NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

terça-feira, 17 de março de 2009

Baladas de pista

Mesmo passados alguns bons dias, é preciso ressaltar que o show do Keane, no Citibank Hall, foi uma ótima experiência. Baladas de melodias pungentes, que sempre foram o forte do grupo, ganharam aliados de peso com os sintetizadores, guitarras e levadas mais dançantes das novas oito canções extraídas do último álbum dos ingleses, Perffect Symmetry. Entre elas, a faixa-título – "Iremos apresentar agora a melhor música que escrevemos em toda a nossa carreira. Ela resume todos os nossos questionamentos", disse Chaplin – e a saculejante Spiralling. Tom Chaplin mostrou que dá conta do recado. Mais magro que nunca, abusou do gestual, das corridinhas pelo palco, da sua guitarra Fender Telecaster, da sua afinação e voz límpida para cantar refrões inspirados, como os das canções Somewhere only we know, Crystal ball e Is it any wonder?

Abaixo, entrevista com o tecladista, baixista e principal compositor da banda, Tim Rice-Oxley:
O piano começa a ficar no passado

Mesmo sob o furor do lançamento do seu disco de estreia, o cortejado Hopes and fears, em 2004, nada impedia à crítica de tachar insistentemente o Keane como um simulacro do Coldplay e de suas baladas melancólicas cunhadas ao piano. Cinco anos mais tarde, um verdadeiro espiral de acontecimentos e mudanças afastou o grupo das incômodas similaridades e o tornou quase tão grande quanto o quarteto liderado por Chris Martin – pelo menos em seu país de origem, a Inglaterra. Mas, ao irromper como uma banda remodelada sonora e visualmente em seu terceiro álbum, o elogiado Perfect symmetry (2008), que serve de base ao show que os ingleses apresentam dia 13 de março, no Rio, o trio se viu envolto em mais uma nuvem de equiparações; dessa vez reservadas ao grupo americano The Killers.

– É até legal porque gostamos deles, mas fazemos sempre o que temos vontade. Ser comparado ao The Killers não muda em nada a nossa forma de fazer música – diz ao Jornal do Brasil o tecladista, baixista e principal compositor da banda Tim Rice-Oxley, por telefone, direto da pequena cidade costeira de Plymouth, a 310 km ao sul de Londres.

Ao ser questionado se as tentativas de balizar o som da banda através de análises comparativas tecidas pela mídia especializada ainda o incomodam, Oxley desdenha do arsenal crítico e defende a opção por trabalhar com os produtores Jon Brion (Kanye West e Dido) e Stuart Price (Madonna, Seal e The Killers) apenas como uma necessidade de evolução e de suprir novos desejos de cada um dos integrantes.

– Procuramos Price porque a banda urgia por mudanças – revela o músico. – Queríamos explorar algo mais dançante e funkeado. Talvez para as pistas de dança, sim. As canções têm a ver com uma proposta de club, um som elétrico que faça as pessoas pular. Os shows estão cada vez mais vibrantes, com muita energia e movimentação.

Canções milionárias

Com mais de 7 milhões de álbuns vendidos em todo o mundo (o último já acumula 584 mil cópias) e tendo os singles à base de piano do disco de estreia – como Somewhere only we know – ainda quentes no imaginário de muitos fãs, Oxley explica que era preciso abandonar fórmulas de sucesso e arranjos mais simples para desbravar um novo caminho, mesmo que não tão experimental assim.

– Amamos testar, descobrir e expandir limites. Sabíamos que era possível fazer música de outra maneira – explica o músico. – Amamos ser desafiados, e encontramos uma ótima oportunidade quando decidimos gravar o novo disco. Sinto que o álbum guarda uma sonoridade renovada, fresca e dançante. Algo variado e muito mais poderoso. É como se estivesse à beira de me lançar numa aventura.

Além de lapidar a construção sonora de sua canções com o uso massivo de camadas de sintetizadores e a infusão de pequenos riffs e notas de guitarra (instrumento inédito nos discos do grupo), e apesar de soar mais expansivo e ensolarado – mesmo com o clima de pista – o novo Keane busca repaginar aspectos ainda mais profundos de seu painel autoral. Oxley afirma que o conteúdo e questionamentos impressos nas letras estampam um novo rumo de temas a serem abordados pelo grupo. Alinhado ao conceito de simetria perfeita, que marca o título da nova obra dos músicos, ele tenta explicar as relações subjetivas que entrelaçam suas ideias e canções.

– Escrevo sobre a capacidade de acreditar e sonhar que a humanidade e a vida podem ser melhores e mais promissoras – acredita. – É um conceito que se assemelha a um sonho, justamente porque no mundo falta simetria e igualdade. Cerco-me de um pouco de ironia, talvez. Então é como uma utopia possível: querer e trabalhar para mudar a realidade não tão favorável na qual vivemos.

Oxley ressalta que são muitas as diferenças entre o grupo que iniciou a carreira em 2004 e se apresentou no Brasil em 2007 e a nova fase. – Em Perfect... apresentamos algo recheado de cores e aspectos visuais. Ao mesmo tempo em que refletimos sobre a humanidade e acreditamos em sonhos como uma espécie de obsessão, nos sentimos mais felizes e mais em paz com nós mesmos. Estamos mais elétricos e roqueiros, animados e descontraídos no palco, com músicas variadas e excitantes.

Um comentário:

Marcelo Alves disse...

Esse eu perdi. Também, pudera, agora a gente sofre por excesso de shows. Mas é melhor assim do que o tempo das vacas magras.
abraço,
marcelo