma semana, num estúdio montado num bar dirigido por sua própria mãe, no Sudoeste da Inglaterra.

– Aprendi que não adianta fazermos um álbum se percebemos que o novo disco não supera o anterior – diz a cantora quando perguntada sobre o que mudou no seu approach musical na hora de fazer Colour me free! – Curto pesquisar e achar os sons que quero para cada música. Apesar de não saber tocar os instrumentos, sei como devem soar. Não foi algo planejado, não tinha nada acertado, mas como o bar de minha mãe não estava funcionando e é muito perto de onde eu estava, decidi que poderíamos fazer.

De volta, tanto no palco quanto no disco, está a sonoridade mais retrô ouvida no trabalho de estreia, The soul sessions. As referências: Smokey Robinson, Gladys Knight, Aretha Franklin...

– Eu sempre ouvi muito esse tipo de música em casa, desde os 14 anos era vidrada – lembra Joss, falando sobre suas paixões black. – Mas só comecei a compor e entender minhas composições bem depois. É difícil falar sobre essas influências.

Como precursora da onda de cantoras britânicas de neo-soul (Amy Winehouse, Duffy, Adele...), a intérprete assina embaixo da onda revisionista:

– Acho o máximo que isso aconteça. Agradeço a Deus porque temos novos artistas empenhados em fazer música de verdade, com alma. É um processo realmente interessante para o pop.

Nirvana - Berros e lendas do grunge, 20 anos depois

No encarte de Bleach, álbum de estreia do Nirvana, a grafia Kurdt Kobain divide espaço com Krist Novoselic, Chad Channing e... Jason Everman. Jason quem? Sim, graças ao então guitarrista de apoio do Nirvana, parcos US$ 606,15 foram gastos para acertar as contas com o produtor Jack Endino, responsável pelas gravações do álbum que marcou a estreia da até então desconhecida banda de Seattle. Gravado em três apressadas sessões no Reciprocal Studios, entre dezembro de 1988 e janeiro de 1989, o disco evidencia a crueza - dado os poucos recursos do estúdio e dos equipamentos da banda - e a urgência - marcada pelo caráter irascível e instável do líder - que impulsionaria, dois anos mais tarde, a explosão do movimento grunge por todo o país, a bordo do clássico Nevermind.

Editado em junho de 1989 pela Sub Pop, a bolacha que inicialmente vendera cerca de 40 mil cópias completa 20 anos. Para celebrar a data, o disco ganha as prateleiras numa edição de luxo em CD duplo, remasterizado a partir das fitas originais e acrescido com uma apresentação ao vivo da banda - ambos com a supervisão de Endino:

– Eu sabia que tínhamos em mãos um bom disco, mas eu faço uma porção de bons discos todos os anos. Acho que todos deveriam ser escutados por muito mais gente, o que geralmente não acontece... com exceção de Bleach.

Escoltado pelos bateristas Dale Crover e Chad Channing, Cobain finalizava as letras pouco antes de Endino dar o comando de "gravando". O resultado é um álbum cru, pantanoso, com uma coleção de melodias arrastadas adornadas por guitarras distorcidas que fundiam a ferocidade do punk e das bandas de garagem ao ar lúgubre do metal setentista cunhado pelo Black Sabbath.

Da caneta do compositor, escorriam referências biográficas, tanto de seu traumático histórico familiar quanto de sua adolescência na conservadora e remota Aberdeen, como em School, Floyd the barber e Mr. Moustache. O disco já continha os lancinantes urros que tornaram-se sua marca, como em Negative creep e Blew, além da veia pop para melodias açucaradas, como em About a girl. Apesar de lembrar detalhes da gravação, Endino confessa que seu relacionamento com Kurt foi tão rápido e focado quanto as gravações do seminal álbum.


– Não nos conhecemos muito bem, apenas passamos alguns dias juntos. Não fui muito próximo dele, até porque ele não morava em Seattle (na época, o roqueiro vivia na cidade vizinha de Aberdeen) e não tínhamos muito contato social fora das sessões – conta.

O produtor prossegue:

– Kurt era um cara fácil de se lidar. Ouvia a opinião das outras pessoas e era extremamente focado. Não consigo lembrar sequer de ter visto os caras bebendo cerveja durante o tempo em que passamos no estúdio. Não perdíamos tempo, só queríamos saber de gravar e tirar um bom som. Cobain nunca mostrou evidências de seus problemas.

Por "problemas", Endino se refere à instabilidade mental do líder da banda, que, somada ao vício em heroína, o levou ao suicídio em abril de 1994, pouco mais de cinco anos depois do lançamento do disco de estreia. Após o estouro de Nevermind, Bleach ganhou fôlego renovado e chegou a marca de 1,7 milhões de cópias vendidas apenas nos EUA. Fato que sedimentou e projetou a carreira de Jack Endino como produtor musical. Até então, ele se dividia entre o trabalho no estúdio e o posto de guitarrista da banda Skin Yard:

– Percebi que poderia viver disso quando o Skin Yard acabou, em 1992, na mesma época em que o grunge estava explodindo. Parecia que o mundo exigia que eu me tornasse um produtor, mais do que um guitarrista. Meu telefone não parava de tocar.

A segunda metade do pacote ilustra uma apresentação poderosa e, como sempre, caótica do grupo, com Cobain quebrando sua guitarra ao fim da apresentação. Extraída de um show no Pine Street Theatre, em Portland, em 9 de fevereiro de 1990, a gravação traz versões ao vivo para covers como Love buzz e Molly's lips, e foi remixada a partir das fitas originais.

– O grunge era uma combinação do rock de garagem dos anos 60 com o hard rock dos 70 e com a atitude punk dos 80 – define Endino, com a autoridade de quem é tratado como o avô do grunge. – Tínhamos uma filosofia muito forte do faça-você-mesmo, monte-a-sua-banda, grave-o-seu-próprio-disco. E, é claro, muitos gritos e uma série de guitarras estrondosas. Kurt fez lembrar a todos que a melodia é fundamental para uma boa composição e que é preciso cantar com paixão.

Imagens de Seattle: cidade depressiva e experimental

Autor do recém-lançado livro de fotografias Grunge, Michael Lavine iniciou seus primeiros experimentos fotográficos quando ingressou na Evergreen State College, em Olympia. Lá acompanhou de perto uma intensa movimentação ao ser contratado pelo selo Sub Pop (que lançou Nirvana, Mudhoney e Soundgarden) como fotógrafo oficial. Para ele, o grunge é resultado de uma combustão entre desconforto psíquico, condições atmosféricas desfavoráveis e um cruzamento musical abrangente.

– Tudo tem a ver com o ambiente de Seattle. Nove meses de chuva, céu cinzento, nuvens carregadas e muito frio. Um clima que levava todos a um mesmo estado mental: depressão – diagnostica. – É uma cidade isolada, mas com uma cena experimental intensa. Os moradores de Seattle eram rebeldes e propunham mudanças significativas à ordem estabelecida. Sentia isso na molecada.

Lavine lembra bem da primeira sessão de fotos do Nirvana, que ilustra essa página.

– Eles não tinham grana, nem sucesso. Nos encontramos em Nova York, no CBGB. Era um cara
genial, amistoso. – diz o fotógrafo. – A sua loucura estava na cabeça, assim como acontece com caras como David Lynch e Cronemberg. Kurt nos fez entender que o rock tem poder de influenciar.

Thurston Moore, do Sonic Youth, assina o texto que contextualiza a coleção de fotografias.

– As fotos capturam muitas bandas e personagens que foram precursores do grunge – conta. – Até hoje muitas pessoas são inspiradas por eles. É como o punk, sempre terá alguém tocando e se inspirando nessas bandas.

