
E é justamente por ter em suas peculiares modulações vocais a célula mater da sonoridade dos Strokes, que Casablancas investe em arranjos de intenção oposta ao que marcou seu trabalho de origem. A crueza do duelo de guitarras, a bateria minimalista de Moretti e a urgência, a secura e o enfumaçado de uma banda de garagem dão lugar a dimensões futuristas, em canções melodiosas esculpidas por teclados e sintetizadores em múltiplas e encorpadas camadas sobrepostas, além de uma profusão de inusitados instrumentos. Inspirado por Oscar Wilde e por uma completa “falta do que fazer”, como disse numa entrevista, Phrazes for the young eleva a música de Casablancas, que agora não apenas flerta, mas relaciona-se com a eletrônica e o pop experimental e dançante.
O esmero em cuidar da sonoridade de cada instrumento destacado para povoar as viajantes canções revela um artista em completo desassossego, em desbunde com as possibilidades do estúdio, preocupado em entender até onde pode ou deve ir para cruzar à salvo a tênue linha que separa o cafona do extravagante, em despir-se de fórmulas prévias. E, é claro, em destoar de seu núcleo. Não à toa, o primeiro single, 11th dimension, envereda por uma dinâmica de pista de dança. Aos fãs do Strokes cabe, à primeira audição, um sobressalto. Aos poucos, porém, o álbum revela que a energia roqueira de Casablancas segue incólume. Seus gritos arranhados e angustiados se desprendem para contornar dobras melódicas sinuosas e ainda assim marcantes. Ratifica em oito complexas canções que é de sua inquietação que explode a alucinada força motriz que fez Is this it estourar as portas para o novo rock, no início dos anos 2000.
Casablancas prova por A + B e uma porção de outras inspiradas letras, em que se atira sobre o cotidiano e frustrações em tom confessional, que tem lugar garantido como um dos mais expressivos nomes da música pop contemporânea – dentro ou fora da sua banda. Phrazes for the young pode até ser taxado de megalômano, grandiloquente e exagerado, mas de jeito algum de um álbum apático tecido por um artista acovardado. Casablancas arrisca-se e mergulha num universo inexplorado sem medo do que pode vir contra si. E, se não soa tão urgente, impacta por seus arranjos e melodias hipnóticas.
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