NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Inspirado em Caio Fernando Abreu, 'Aqueles dois' estreia no CCBB

Um deserto de almas habita o departamento administrativo de uma repartição pública. O silêncio, o vazio e o tédio angustiante de vidas acomodadas parecem reger as leis e normas vigentes. O código moral, a ética e a conduta impecável daqueles trabalhadores desolados, porém, sofreriam um abalo. Pouco a pouco, dois novos funcionários, Raul, 31, e Saul, 29, passam a compartilhar gostos e desgostos comuns, numa cumplicidade que, embora incompreensível a eles próprios, passa a despertar sentidos e rumores cada vez mais incômodos aos companheiros de trabalho. Os seis meses de convivência diária entre estes dois personagens quietos e enigmáticos – entre cafés, despachos, relatórios e trocas de impressões sobre a rotina – moldam as linhas de Aqueles dois, um dos mais famosos contos de Caio Fernando Abreu. Transposto ao teatro e esmiuçado pela companhia mineira Luna Lunera, o texto chega aos palcos do CCBB a partir de sexta, após passar por Belo Horizonte e São Paulo.

– Comecei a ler os contos do Caio para um treinamento de atores do grupo e percebi que Aqueles dois tinha muito a ver com o que estávamos vivendo como companhia teatral – conta o ator e diretor Cláudio Dias. – Passávamos por um momento muito burocrático, envolvidos com prestação de contas e todo o processo que envolve leis de incentivo.

A labuta diária entre uma produção e outra remetia diretamente ao clima árido de uma repartição pública, justamente o universo criado pelo autor para o conto, publicado em Morangos mofados, um de seus livros mais famosos.

– No texto, os dois personagens se encontram, o que representa uma ótima metáfora para o que acontecia com a gente durante as oficinas. Voltávamos a ter contato, tocar uns aos outros, num momento de criação artística, de encontro. E acho que este texto é sobre encontros e amizade – explica o ator.

Com direção e dramaturgia de Dias, Marcelo Souza e Silva, Odilon Esteves, Rômulo Braga e Zé Walter Albinati, a peça, assim como o conto, lança mão de citações a artistas e obras de áreas diversas, da música e do cinema, como Audrey Hepburn, Jane Fonda e Carlos Gardel, todos misturados na narrativa, com o tom autobiográfico peculiar à produção literária do autor.

– Os textos do Caio trazem uma musicalidade característica. Ela está contida nesta obra e foi transportada para o espetáculo. Ele sugere trilhas sonoras para a leitura dos seus textos. Neste caso, com muito Carlos Gardel – detalha. – Na peça, usamos as canções citadas no conto, além de outras de artistas que ele cita ao longo de suas cartas e outros textos, como Angela Ro Ro e Cazuza. É uma escrita bastante musical.

Na trama, que envolve o aprofundamento dos laços entre Saul e Raul, o autor dá margem a uma diversidade de leituras e percepções sobre o universo dos dois personagens, uma espécie de jogo e provocação que leva o espectador a refletir sobre amizade, preconceito e sexualidade. E soa como um lembrete para que o público nunca deixe de cuidar de suas próprias gavetas.

– O que me impressiona no texto é a questão da amizade e do encontro, independentemente de gênero. O que nos emociona e cativa as plateias por onde passamos é justamente o encontro entre essas duas pessoas – revela Dias. – Assim como o texto do Caio, mantemos esse mistério, porque cabe ao público criar sentido ao relacionamento dos dois.

No palco, os quatro atores se revezam nos papeis de Raul e Saul e como narradores. Cenário, figurino, música e texto atuam simultaneamente num jogo textual e corporal entre atores, espaço e objetos.

– Costuramos o texto passando do épico para o dramático. Quatro atores se revezam entre os personagens e na narrativa do texto. Ora os três são Saul, um de nós é Raul, e por aí vai. Serve para mostrar que essa história pode acontecer a qualquer um, incluindo os espectadores.

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