Julian Casablancas - Sem medo do perigo e do exagero

Desde que o The Strokes pôs na roda o álbum First impressions of earth (2006), três de seus integrantes aproveitaram o tempo livre para colocar em dia seus projetos paralelos. Se o guitarrista Albert Hammond Jr. e o baixista Nikolai Fraiture exploraram sonoridade similar ao trabalho principal, o baterista Fabrício Moretti largou as baquetas e deixou-se levar por uma estética sessentista e psicodélica a bordo do Little Joy, formado com Rodrigo Amarante e Binki Shapiro. Faltava aquele que é o principal compositor e a identidade da banda, Julian Casablancas, arriscar-se num projeto solo. Após experimentar participações em álbuns do Queens of the stone Age e o recente Dark Night of the Soul (Danger Mouse, Sparklehorse e David Lynch), Casablancas entendeu que era hora de encontrar um novo traçado.

E é justamente por ter em suas peculiares modulações vocais a célula mater da sonoridade dos Strokes, que Casablancas investe em arranjos de intenção oposta ao que marcou seu trabalho de origem. A crueza do duelo de guitarras, a bateria minimalista de Moretti e a urgência, a secura e o enfumaçado de uma banda de garagem dão lugar a dimensões futuristas, em canções melodiosas esculpidas por teclados e sintetizadores em múltiplas e encorpadas camadas sobrepostas, além de uma profusão de inusitados instrumentos. Inspirado por Oscar Wilde e por uma completa “falta do que fazer”, como disse numa entrevista, Phrazes for the young eleva a música de Casablancas, que agora não apenas flerta, mas relaciona-se com a eletrônica e o pop experimental e dançante.

O esmero em cuidar da sonoridade de cada instrumento destacado para povoar as viajantes canções revela um artista em completo desassossego, em desbunde com as possibilidades do estúdio, preocupado em entender até onde pode ou deve ir para cruzar à salvo a tênue linha que separa o cafona do extravagante, em despir-se de fórmulas prévias. E, é claro, em destoar de seu núcleo. Não à toa, o primeiro single, 11th dimension, envereda por uma dinâmica de pista de dança. Aos fãs do Strokes cabe, à primeira audição, um sobressalto. Aos poucos, porém, o álbum revela que a energia roqueira de Casablancas segue incólume. Seus gritos arranhados e angustiados se desprendem para contornar dobras melódicas sinuosas e ainda assim marcantes. Ratifica em oito complexas canções que é de sua inquietação que explode a alucinada força motriz que fez Is this it estourar as portas para o novo rock, no início dos anos 2000.

Casablancas prova por A + B e uma porção de outras inspiradas letras, em que se atira sobre o cotidiano e frustrações em tom confessional, que tem lugar garantido como um dos mais expressivos nomes da música pop contemporânea – dentro ou fora da sua banda. Phrazes for the young pode até ser taxado de megalômano, grandiloquente e exagerado, mas de jeito algum de um álbum apático tecido por um artista acovardado. Casablancas arrisca-se e mergulha num universo inexplorado sem medo do que pode vir contra si. E, se não soa tão urgente, impacta por seus arranjos e melodias hipnóticas.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Sting: Perdido entre memórias congeladas

Chancelado pelo respeitado selo alemão Deutsche Grammophon, Sting apresenta-se austero em If on a winter’s night, álbum que remonta sua veneração pela música tradicional e folclórica das ilhas britânicas. Partindo de suas reminiscências e navegando por uma jornada melancólica e reflexiva, em que elege o inverno como sua estação favorita, o músico patina e se perde nas trilhas que tencionam fazer a ponte entre o seu passado nostálgico e seu presente criativo – aparentemente pouco inspirado.

Para traduzir o sentimento de reclusão que reside em seu flerte com o inverno, o músico, que nos últimos anos acostumou-se a arregaçar as mangas de suas diminutas camisetas para exibir seus bíceps, cobre-se de negro vestindo sobretudo, cachecol e botas na enevoada capa do trabalho. E tão gélido, esquemático e pouco acolhedor quanto o clima que embala tal obra são os arranjos, as melodias e as interpretações excessivamente empostadas do cantor.

Orientação natalina

Embora não tenha sido concebido e promovido como um álbum essencialmente natalino, em If on a winter’s night Sting destaca sua admiração pelos festejos que celebram o nascimento de Jesus Cristo. No texto do encarte que acompanha e serve como guia às intenções do artista, revela que até hoje se encanta com os “elementos mágicos e proféticos” relacionados à data: “Aprecio a beleza dessas histórias e como elas puderam servir de inspiração a tantos músicos e poetas por tantos séculos. Era meu desejo tratar desses temas com reverência e respeito”, escreve o músico. E a despeito de sua opção agnóstica, destaca que o simbolismo das peças de arte sacra ainda lhe causam forte impacto. Tal reverência, respeito e impacto, servem, no entanto, para congelar o espectro de suas canções. De faixa em faixa, o álbum se arrasta, como se todo seu cuidado estético, preciosismo estrutural e estudo do
arsenal de antigas referências servissem apenas para engessar seu desempenho e tornar o repertório tão bem cortado quanto entediante.

Dispersivo – ou melhor, digno de bocejos e sonolência em alto grau – é realmente difícil, para um ouvinte casual ou menos atento aos detalhes e finas nuances, manter-se acordado do início ao fim da execução do CD. Produzido em parceira com o arranjador Robert Sadin, o trabalho passeia por uma coleção de 15 canções, cânticos, temas de ninar e baladas tradicionais de sua terra natal, Newcastle, como The snow it
melts the soonest, Soul cake (canção “suplicante” inglesa), Gabriel’s message (cântico do século 14) e Balulalow (cantiga de ninar de Peter Warlock), entre outras que marcaram os últimos séculos do cancioneiro britânico.

Inspirado pelo universo lírico e melódico de seus ancestrais, Sting esculpe duas canções próprias, Lullaby for an anxious child e The hounds of winter – único momento em que se aproxima de refrões ligeiramente pop. As duas, no entanto, já haviam sido gravadas, sendo que a segunda serviu à abertura do álbum solo Mercury falling (1996). Ambas soam como o restante do álbum, como se fossem artesanalmente talhadas à mão em madeira, perfeitas para a execução em ambientação acústica, com adorno de violões, violinos, violoncelos e harpas, entre outros instrumentos rústicos.

Releitura de Henry Purcell

Tal roupagem, que sugere o intimismo da foto de abertura do encarte, em que os músicos que o acompanham empunham seus instrumentos numa roda à luz de velas, permanece na cabeça do artista, enquanto que o frio cortante que o move endurece o
contato entre os dedos e as cordas e entre suas ideias e o resultado final. Um dos pontos altos do álbum é a interpretação de Hurdy gurdy man, uma versão musical e literária para o inglês de Der Leiermann, um clássico de inverno de Schubert. Outro destaque do álbum é Now winter comes slowly, de Henry Purcell, além do poema musicado de Robert Louis Stevenson, Christmas at sea; e da letra que Sting traça para You only cross my mind in winter, de J. S. Bach – faixa de encerramento que narra uma história de fantasmas, densa e crepuscular.

Como o fim do inverno é prenúncio de dias ensolarados, vale torcer para que o fim do álbum seja indicativo de novos ventos ao cantor, que desde Sacred love (2003), não povoa o imaginário dos fãs com um álbum de canções próprias.

No rastro de Godard

“Assisti Acossado aos 17 anos e um estalo se fez. Juntava dois dos meus maiores interesses à época, jazz e filosofia. Revelou algo desconhecido, até então, que o cinema era muito mais do que um programa de sábado à noite com os amigos. Era uma forma de arte. Mais que isso, a forma crucial da arte moderna”. A declaração acima poderia ser atribuída a um aficionado que tenha se deixado levar pelo encantos da sala escura a partir de uma projeção do longa inaugural da filmografia de Jean-Luc Godard. E é justo esse o caso do então jovem americano Richard Brody, hoje o renomado crítico de cinema da New Yorker.

– Aprendi sobre cinema assistindo aos filmes que ele discutia em suas críticas e acompanhando suas entrevistas – recorda Brody, em entrevista ao Jornal do Brasil.

