
– Já temos cinco anos de banda com essa formação e estamos tocando há quase um ano direto, mas até agora pouca gente no meio e na imprensa se deu conta – revela Donatinho. – Tudo começou com uma reunião de amigos. Tocávamos no Cine Buraco, em Laranjeiras, que era um cineclube bem underground, cheio de filmes B... Transformávamos o lugar em pista de dança e lotava só no boca a boca. É o mesmo que acontece agora. Não temos muita divulgação, mas as pessoas comparecem cada vez mais em peso.
O sucesso das apresentações gerou a expectativa quanto ao primeiro álbum do grupo. Gravado em dezembro, o debute conta com 11 faixas inéditas – pinçadas entre mais de 30 composições assinadas pela banda. Produzido por Kassin e masterizado por Ricardo Garcia, o disco é um cruzamento de sonoridades que remetem ao movimento da blaxploitation, calcada no funk e na soul music, mas com sólidas bases na tradição musical afrobrasileira.
– Poderíamos ter produzido o disco, mas o Kassin é um olhar de fora, não é viciado. Alguém que admiramos o trabalho, a sensibilidade e o bom gosto – elogia o tecladista.
Com melodias sinuosas e dinâmicas rítmicas pulsantes colocam o povo para dançar. E mostram que o termo instrumental pode ser muito mais abrangente do que se imagina.
– Não somos um grupo instrumental como esses caras que tocam jazz de uma forma em que tudo parece uma desculpa para solar. Isso é música para músicos, cheia de convenções... É algo que eu, particularmente, detesto. Eu gosto de melodias – diz.
Definido por Donatinho como instrumental pop e dançante, a trupe interpreta um repertório 100% autoral que lembra as trilhas sonoras cinematográficas e das séries de TV policiais criadas entre os anos 60 e 80. Imagens adornadas pelo talento de ícones como Quincy Jones, Curtis Mayfield, entre outros, que serviram para longas como Shaft, Super fly e Coffy. Do jazz ao rock, do experimentalismo aos ritmos africanos e latinos, teclados analógicos, antigos pianos elétricos e guitarras psicodélicas convivem também com levadas brasileiras.
-Todos nós gostamos desses filmes da blaxploitation , dos filmes do Bruce Lee... É a temática negra e de ação com muito funk e soul – define o flautista Felipe Pinaud. – Passeamos pelo samba, pelo afrobeat, sempre com muito groove. Mas não é um som americano, é brasileiro. E isso fica claro a partir das células percussivas.
No show de logo mais, que ao longo dos últimos nove meses contou com convidados ilustres como João Donato, Hyldon e Carlos Dafé, o grupo também passeia por versões para músicas de Jorge Ben Jor, Astor Piazzola, Lipps Inc., Manu Dibango, Bar Kays e Tim Maia. Empolgado com o trabalho, Donatinho explica que o grupo chegou a pensar em participações especiais para o disco, mas, no fim, optaram pelas vozes de seus instrumentos.
– Um disco serve para registrar momentos. Chegamos a pensar em participações, mas é um disco nosso, com uma carga autoral, e decidimos privilegiar o nosso som.