NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

quarta-feira, 20 de janeiro de 2010

Vik Muniz - Homem de imagem

No amplo estúdio-ateliê que o fotógrafo e artista plástico Vik Muniz habita, no Brooklyn, em Nova York, o retrato é de uma grande e colorida bagunça. Do chão ao teto, livros, luminárias, brinquedos, fragmentos de novas e antigas peças, além de objetos de diversas formas, cores e funções povoam o ambiente. Em meio a isso tudo, minhocas se arrastam em volta de uma caixa de telefonia jogada no chão. Seria o resultado de experimentos para uma nova série? “Olha, há quatro semanas estou com problemas nos telefones, mas ninguém conserta. Está tudo uma bagunça”, diz. Há alguns dias, sofreu as agruras do isolamento digital e ficou sete semanas sem internet, por culpa “desse monopólio da Verizon criado por um conchavo do governo Bush”, reclama o paulistano de 47 anos, que há 25 deixou a São Paulo natal para fincar raízes na esmagadora Big Apple. “As pessoas acham que apagão é só no Brasil. Idealizam e acham que Nova York é chique... Chique é o caramba. Aqui não é mole, não... É uma cidade muito dura e difícil, isso sim. Vai lá fora para você ver o frio que está. Não tem nada de bonitinho... É o lugar em que você come na mesa de trabalho, não tem a boemia e o frescor do Rio. É como Tom Jobim dizia, é bom, mas é ruim”.

Filho de um garçom com uma telefonista, aos 22 anos, após um acidente, em que tentou apartar uma briga e foi atingido por um tiro na perna, ele aceitou uma compensação em dinheiro, oferecida pelo autor do disparo, para financiar uma viagem aos EUA. Arrumou as malas para aprender inglês e ganhar a vida. Trabalhou como garçom, atendente de posto de gasolina e muitas outras funções nada requintadas para saldar as contas no fim do mês e alimentar, nas espremidas horas vagas, suas primeiras criações. “Eu não tinha muita escolha, não. Não frequentei escola de arte. Não que eu não quisesse ver meu trabalho florescer num ambiente intelectual, por uma atitude esnobe qualquer. Mas foi assim que aconteceu. Cresci dando murro em ponta de faca”, revela.


Influenciado pela pop art, mas principalmente pelos impulsos da mais intensa megalópole moderna, só mesmo após 15 anos de carreira deixou de lado as esculturas e desenhos que marcam seus primeiros traços para uma imersão fotográfica. As fotos, nateriormente encaradas como inimigas das dimensões e molduras de suas peças, tornaram-se centrais para a consagração de sua linguagem artística. Nas duas décadas seguintes, serviu-se de inúmeras lentes como inspiração para suas mais reconhecidas obras. “Quando eu comecei, não tinha nem como pagar o aluguel. Eu dava tiro para tudo o que é lado. E produzia um número extraordinário de tentativas, coisas muito dispersas. No início, sem disponibilidade econômica e trancado no estúdio, é que você descobre uma linguagem”, analisa.

A partir de agora, a evolução de sua prolífica produção pode ser acompanhada em minúcias com o lançamento do primeiro catálogo raisonné dedicado a um artista contemporâneo brasileiro. Organizado por Pedro Corrêa do Lago, as 710 páginas de Vik Muniz, Obra Completa 1987-2009, com noite de autógrafos marcada para a próxima quarta, na Travessa do Leblon, ilustram o acervo integral do artista, dividida em 57 séries. Brasileiro de maior projeção no mercado internacional das artes, com obras vinculadas ao Metropolitan Museum of Art, Guggenheim e MoMa, Vik, de apenas 47 anos, confessa-se surpreso com esse extenso levantamento iconográfico – honraria dedicada, no país, a nomes como Cândido Portinari (1903-1962) e Tarsila do Amaral (1886-1973) apenas postumamente. “Todo artista que tem obra o bastante para preencher um livro geralmente não começa pensando nisso. Se você fica imaginando o futuro não deixa espaço para criar no presente. Acho que é oportuno. Não me lembrava de muita coisa. Se eu fosse esperar mais 20 anos diversas obras ficariam perdidas pelo caminho”.

Tanto a recente exposição retrospectiva apresentada este ano no MAM-RJ e no MASP, quanto a profusão de imagens e detalhamento do catálogo sinalizam um artista em constante experimentação. “O que eu faço vem de algo conceitual, tem um desenho, uma exploração, uma capacidade de criar curto-circuitos”. A afirmação conecta-se ao ritmo motorizado e elétrico de seu incessante processo criativo. No catálogo, 1.600 imagens ilustram cronologicamente detalhes das cerca de 1.200 obras criadas pelo artista paulista desde o início de sua carreira, há 22 anos. Na ponta do lápis, 55 peças ao ano... “Não dá para fazer conta, não. Varia muito”. Escala de produção que afina-se a lapidar frase de Warhol, ícone que subverteu a banalidade das latas de sopa Campbell em obra de arte: “A razão por que estou pintando assim é porque quero ser uma máquina”. “Trabalhei muito nos meus primeiros 10 anos. Queria mostrar os meus interesses, quem eu era e toda a minha capacidade física”. Diz que o retrato do artista quando jovem ilumina uma necessidade de “mostrar que é bom”. Para isso trancava-se por meses a fio, solitário, no estúdio. “No início tudo é muito autoral. Com o tempo isso passa. Hoje trabalho com assistentes, por que gosto de compartilhar um processo criativo mais aberto”.