A lembrança vem a calhar. Há exatos 50 anos, Godard dava corte final ao célebre À bout de souffle – em inglês, Breathless; e em português, Acossado. Sua estreia nos cinemas, em 1960, celebrada como um dos marcos da nouvelle vague, é também considerada um dos pilares dos filmes modernos. Prestes a completar 80 anos, em 2010, o cineasta não deixa de criar. Seu próximo longa-metragem, Socialismo, já dispõe de um trailer postado no Youtube e, em breve, ruma às telas. Admirador da cinematografia do mestre francês, desde o início da década Brody vasculha à fundo sua vida e obra. O resultado da imersão se desvela em Everything is cinema - The working life of Jean-Luc Godard. Em suas mais de 700 páginas, o prestigiado crítico dá forma e sentido ao manacial de conceitos e ideias colhidas em centenas de entrevistas e relatos do diretor. Organizados biograficamente e analisados de forma criteriosa, o livro tenciona desmistificar o indescritível e controverso cineasta, assim como a sua vasta e, muitas vezes, incompreendida obra vanguardistas e, sim, polêmica.

– Ele é o mais importante cineasta moderno, e, embora eu jamais esperasse escrever um livro sobre o seu trabalho, sabia que a ideia de fazê-lo seria uma empreitada muito valiosa – diz.

De Truffaut a relações amorosas

No calhamaço, o autor acompanha a trajetória de Godard desde as suas primeiras incursões no universo da crítica, a bordo de jornais parisienses e de revistas especializadas, como a La Gazette du Cinéma, criada pelo próprio, e, posteriormente, na Cahiers du Cinéma, de André Bazin. Lembra que a publicação lhe serviu de plataforma para esculpir as bases teóricas e estéticas que fomentaram a nouvelle vague, ao lado de nomes como François Truffaut, Eric Rohmer, Claude Chabrol, Jacques Rivette, entre outros. Brody investiga, em profundidade, suas experimentações na linguagem cinematográfica, catapultadas por Acossado e recebidas com efusão ao longo de oito anos de sucesso, até a chegada de A chinesa e Weekend. Daí então, trata das forças políticas que, a partir de 1968, conduziram suas lentes e o levaram a criar o grupo Dziga Vertov, batizado com o nome do diretor russo. E avalia suas produções até os dias de hoje. No viés pessoal, descreve, em detalhes, seus conflitos com o conservadorismo familiar (filho de um médico francês e de uma herdeira de banqueiros suíços) a evolução do seu pensamento político (atrelado ao maoísmo e tantas vezes atribuído ao comunismo) suas tempestuosas relações amorosas, com Anna Karina, e os conflitos em que se meteu mesmo com companheiros próximos, como Truffaut – romperam por questões financeiras e após uma severa crítica a A noite americana.

No prefácio de seu livro, Brody deixa claro que o artista, apesar de uma produção recente pouco avalizada pela crítica internacional, continua a trabalhar no mais alto patamar da criação artística. Para ele, não há dúvidas de que sua obra ainda é determinante para a evolução do cinema contemporâneo.

– Ele influenciou toda a cultura francesa daquele período. E é claro que isso se estendeu ao mundo. Nos EUA, é marcante o impacto de seus filmes em muitos cineastas. É muito maior do que muitos deles percebem. A nouvelle vague ainda é a referência principal do cinema produzido em todo mundo.

Cineasta da inquietação, Godard subverteu gêneros, fragmentou a narrativa, desestruturou a relação entre diálogos e imagens para talhar um cinema de ideias, a maioria delas retirada de um arsenal de referências literárias e fílmicas.

– Jean Cocteau e Jean Rouch foram especiais. O primeiro, por ser também um escritor. Já Rouch se tornou uma referência tardia, com a sua fusão entre documentário e ficção. Para Godard, a literatura fornece um modelo de como a arte pode representar o nosso mundo interno. E não foi copiando histórias de livros, mas pensando em como eles alcançam seus efeitos que ele intensificou o poder da emoção. Em Pierrot le fou, Ferdinand cita um trecho de James Joyce como um modelo, mas diz que o cinema pode ir mais longe. Foi o que Godard tentou, e com sucesso.

Cineasta dá bolo em escritor

Apesar da intensa pesquisa, Brody não chegou a construir uma relação pessoal com o recluso cineasta. O encontrou pela primeira vez em 2000, numa viagem à Suíça, em que teve a oportunidade de entrevistá-lo para um perfil que publicaria na New Yorker.

– Ele foi bastante generoso. Foram três horas de papo.

Godard mostrou ao jornalista alguns novos projetos e outros em andamento, filmes raros e outros nunca lançados. Além de ter o convidado para um jantar.

– Ficamos de nos encontrar no dia seguinte, mas ele não apareceu. Deixou apenas um pequeno recado. Fiquei chateado. Não pessoalmente, mas porque eu estava lá para trabalhar e ele interrompeu precocemente o que eu havia programado. Mas artistas são conhecidos por seus impulsos e caprichos, qualidades que definem sua arte.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Filmada por Lázaro Ramos, posse de Obama vira curta exibido no Odeon

Bastou virar o ano. Ele atulhou seus pertences em malas e mochilas e zarpou rumo a Nova York com o intuito de trocar de pele. Durante um mês inteiro, se dedicaria às aulas de inglês e workshops sobre cinema e teatro. Hotel reservado, roteiro assinado, tudo dentro do script. Até que um sentimento inexplicável pregou uma peça em Lázaro Ramos. Naquela terceira semana de 2009, o destino, ou o acaso atacado de mania de grandeza, como disse Mário Quintana, riscou novos planos para o ator. O presidente eleito dos EUA, Barack Hussein Obama, faria seu discurso de posse no Capitólio, em Washington – a algumas milhas de distância. E a vontade de ir até lá e ver o acontecimento de perto pulsava forte, até que o ator não se conteve: “Trem ou avião?”, pensou. Embarcou no primeiro vagão com intenções ainda bambas ventilando a cabeça. Num impulso, decidiu filmar o palavrório do novo governante. Não sabia da necessidade de autorização para as filmagens e muito menos se era necessário descolar um passe para desfrutar os disputadíssimos centímetros no solo em frente ao palanque. Uma coisa era certa: de um jeito ou de outro, era obrigação registrar tal momento. “Era algo histórico”, afirma. Transformado em curta-metragem e exibido como parte integrante do programa que comanda no Canal Brasil, Espelhos, o documentário de 23 minutos O dia da posse de Obama ganhou a tela do Cine Odeon no último dia 15, a bordo da 3ª edição do Encontro de Cinema Negro.

“Fiquei superentusiasmado com o convite. O canal está dentro do pacote mais caro da TV paga, então poucos espectadores puderam vê-lo na íntegra, enquanto outros assistiram a apenas alguns trechos no YouTube”, diz Ramos.

De mochilas nas costas, câmera nos ombros e Obama na cabeça, deixou-se levar pela vontade de ver e ouvir o que o novo presidente tinha a dizer. “Era janeiro, eu estava em Nova York, Obama faria o discurso de posse e eu tinha uma pequena câmera na mochila”, conta o ator. “Descobri no caminho que, para entrar, seria dificílimo. Não tinha nenhuma autorização oficial... E aí nasceu a ideia de registrar o que acontecia no meu trajeto e o comportamento das pessoas que se dirigiam ao lugar”.

No dia anterior, a imprensa nova-iorquina publicava a imagem de Obama ao lado de uma foto de Martin Luther King.

Na manchete, “O sonho se realiza”. Para o ator, um acontecimento comparável ao emblemático discurso do líder negro e às Diretas Já. “Era algo tão forte que, naquele momento, qualquer pessoa que estivesse com uma câmera na mão estava prestes a registrar algo imediatamente precioso”.

No dia 20 de janeiro, Lázaro captou quatro horas de imagens que ilustravam o sentimento do americano comum.

“Dei atenção especial ao modo como as pessoas ao redor agiam, o que deu um sabor inesperado e único ao filme”, conta. “É o que fez o curta ganhar força. Depois, descobri que não existiam relatos ou imagens parecidos com os que eu consegui. Pesquisei no YouTube e não tem igual. Foi algo totalmente despretensioso. Você vê o que é o acaso, justo numa época em que tudo se filma”, reflete.

Até lá, alguns perrengues não deixaram de cruzar seus ansiosos passos. Tomou safanões mis, por pouco ficou sem um bilhete de passagem e teve que se safar da truculência de seguranças que insistiam em meter a mão em sua câmera, proibindo-o de filmar.

“Não pude mostrar isso no filme, é claro, mas tomei empurrão até não aguentar mais. Era muita gente. Tudo foi complicado, desde achar a porta de entrada até descobrir que precisava de um ingresso. Mas captei depoimentos sensacionais”.

Registrou republicanos que se tornaram devotos ferrenhos da Obamania, além de homens e mulheres desejosos de expressar seus medos, incertezas, mas, principalmente, esperanças.

“Inicialmente, iria filmar o discurso, mas o que eu consegui é muito mais precioso. Não estou centrado no líder e no que ele tem a dizer, mas no sentimento das pessoas. Eu me concentro na ótica do povo, e não no mito”.

O frio, a preocupação em não errar com a câmera e a dor nas costas por passar horas de pé suportando todo o equipamento não lhe permitiram emoção.

Intimidade na cafeteria

“Só quando eu cheguei à ilha de edição e coloquei a fita para rodar que pude sentir na pele”, recorda. “Eu acabei assistindo ao discurso numa cafeteria, porque de onde eu estava não veria nada. E isso rendeu um clima de intimidade com os frequentadores do lugar, algo muito emocionante”.

Naquele dia, ao sair da tal cafeteria, o ator não se deu por satisfeito. Já era fim de tarde, caía a noite e a exaustão lhe subtraía o ânimo, mas decidiu voltar ao lugar para uma última rodada de depoimentos e uma tentativa, a princípio ilusória, de encontrar algum modo de chegar mais perto do presidente.

Ao percorrer o extenso gramado em frente ao Capitólio, observou um portão semiaberto que poderia lhe dar acesso a uma área totalmente isolada. Não titubeou e abusou do descuido alheio.

“Tomei coragem e entrei. Lá, tinha uma senhora escutando o discurso num radinho de pilha. Ela ficava repetindo para mim o que Obama dizia”, conta. “Chegou uma hora que eu estava acabado e queria ir embora, mas decidi ficar em pé por mais algumas horas, esperando alguma chance de vê-lo, uma surpresa qualquer, enquanto filmava quem estava ali comigo. E aí, do nada, Obama surgiu a menos de 30 metros de distância. Não acreditei naquilo. Se eu tivesse conseguido uma entrada, nunca conseguiria estar tão próximo”.

Apesar da perseguição à moda groupie, o ator deixa claro que a admiração que deposita não escorrega em idolatria desmesurada, ingenuidade eufórica e muito menos numa paixão alienada por Obama. Tem a exata noção de que o presidente “defende os interesses do seu país, como qualquer líder de governo”, diz. Mas não deixa de enaltecer o salto que sua assunção ao poder representa para um país que viveu sob a “ignorância e radicalidade do governo republicano de George Bush”.

“Ele é americano e tem seus valores, mas tenho uma identificação com a sua origem, sua postura e honestidade. Como ele mostrou numa recente entrevista ao David Letterman”, cita.
Nos primeiros 100 dias em que esteve no poder, o governo Obama registrou umas das mais expressivas percentagens de aprovação da história americana. Prestes a completar um ano de mandato, uma pesquisa divulgada no início desta semana revelou parcos 53% de análise positiva. Uma queda vertiginosa que, em alguns casos, já orbita entre 52% de reprovação, contra 46% de aprovação. As críticas ao desempenho de Obama, porém, pouco abalam as convicções do ator.

“O Betinho já dizia, 'quem tem fome, tem pressa'. Então, encaro como natural toda essa urgência. É um país em crise, que plantou o que está colhendo. Ele está no olho do furacão”, teoriza. “É claro que a euforia pela troca de governo não ia se sustentar até o fim. Ele sabe que não pode fazer tudo o que planeja de uma hora para a outra”.

Provocação e reflexão

O flerte com a política não flui à toa do discurso do ator baiano. Está vinculado às suas raízes, ao engajamento social como integrante do Bando de Teatro Olodum, grupo que o formou. Da arte à política, Lázaro se entrega à missão de explorar novas e diversas facetas. Fascínio que, na condição de ator, o faz vestir a capa de personagens diversos. Tanto os considerados alternativos, como o violento Madame Satã, no filme homônimo dirigido por Karim Aïnouz; e o jovem Deco, em Cidade Baixa, de Sérgio Machado, quanto os mais populares, como o cômico Foguinho, que pintou as telas em Cobras & lagartos, e o Roque, da nova temporada da série Ó paí, ó, que estreia na sexta-feira.

“Meu barato é a diversidade. Vou do alternativo ao popular, sem pudores. Gosto de caminhar entre opostos, porque as pessoas insistem em rotular e eu não quero me acomodar. Gosto de ser tudo e quero ser tudo, sempre buscando qualidade e respeito aos diálogos que marcam a minha trajetória”, explica. “Vejo que alguns produtos se posicionam apenas como um painel de intenção política e perdem a oportunidade de gerar pensamento. E não acho que seja uma obrigação vincular arte à política. No meu caso, tenho, sim, interesse por temáticas sociais e acho que a arte ainda tem grande poder como instrumento de provocação e reflexão”.


Em 'Coleções', Intrépida Trupe interfere no Palácio Capanema

Desde pequena ela coleciona objetos diversos. É fascinada por peças que sejam azuis, e quando os amigos viajam, lembranças aos montes surgem em sua casa. Da mesma forma, acumula em profusão miniaturas de toy art, revistas da Luluznha e Bolinha e originais de valor incalculável de Asterix. Agora, porém, resolveu colecionar grandes obras de arte. E além do prazer da pura contemplação, decidiu interagir, ou melhor, criar em cima das tais instalações.

– Faço coleções desde pequena. Gosto muito disso – diz a diretora Valéria Martins.

Ela assina o projeto Coleções, que invade o Palácio Gustavo Capanema a partir desta quinta, no terceiro espetáculo inédito da Intrépida Trupe em 2009. Nele, a diretora faz uma ponte entre as artes plásticas e a linguagem teatral-circense característica do grupo, através de quatro intervenções artístico-urbanas – uma delas ao ar livre.

– Estava mais do que na hora de provocar uma interação mais declarada entre a nossa linguagem corporal, que sempre foi abrangente e híbrida, e as artes plásticas – explica Valéria. – Integrar essas obras aos movimentos cria um novo modo de apresentação. É um aprofundamento da pesquisa e da nossa inquietação artística. Acho que podemos estabelecer uma outra relação com o nosso público.

Para batizar a novidade, Valéria não encontrou dificuldades.

– Chamo de projeto porque é algo que ainda está em experimento, em elaboração. Já Coleções é uma junção de obras.

Uma coleção que apenas se inicia. E que, em breve, deverá se estender, ganhar tamanho e elementos.

– É o começo de uma pesquisa de linguagem que poderá englobar outros artistas mais à frente, assim como abre um novo leque para o repertório da Intrépida – revela. – Acho que posso dividir meu trabalho em antes e depois de Coleções, porque abre-se um novo parâmetro. Continuamos a usar o circo, o teatro e a dança, mas a passagem e a comunicação entre essas linguagens se dá numa fluidez que nunca havíamos conseguido. Não há um momento especifico para cada um.

Símbolo da arquitetura moderna do país, o Palácio Capanema serve de palco para as evoluções do elenco sobre as obras dos artistas Guga Ferraz, Pedro Bernardes, Raul Mourão e Marta Jourdan. Os performers Flávia Costa, Guilherme Lazari, Leonardo Senna, Luciana Medella e Paulo Mazzoni conduzirão o público desde os jardins de Burle Marx, onde estará a Cidade-dormitório composta de ferro e madeira assinada por Ferraz; até a galeria interna, ocupada pelas grades e espaços reprimidos de Drama.mov, de Raul Mourão; as projeções, líquidos e vapores de Marta Jourdan e o objeto incompleto de Bernardes, feita com material asfáltico.