A partir de uma obsessiva pesquisa, adotou materiais inusitados como chocolate, caviar, açúcar, diamantes, lixo, brinquedos e muitos outros para recriar fotografias próprias além de imagens emblemáticas captadas por outras lentes. Assim como Andy Warhol, retrabalhou em cores e formas personalidades icônicas da moda, da política, do cinema, da música e de outras esferas da sociedade contemporânea, todas previamente expostas pela mídia e deglutidas em massa. Em uma de suas mais conhecidas séries, reconstrói um famoso retrato de Jackson Pollock com chocolate, desenha os contornos de Mona Lisa com pasta de amendoim e geléia e molda o rosto de divas do cinema em diamante e sangue, como Marilyn Monroe, recentemente arrematada por U$ 300 mil. “Proponho uma reorganização da forma como absorvemos as imagens. Uma negociação entre duas imagens ao mesmo tempo. Separo a versão e cristalizada e crio obstáculos. Trabalho como um mecânico, uma gramática para engrandecer as imagens por dentro”.

Nestas imagens, faz o público readquirir consciência sobre mitos expostas à exaustão. É como se olhássemos pela primeira vez símbolos familiares, mas desconectados de seu contexto original. Confessadamente desvinculado das tradições artísticas nacionais, firma sua postura como cidadão do mundo – pop. “O pop faz parte da necessidade de vivermos o nosso presente. Tenho que estar imerso na mídia atual. Somos todos cronistas e temos o compromisso de revelar o que está acontecendo no mundo. No século 19, o cara levava um cavalete para o campo e retratava a natureza. Eu faço a mesma coisa, mas com uma grande complexidade holográfica, uma quantidade enorme de referências que se cruzam, através de uma imaginação contaminada pelo aparato midiático, por experiências diretas. Chegamos a um ponto e quem a nossa vida se tornou menor do que a vida que chega pelo bombardeio das informações. Sou bastante claro quanto a isso, e tenho uma visão óbvia sobre as coisas que faço”.

Mas o que faz Vik Muniz não se tornar apenas mera repetição das linguagens já reconhecidas pelo aval de críticos e dos curadores que guiam aos milionários corredores das galerias de arte? E no plano pessoal, o que o impede de tornar-se uma mera reprodução de si, o que poderia levá-lo a cair na banalidade de uma aceitação superficial, de um oba-oba? A necessidade de reinvenção, ele diz que é constante. Mas não representa um fardo. “Com o tempo, há uma acomodação em determinadas formas. Diversas aplicações que eu criei hoje são usadas largamente. O artista passa metade da sua carreira naquilo que é mais difícil, o desenvolvimento de uma linguagem própria. E depois vem a necessidade de subverter e provar que é mais do que aquilo. O que faço agora é tentar expandir algumas das minhas aplicações”, conta.

2009 marca uma década desde que seu trabalho passou a obter reconhecimento internacional. Além do novo catálogo e da recente exposição, “feita com o objetivo de atingir o maior número de pessoa possível”, o artista conta com o documentário Lixo extraordinário em competição no Festival de Sundance, tem trabalhado em inúmeros projetos vinculados ao terceiro setor financiados por grandes empresas, corre o mundo realizando palestras e já planeja a realização de uma conferência sediada no Rio sobre arte pública, para o ano que vem. “Tão grande e ambiciosa quanto a minha obra precisam ser os mecanismos de comunicação e veiculação. A arte contemporânea vive uma defasagem de público. Quero trazer as pessoas de volta às galerias. Esta conferência será no Rio porque a maior parte dos artistas mora aqui. Temos que agrupar toda essa energia criativa, que ainda é muito dispersa, e fazer algo pela cidade”.

Vik Muniz não faz análise. E acha que talvez seja este o segredo para tanta produtividade e inquietação: “Solto todos os meus cachorros na minha arte. Nunca me ocorreu essa necessidade de autoconhecimento”. Não quer se conhecer, mas, sim, se reinventar. Mesmo que por um viés narcísico: “Quero criar um cara legal. Alguém que eu possa dormir à noite e ficar admirado, satisfeito com o que eu fiz”. Para isso, trabalha em parceria com ONGs, acumula projetos e amizades com representantes da associação de catadores de lixo, entre muitas outras atribuições. “Me contagia poder fazer tudo isso através da arte. Mas o que me preocupa e motiva hoje em dia não é tanto a cultura, mas o pensamneto relacionado à educação. Estou muito envolvido com o terceiro setor. Isso dá vida para o meu trabalho”. Aponta como a grande vantagem de ser um artista mundial, a oportunidade de transitar entre as mais carentes áreas do Rio às mais altas rodas. “Num dia estou em Duque de Caxias, em meio ao lixo de uma das áreas mais pobres... No outro, estou em Londres almoçando com um desses oligarcas russos e contando a eles sobre a vida e as pessoas do Jardim Gramacho. Vejo, por exemplo, que o sonho da Zona Sul, que é a qualidade de vida mais invejável que eu conheço, tem um preço grande do outro lado da cidade. E quero poder viver e me relacionar de maneira intensa e mais completa possível com o mundo em que vivo”

Um comentário:

Atrás da porta... disse...

Nossa, Reis! Adoro as obras do Vik Muniz. Ele é sensacional e merecia um destaque no seu blog. Beijos, Lu