– Criamos uma espécie de circuito para direcionar o público, mas cada um escolhe um recorte de olhar. É apenas uma ordem cênica de atuação em universos distintos. O trabalho de Mourão é um universo de fábula, um mundo que não existe, enquanto o da Marta é algo poético, lírico, suave. Não queremos determinar um conceito nem estamos aqui para mandar recados, mas é claro que as questões urbanas estão inseridas. A sensação é de que é uma obra aberta.

No espetáculo de Valéria, a obra de arte deixa de ser um objeto de contemplação e se torna o suporte para a representação e movimentação dos atores /bailarinos/acrobatas. Mesmo acostumado a lidar com materiais de naturezas tão diversas como trapézios, tecidos, liras, cabos e bastões, o elenco precisou desenvolver um intenso trabalho físico para interagir com o novo aparato – instalações muitas vezes pesadas e de grandes proporções.

– Essa intensa fruição é provocada pelo confronto com as obras de arte. Parte do impacto do espetáculo vem da habilidade e da maneira como o elenco se relaciona com elas. Por mais que tenhamos subvertido há tempos o senso comum de todas essas vertentes artísticas, interagir com essas obras é diferente. Não estamos no nosso universo habitual. No início, olhávamos para as instalações e pensávamos: “Como é que eu vou criar movimentos dentro disso”? São objetos de ferro pesado, enferrujados, que machucam o corpo.

Todas as instalações ficarão em exposição durante a temporada do espetáculo, com visitação aberta e gratuita durante o dia. Os visitantes também poderão conferir a videodança sobre o projeto Coleções, concebida pela intrépida Carol Cony. O trabalho, que utiliza técnicas como stop motion, vai ser exibido juntamente com o making of da pesquisa para o projeto.

– O legal de tudo é que as obras de arte se transformam num espaço cênico nos fim de semana e num ambiente de visitação livre nos outros dias. Enquanto montávamos, ouvimos reações das mais diferentes. Espero que o público possa dar vazão ao que vier na cabeça.

Biografia revela a inquietação do dramaturgo Plínio Marcos

A epopeia de Plínio Marcos (1935-1999) foi intensa e plural, por mais que breve. Surgido num tempo em que o Brasil mergulhava em trevas pela opressão da ditadura militar – logo após os eufóricos anos JK, 50 anos em 5, cinema novo, bossa nova, imprensa livre – o dramaturgo santista escapou por pouco do exílio – apesar de ter conferido a carcaça quente do fundo de um camburão. Teve, sim, suas obras censuradas. Tolhidas do direito de expressar suas preocupações, angústias e, por que não, revoltas. A bordo de seu estilo verborrágico e enfático, armado pelo ímpeto combativo de suas ideias, impregnou-se da alcunha de autor maldito, inclinado a tratar de temas considerados proibitivos como homossexualismo, marginalidade, prostituição e violência. Se o país não tinha voz, o que dizer da do submundo da São Paulo sessentista que ele tanto insistia em investigar e lançar luz?

Figura difícil, até que peças como Navalha na carne (1967) e seus textos jornalísticos incomodassem militares, conservadores de plantão e moralistas de faro aguçado, foi tarólogo, camelô de seus próprios livros, técnico da extinta TV Tupi, jogador de futebol e palhaço. Ganhou reconhecimento e muitos amigos, mas foi pego pelo avesso da moeda, à beira da pobreza, perseguido, desempregado, sem casa própria e com um punhado de desafetos. Cada pormenor da breve introdução que inicia esta reportagem é contextualizado e detalhado em minúcias pelas 500 páginas que esculpem a biografia Bendito maldito, cunhado pelo jornalista Oswaldo Mendes. Com base numa apuração que reúne mais de 600 personagens, que tiveram, de uma forma ou outra, suas vidas impactadas pela obra de um dos mais importantes dramaturgos da história do teatro brasileiro, Mendes conduz o leitor por uma saga que traceja relatos, memórias e, principalmente, emoções à flor da pele.

– O dramaturgo já foi revelado e reconhecido através de inúmeras teses sobre a sua dramaturgia e montagens, que não param de correr o mundo – diz Mendes. – Meu livro deve revelar o homem capaz de gestos extraordinários, de uma generosidade que não urgia em ser exposta. A religiosidade de Plínio se manifesta pela paixão que le tinha pelos seres humanos.

Há 10 anos – mais precisamente em 19 de novembro, dia em que o amigo era enterrado – Mendes recebia um convite inesperado. O filho do diretor, Léo Lama, e o editor Quantim de Moraes lhe pediam que escrevesse sobre sua vida. Disse aos dois que não era hora para assumir tal compromisso.

– A cobrança se repetia, mas eu precisava de tempo. Não devia escrever sob a emoção da perda – lembra. – A escrita se processa por estranhos caminhos. Há um ano e meio comecei a extrair as histórias e deixá-las prontas na minha cabeça. Tinha longos depoimentos em que ele falava da sua vida, assim como outros que concedeu ao Quantim, mas que tive acesso.

Papos de redação e botequim

Ao topar o desafio, não fez de sua biografia um buraco da fechadura através do qual o leitor é convidado a invadir intimidades. Prefere documentar a contribuição histórica na área em que se destacou o biografado. Para isso, é claro, lança mão de histórias fascinantes, algumas inacreditáveis, que apagam em borrões a tênue linha entre realidade e ficção, mentira e verdade.
– Ele escreveu sua própria biografia enquanto esteve vivo. Seus artigos, crônicas e entrevistas revelam fatos e versões que se misturam. Fala sobre santos, coisas pessoais... O Plínio nunca contava uma história da mesma forma. Dependiam do humor, e ganhavam coloridos e contornos diferentes.

Conheceram-se em 1968, quando Dois perdidos numa noite suja era encenada na cidade de Marília, logo depois, se reencontraram na redação do Última Hora. Entre idas e vindas, trabalharam juntos por quase uma década. Em papos de redação e botequim traçavam assuntos diversos, não apenas teatro.

– Era um vulcão de ideias. Nunca monotemático.

Nos últimos 10 anos da vida de Plínio, tornaram-se ainda mais próximos. O companheiro havia saído da imprensa, atravessava dificuldades pelo desemprego e pela diabetes e vivia de biscates, vendendo seus livros em portas de teatro.

– Até o fim, defendeu com veemência suas ideias, com um entusiasmo que fazia os outros pensarem que ele estava brigando – conta. – Ele tinha vontade de dizer o que lhe vinha à mente, sempre numa linguagem muito peculiar. Ia para dar porrada e isso acabava contaminando a visão das pessoas. E ele ajudava a criar esses personagens de si. Acho que tem muito a ver com o palhaço que ele foi na juventude.

Ao contrário de seus textos publicados na imprensa, o autor defende a ideia de que sua obra dramatúrgica não contém traços biográficos. Define como aspecto fundamental da sua dramaturgia uma escrita desvinculada de um olhar umbilical. Não escrevia para extirpar dramas pessoais. A exceção fica por conta única e exclusiva do texto Balada de um palhaço. Na peça, dois palhaços, que na verdade representam um só, vivem sob dilemas.

– Se devem ou não agradar ao público com seu trabalho, se isso é se vender... Nesse embate, fica claro que é Plínio quem fala. Só podemos reconhecê-lo nesse texto. Fora isso, nunca usou seus personagens para se defender. Defendia, sim, o ponto de vista dos marginalizados, daqueles jogados para escanteio... Dava voz para o povo.

Escrevia sempre motivado por histórias que via ou ouvia, mas que, sobretudo, o emocionassem. Definia-se como um repórter do mal.

– Plínio tinha uma intuição e uma percepção profunda sobre a humanidade. Olhava o ser humano com paixão. Tentando entendê-lo e fazendo com que todos se manifestassem.

Para a crítica teatral e amiga íntima Ilka Maria Zanotto, que também assina o prefácio do livro, a biografia de Mendes se desvela como um espetáculo teatral dividido em atos e cenas, cortado por flashbacks e zooms, em vaivéns que, através de uma linha do tempo rigorosa e repleta de fatos, situam o leitor em meio ao turbilhão de histórias que o furacão Plínio protagonizou – ou, como era do seu feitio, provocou. Entre elas, a montagem de Dois perdidos numa noite suja, no Rio de Janeiro, em abril de 1967, com Fauzi Arap e Nelson Xavier – fato decisivo para o reconhecimento do dramaturgo pela crítica. Ainda em 1967, embalado pela repercussão de Dois perdidos..., Plínio concluiu em três noites uma nova peça, Navalha na carne, sumariamente proibida pouco antes de sua estreia. Para os militares, seu trabalho continha cenas “obscenas, termos torpes, anomalias e morbidez”. Sem meias palavras, direto e convincente, dava tratamento dramático à realidade de prostitutas, gigolôs e bandidos. Considerado subversivo, teve outras peças proibidas, como Abajur lilás (1970), um dia antes da estreia.

– Ele era perseguido. Perdeu todos os seus empregos. Era uma barbaridade o que fizeram – lamenta. – Mas o que ele dizia não era nada mais que a realidade. Ele incomodava a alma, mas não era algo ideologicamente engajado. Dava voz aos que não sabiam de sua miséria. Amava ao próximo com todas as suas contradições. Afinal, não era um anjo, mas um homem.


Memórias de Ana Cristina César

Em torno da multifacetada e intensa vida da poeta Ana Cristina Cesar (l952-l983) não falta espaço para mistérios, angústias, sentimento de perda e, acima de tudo, encantamento – seja pelo primor de seus escritos quanto pela verve dramática de sua trajetória pessoal, interrompida aos 31 anos, ao se atirar do oitavo andar do apartamento de seus pais, em Copacabana. A julgar pelos traços da sua vida e obra, há tempos a literatura, o cinema, a TV e o teatro poderiam ter iluminado sua breve e impactante existência. Tributo que, sob o empenho de Paulo José e sua filha, a atriz Ana Kutner, chega aos palcos sob o título de Um navio no espaço ou Ana Cristina Cesar, que inaugura, nesta sexta, o novo Teatro Oi Futuro Ipanema.

– Sempre me perguntei por que tantas mulheres inteligentes acabam tirando a própria vida – diz Paulo José, que volta a atuar em teatro após nove anos. – Parece que não conseguem suportar esse terrível rótulo do feminino. Como se a mulher não tivesse o direito de ser inteligente. Desde que li seus primeiros poemas, em 1983, Ana me pareceu rebelde em relação a tudo isso.

Convivência pouco amigável

Para a montagem, Ana Kutner assume o papel-título, enquanto seu pai, o diretor Paulo José, vive a si próprio. Construída a partir de uma peça escrita por Maria Helena Kühner, em 1996, o texto, a princípio um monólogo, ganhou nova feição dramatúrgica sob as mãos de Walter Daguerre, que decidiu incluir a breve e pouco amigável convivência entre Paulo José e a escritora nos bastidores da TV Globo.

– Mudamos o rumo quando nos deparamos com o livro Antigos e soltos, publicado recentemente. Encontramos ali material para mais de 20 peças – conta Ana.

Com a maior parte da narrativa extraída de prosa e poesia, rascunhos, textos inacabados, bilhetes, cartas, diários e frases soltas da autora de Luvas de pelica (1980) e A teus pés (1982), o espetáculo não pretende responder às recorrentes indagações que remontam os motivos de um suicídio. Pelo contrário, urge em amplificar, a partir de sua palavra poética, as reticências, dúvidas e a complexidade de seu pensamento. Apresenta ao espectador suas buscas e angústias, a inquietação que impulsionou sua escrita – metade ficcional, metade biográfica.

Assim como a sua obra, o espetáculo expõe enigmas e lança no palco as peças para que o público se encarregue de montar o quebra-cabeças.

– Não há resposta para o que leva alguém à solidão e ao desejo de se matar. E é difícil resumir a vida de uma pessoa em pouco mais de uma hora, ainda mais de alguém tão intensa como ela – conta a atriz. – Ana era um vulcão, com diversas facetas e personagens. Mais do que fazer uma peça sobre uma suicida, queremos falar do caráter genial de sua obra. Sua escrita tinha o poder de fazer com que o leitor se sentisse parte do poema. Um comprometimento que aproximava o leitor.

Predestinada a traçar caminhos literários, aos 4 anos passou a ditar aos pais seus primeiros versos. E aos 20 e poucos tornara-se tradutora de nomes do porte de T. S. Eliot, Ezra Pound, Emily Dickinson, Mallarmé, Dylan Thomas, Walt Whitman e Sylvia Plath. A mesma precocidade, impulso e obstinação que a levou a riscar as primeira linhas, traduzir com esmero obsessivo outras obras e a retirar-se do mundo aos 31 anos e com apenas um livro publicado. Entre o início e o fim de sua curta e potente trajetória, de necessidade profunda do ato de escrever, Paulo José e Ana Kutner lançam mão de adjetivos que a sintetizam como uma combustão de lucidez, loucura, talento, senso crítico e, além de tudo, visceralidade.

– Sempre mantive uma relação muito próxima com a poesia. Acompanhei e li muitas gerações de poetas, inclusive a dela, dos mimeógrafos, que se distingue bastante das anteriores – conta o ator. – Ela circulava na academia e entre os poetas marginais, Chacal, Cacaso e Geraldo Carneiro. Mas o que me deixa encantado é que, a meu ver, ela não se enquadrava em nenhum movimento, grupo ou rótulo geracional. O que ela tinha com esse pessoal era uma coincidência de idade. Mas sempre foi diferente, uma figura rara, mulher.

“Aquela pedante, chata e pretensiosa era uma grande escritora”

À época em que travaram contato pela primeira vez, em 1982, Paulo José havia sido escalado pela Rede Globo para criar um novo programa. O produto deveria concorrer com o então líder de audiência O povo na TV, exibido pela extinta Tupi. Entre idas e vindas do projeto pelo Departamento de Análise de Textos, Caso verdade recebia críticas ferozes de um funcionário, assinadas com a abreviatura “A. C. César”, que irritavam o diretor. Recém-chegada da Inglaterra, onde concluíra o Master of Arts (M. A.) em Teoria e Prática de Tradução Literária, Ana Cristina integrava o tal departamento.

– Ela era implacável com os roteiros. Nos relatórios que circulava na direção, dizia que eram superficiais e simplórios – lembra o ator.

Em menos de um ano, ele e a analista de roteiros tornaram-se, na sua definição, “inimigos quase íntimos”.

– O fato é que ela estava no lugar errado. Eu tinha que fazer um programa popular que atraísse as senhoras, os aposentados e as empregadas domésticas...

Pouco tempo depois da estreia do programa, Paulo se deparou com o segundo livro de Ana Cristina Cesar, A teus pés. Já afastada dos quadros da Globo, a poeta deixou o
ex-companheiro pasmo com o trabalho. Amante da poesia, o diretor ficou impressionado com o misto de sofisticação e visceralidade.

– Comprei o livro e vi que aquela pedante, chata e pretensiosa era uma grande poeta. Não trabalhávamos juntos nessa época. Vi sua fotografia em jornal, e no dia 29 de outubro fiquei perplexo com a sua morte. A partir daí, me bateu um grande remorso, por ter vivido ao lado de uma pessoa incrível como ela e de ter perdido tanto tempo com besteiras.

A montagem marca a volta aos palcos do ator, após um hiato de nove anos. Além do reencontro com a atuação no palco, a peça serve ao primeiro encontro cênico com a
filha Ana Kutner:

– Grupo de teatro tem a ver com família. Agora concretizo dois desejos de uma só vez.

Sérgio Sampaio põe de novo o bloco na rua

Naquela noite de verão de 1989, o palco do Circo Voador adormecia sonolento com uma atração pouco conhecida, vinda do Maranhão. Na plateia, o cantor Sérgio Sampaio, em visita ao Rio, passava despercebido. Não que fosse difícil. Afinal, fazia sete anos desde que ele lançara seu último trabalho, Sinceramente (1982), e um bocado de tempo desde que havia regressado à sua Cachoeiro de Itapemirim natal. Reconhecido pelos integrantes da tal banda, foi chamado ao palco e, em poucos minutos, eletrizou a madrugada com uma canja que incluía seu maior sucesso Eu quero é botar meu bloco na rua e uma homenagem a Cazuza. À beira do palco, um amigo do grupo, o então jornalista e conterrâneo Zeca Baleiro pirava com a performance.

Após o fim apoteótico, traçou linha reta e foi ao camarim para conhecer o herói das rodas de violão que seus irmãos mais velhos embalavam quando ele era pequeno. Não perdeu tempo, e convidou o ídolo para uma entrevista a ser publicada na edição inaugural de uma revista de cultura que editava com alguns colegas. Apesar do aceno positivo, apenas alguns meses mais tarde teve acesso ao cassete que o entrevistado utilizara como meio de resposta. Jamais publicada na imprensa até a inclusão de alguns trechos nesta página, o contato serviu para insuflar a admiração por Sampaio.

“Sérgio era camicase”

– Era um cara fascinante, cheio de mistérios, maldito, com histórico sobre drogas, tudo que um adolescente como eu se impressionava – diz Baleiro, que até o fim do ano reedita Sinceramente. – É frustrante ver um cara que morreu cedo sem ter feito metade do que poderia. Não segurou a barra da popularidade e tornou-se irascível.

Diferente de outros da época, como o Luiz Melodia, que voa na loucura, mas retorna. Sérgio era mais camicase.

Lembro desse encontro com carinho e a fita com a entrevista era impressionante, porque ele deixou uma gravação caseira de uma música inédita, Maiúsculo.

Anos mais tarde, em 1994, Sampaio parecia empenhado em pôr fim ao hiato de mais de uma década que o punha no ostracismo. Mas em maio daquele ano, vítima de uma crise de pancreatite, o músico não resistiu, deixando versões demo em voz e violão para oito faixas que se transformariam em seu quarto álbum de carreira, a ser editado pelo selo Baratos Afins. Era a deixa para que Baleiro iniciasse uma garimpagem sonora junto à família do músico, que o levou a restaurar faixas e lançar, em 2005, o álbum póstumo Cruel.

– Três anos depois da sua morte, fui chamado pelo Sérgio Natureza para um projeto em sua homenagem.

Recebi oito canções inéditas para escolher, mas acabei optando por Tem que acontecer, que eu já namorava – conta o músico.

Ele refere-se ao álbum-tributo Balaio de Sampaio, relançado agora pelo produtor Marco Mazzola, como marco aos 15 anos da morte do compositor, aos 47 anos. O disco, composto por 13 faixas interpretadas por pesos-pesados da MPB, como Erasmo Carlos, Lenine, , João Bosco, João Nogueira, além de antigos amigos, como Luiz Melodia e Jards Macalé, conta com arranjos inéditos tecidos por Mazzola para a faixa-símbolo de Sampaio.

– Eu quero é botar meu bloco na rua foi um grande sucesso e quis fazer uma versão mais atual – conta Mazzola. – Depois de 11 anos, consegui reaver os direitos e colocar o disco na rua. Não é uma questão de vender, mas, sim, de expor uma raridade sobre um compositor que desperta muita curiosidade. Sérgio era autodestrutivo. E, apesar dos discos que fez, não conseguiu fincar seu nome entre os maiores da música brasileira. Acabou no ostracismo e nem sequer noticiaram a sua morte.

Técnico de mixagem da antiga gravadora Philips, Mazzola era chefiado por Roberto Menescal e André Midani quando conheceu Sampaio, em 1972. Ele fora chamado para participar de uma reunião na sede da companhia. Lá, um homem de terno, gravata e óculos escuros, chamado Raulzito, acompanhava um jovem músico que havia descoberto num teste para a CBS e que havia decidido empresariar.

– Sérgio mostrou algumas canções e o achei incrível. Mas saí da sala e o tal empresário veio junto. Disse que tinha umas canções, tirou o paletó, a gravata e começou a cantar. Não acreditei, entrei na sala e bati no ouvido do Menescal. “Esse tal de Raulzito tem uma canções que você vai pirar”. Ele respondeu: “Quer produzir? Toma conta dele”. E foi aí que Sérgio e Raul Seixas foram contratados e participaram do Festival daquele ano. Depois o Raul se tornou um fenômeno porque conseguiu segurar e ir em frente na sua loucura, enquanto o Sérgio não acompanhou aquele ritmo.

A aversão ao showbusiness, à badalação dos bastidores, o assédio dos fãs e à exposição massificada aliada à falta de estrutura pessoal (marcada por sua solidão) e profissional (não tinha uma banda e nem um empresário que cuidasse somente dos seus negócios e o ajudasse a desenlaçar problemas) serviram como embuste à pecha de maldito. Autor da biografia Eu quero é botar meu bloco na rua, que, em outubro, voltou às livrarias em nova e revisada edição, Rodrigo Moreira acredita na tese acima como fator levou Sampaio ao limbo profissional nos anos 80, com escassos shows em bares a minguados cachês:


– Ele passou a sofrer com a censura política e estética, que minaram sua expectativa e o levaram a um desencanto pelo mercado da música. Essa coisa do maldito só é boa para o folclore, mas foi extremamente prejudicial. O maldito não faz show, não é convidado para programas de TV e, também por isso, vende poucos discos. Ele não tirou proveito do sucesso do seu primeiro disco. Não consolidou a carreira porque não tinha estrutura. Não havia um Guilherme Araújo, como os baianos tiveram.

Presente na “virada noturna” da MPB

Dedicado a analisar a estrutura poética e melódica do álbum Eu quero é botar meu bloco na rua, a editora Língua Geral dá início à série de livros de bolso Língua Cantada – organizada pelo núcleo de estudos musicais do Cesap (Ucam). Neste primeiro volume, escrito por Paulo Henriques Britto, o clássico de Sérgio Sampaio é esmiuçado letra por letra, acorde por acorde.

– Já havia escrito sobre o momento do rock brasileiro posterior ao tropicalismo. Quando recebi o convite, voltei a escutar os discos do Sérgio, pesquisei na internet o que eu não conhecia e li a sua biografia – conta o autor.

Paulo Henriques Britto define Sampaio como representante paradigmático do movimento
pós-tropicalista, momento que associa a uma “virada noturna” da música popular brasileira liderada por nomes como Luiz Melodia, Jards Macalé, Wally Salomão, Torquato Neto, entre outros, logo após a implementação do AI-5 em plena ditadura militar:

– As coisas mudaram drasticamente com o AI-5. Em 1972 e 1973, morei na Califórnia e vinha embalado com os festivais de rock e a contracultura. Mas no Brasil, as guitarras, o rock e os cabelos longos não se relacionavam com o paz e amor, ou até com a contestação aguerrida do sistema político. O pós-tropicalismo tinha um clima
de medo. Vários amigos piraram, foram exilados, viviam na clandestinidade. A música era muito baixo-astral, falava de noite, solidão, derrota, exílio e loucura.

“Toco violão como quem toca o corpo de mulher”

A entrevista perdida, usada apenas como material de suporte ao lançamento do álbum Cruel, idealizado e concebido por Zeca Baleiro, pode ser conferida, em alguns trechos abaixo:

Início


“Comecei em 1971, na CBS. Fui até lá para acompanhar no violão um rapaz, que queria fazer um teste para cantor. E quem nos recebeu foi um produtor chamado Raulzito,
que era o Raul Seixas. Ele cantou, eu toquei, e aí o Raul disse para o Odibar que para lançar um cantor novo precisava de uma música muito poderosa, que invadisse as rádios e chamasse atenção. E eu, inocentemente, falei: “Tenho umas coisas aqui, será que interessa?”. Ele olhou pra mim com aquela cara de enfado, pensando “Ai, meu Deus,
mais um compositor”, e disse: “Tá bom, então canta”. Aí eu cantei uma canção e ele arregalou o olho: “É sua? Tem mais?” Cantei outra e outra e outra… Na saída, ele nos
convidou para tomar um café, e falou baixinho pra mim: “Volta amanhã”. Voltei e fiquei”.

Música

“Eu não sou músico. Músico é Hermeto, é Egberto... Músico eu não sou. Faço meus acordes, pego o violão... Toco no violão como quem toca o corpo de uma mulher
sem saber as zonas erógenas. Vai tocando por instinto... Assim é a minha relação com o instrumento. Sou um poeta, mas a poesia se manifesta em mim através da letra de música. Não seria um poeta como Vinicius, como Drummond, como Fernando Pessoa, por exemplo. Talvez não fosse capaz de sentar e escrever um livro de poesia e, mesmo que escrevesse, não iria sair lá grande coisa. A música é uma coisa muito forte e, geralmente, quando faço as músicas, sai tudo junto, letra e música. E é uma coisa
bastante agradável, tesuda, extasiante mesmo de fazer. Eu me coloco nu nas coisas que faço”.

Inspiração

“Costumo dizer que o luar não teria razão alguma de existir se não tivesse, por exemplo, um casal de namorados admirando aquele espetáculo deslumbrante. Acho muito
mais bonito o êxtase no semblante de um casal do que propriamente o espetáculo. Então, a fonte de inspiração são as relações humanas. O ser humano é a coisa mais bonita”.


domingo, 15 de novembro de 2009

Qinho é o cara

Desde que deixou os pilotis da universidade para trás, com o canudo de comunicação debaixo de um braço e o violão do outro, Marcus Coutinho, 25 anos, vulgo Qinho, dedicou-se integralmente à produção, gravação e composições para a banda Vulgo Qinho & Os Cara, firmada em parceria com o poeta Omar Salomão. De lá para cá foram mais de quatro anos em cima dos mais variados palcos da cidade, do Circo Voador ao Cinemateque, onde as noites dos caras ganhavam participações especiais de gente graúda, como Luiz Melodia, Jards Macalé, o soulman Hyldon e o eterno “leãozinho de Caetano”, o baixista Dadi. Apontado como uma das novas caras do Rio pela revista Domingo, do Jornal do Brasil, Qinho sobe ao palco do Cinemateque nesta quarta para entoar as canções de seu primeiro trabalho solo, Canduras.

– Hoje em dia o artista se torna produtor de si mesmo – afirma Qinho, que prepara um EP com o projeto paralelo Irmãos Brutos e que, em dezembro, realiza shows semanais a bordo da Cia. Velha, dedicada à releitura de hits de 1969. – E foi assim que a gente conseguiu tocar com tanta gente e vender mais de duas mil cópias do nosso primeiro trabalho. Mas chegou a hora de eu me dedicar às minhas composições, explorar minha criatividade em novos temas.

As 10 canções que recheiam Canduras e boa parte do repertório do show resultam de parcerias talhadas com uma nova safra de escritores, poetas e letristas, como os integrantes da banda Os Outros (Vitor Paiva e Botika); Miguel Jost, Ericson Pires, Rodrigo Gameiro (que também assina a direção do videoclipe para o single Mais de uma janela), além, é claro, do comparsa Omar Salomão. A noite, que terá a presença de Amora Pêra (Chicas) e Botika, serve ainda como batismo para algumas faixas recém-traçadas, como Maravilhosa beijoca, que recebeu remix do DJ alemão Ian Pooley, além de versões para Fazenda, de Nelson Ângelo, e Morena, de Gonzaguinha.

– Descobri Morena num disco do Gonzagão e mostrei para Amora, que é filha do Gonzaguinha... Ela não conhecia. A Amora incentivou muito este trabalho e o Botika praticamente me deu Mais de uma janela, que é um das mais pedidas.

Se à frente de sua ex-banda, o jovem trovador versava sob a influência concreta do ambiente e do comportamento frenético da urbe, agora navega por outros tons.

– Vou cantar pela primeira vez Vivo sonhando, do Tom. Os versos têm muito a ver comigo, “E eu a falar de estrelas / Mar amor e luar / Pobre de mim que só sei de amar” – cantarola, trocando o te por de.

Como indica o batismo de seu novo trabalho, Qinho soa mais doce, viajado, encantado pelas coisas simples da vida. Ao elaborar Canduras, referências imagéticas como ônibus, prédios, balas perdidas, entre outras peculiares à sua banda foram substituídas por um mergulho na subjetividade e nas relações humanas. No fim das contas, mantém intacto o espírito desbravador arraigado à vivência por entre ruas e vielas da cidade, como as do Morro do Galo, onde até há um tempo fazia explodir as caixas de som locais num programa de rádio dedicado à black music, com muito Fela Kuti, Donny Hathaway, entre outras gemas.

– Com a banda fiz as minhas primeiras canções e elas são mais cruas, diretas e críticas. Mas em vez de falar do que eu achava errado, resolvi cantar o que eu acredito. Passei a falar do que eu acho mais certo, que é o amor, o afeto, a delicadeza, coisas que eu sinto falta no mundo de hoje. São canções que me fizeram refletir e mostram como eu quero interagir com o mundo.

Compostas no velho esquema voz e violão e registradas em gravações caseiras feitas no computador, as novas canções ganharam admiradores através do MySpace antes de serem transportadas ao estúdio.

– Fiz tudo em casa e gravei naqueles microfones toscos de computador para colocar na rede. E o resultado ficou muito íntimo. Quis levar essa delicadeza para o estúdio.

Chegando lá, Qinho contou com o acompanhamento de outros músicos, em arranjos intimistas pontuados por instrumentos de sopro como clarinete e trompete, além de baixo acústico e uma percussão minimalista. No palco, ele empunha violão e uma guitarra semiacústica para deitar sua voz macia num repertório próprio que ecoa influências de linhagem nobre. A maior parte delas listadas no set que o moço comanda no início da noite, quando ataca com Caras e bocas (Gal Costa), Agora (Dóris Monteiro), Refavela (Gilberto Gil), Mico de circo (Luiz Melodia), Coisas (Moacir Santos), além de uma série de referências como D'Angelo, Duke Ellington e John Coltrane, além de Marvin Gaye, entre tantas outras da bossa nova à tropicália, do soul ao funk setentista.

– Refavela e O canto jovem de Luiz Gonzaga foram referências centrais para o Canduras.

“Um disco à moda antiga”

Organizador da mostra de cinema Rock and Totem, dedicada à exibição de pérolas do documentário musical, o surfista e empresário da moda Fred D'Orey é um entusiasta do talento de Qinho. Apoiador de Canduras, Fred define o trabalho solo do cantor como “meditativo, gostoso, um disco à moda antiga. Feito para colocar na vitrola, deitar num sofá, deixar o tempo parar e escutar”.

– Quando eu o conheci, ele era só um garoto que ia lá em casa fazer uns saraus. Fazia versões muito particulares de artistas que eu admirava. Ele sempre ouviu muita música brasileira, enquanto eu cresci ao som do que rolava lá fora. E ele pegava uma canção do Van Morrison e fazia aquilo soar como uma espécie de mantra, com um viés de samba – recorda D'Orey.

Já Dadi destaca o timbre vocal do músico. Diz que Canduras traz “leveza, frescor, um suingue essencialmente carioca, uma sonoridade das antigas, que me faz lembrar Jorge Ben, a pegada soul do Hyldon...”

Citado por Dadi, Hyldon não deixa a bola cair e emenda:

– É um dos maiores talentos dessa nova geração. Tem atitude dentro e fora do palco. Sou frequentador do Baixo Leblon há anos, mas só cantei a primeira vez ali por causa deles, que montavam a banda no meio da rua para tocar.


Ouça: www.myspace.com/canduras