NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

L&PM lança coletânea de textos autobiográficos de Bukowski

Barba amarelada e por fazer, cabelo ensebado atracado ao couro, calça bege e camisa marrom surrada, cigarro de palha ardendo em brasa, densas baforadas ao vento e, é claro, o aroma etílico externando por um corpo encharcado em álcool. É assim que, em 1978, o velho Buk – santo padroeiro dos poetas bêbados e tarados – adentra o estúdio de TV em que o apresentador Bernard Pivot lidera o prestigiado Apostrophes – programa francês de televisão que reunia, entre as décadas de 70 e 80, personagens graúdos da literatura mundial. Após talagadas incessantes de vinho branco, Buk vê-se desprovido da mínima condição de atinar qualquer meia-sílaba de coerência. A cada pergunta, reserva-se ao silêncio, ou resmungos vindouros de seu ácido calabouço gástrico. O âncora intercede a seu favor. Diz que ele pode ir... “Sim, já está dispensado”, diz. Mas Buk está pregado à cadeira. Ao primeiro esforço para se levantar, cambaleia, apóia-se na cabeça de um, dá de ombros num segundo e se agarra à mão de um terceiro que, contrariado, o ajuda a se recompor. Enfim, deixa o lugar, apinhado de célebres cabeças pensantes, como Gaston Ferdiére, renomado psiquiatra de Antonin Artaud.

– A completa inviabilidade social de Bukowski está expressa nesse vídeo – decreta Ivan Pinheiro, editor e fundador da L&PM.

De tão fascinado pelo autor, Pinheiro o detalhou com esmero numa ilustração que serva como capa ao lançamento que a editora gaúcha põe à baila, a partir da Bienal: o monumental compêndio de memórias, contos, trechos de romances e, sim, poemas Bukowski: textos autobiográficos – editado em 480 páginas por John Martin, responsável pela publicação dos primeiros escritos do autor. Organizado cronologicamente – não pela data de publicação, mas pelo período da vida do autor retratado em cada fragmento da obra – o catatau esculpe a carranca macilenta, taciturna e porosa de Buk, o devasso que, dessa vez, tem suas entranhas meticulosamente devassadas, desde as reminiscências da primeira infância, representada pelo alter ego Henry Chinaski, até as desmistificadoras, sarcásticas e hilárias reflexões de um septuagenário.

– John Martin é um mega alucinado por Bukowski – conta Pinheiro. – Fez um trabalho insano de pesquisa por todas as suas publicações para identificar o que era ou não referência da sua biografia, apesar de a maior parte de seus livros refletir traços das suas vivências. É uma colagem cronológica impressionante. Inclusive com uma série de poemas, que não são tão conhecidos, mas de altíssimo nível.

Nascido Heinrich Karl Bukowski na devastada Alemanha pós Primeira Guerra, em 1920, imigrou aos dois e tornou-se um dos maiores poetas e ficcionistas dos Estados Unidos – país em que sobreviveu e morreu, em 1994, vítima de pneumonia em decorrência de uma leucemia. Mas o resumo da trágica ópera do velho safado – já projetada nas telas em longas como Barfly (1981), estrelado por Mickey Rourke, e entre outros detalhados escritos biográficos – foi tudo menos simples como sugerem as linhas acima.

Maldito, mártir dos losers, desvalidos, borderliners, entre outros marginalizados de plantão – mesmo que a contragosto – arrastou-se pela sarjeta, passou fome, mas não pediu esmola. Deixou-se absorver pela latrinas de alquebrados prostíbulos, moquifos empoeirados e botecos de quinta categoria nas esquinas desertas da corrosiva e soturna madrugada de Los Angeles. Até o fim, meteu chumbo grosso nos outros – seu esporte favorito – mas sem livrar a própria cara.

– Era apenas um escroto que escrevia pra cacete. E olhou a escrotidão do mundo como nenhum outro – define Pinheiro. – É o cara que revela o lado sombrio da Califórnia, toda a gama de fodidos esfarrapados que se arrasam na sociedade de consumo, mas sem ser panfletário. Tratou da solidão, que é o estado em que ficamos depois de toda essa movimentação industrial e bélica do século passado.

Determinar faixa etária ou público leitor para Bukowski é tarefa tão traiçoeira quanto os descaminhos que o velho errante traçava. Para adolescentes entediados a adultos em plena crise da meia idade, Buk não é remédio – mas alento. Pinheiro o trata como um grande formador de leitores. De texto fluido e objetivo, diálogos ágeis e espirituosos, o autor espreme suas vísceras, ou as espinhas do imortal Henry Chinaski, para expelir um substrato de irreverência e loucura – indispensável a qualquer jovem que se perde.

– Ele escreve o que queremos ler nessa idade. Mas hoje tenho 57 e, após 35 anos, continuo com o mesmo prazer em editá-lo.

Tradutor de Mulheres (1984), o escritor Reinaldo Moraes – autor de tintas (vá lá) bukowiskianas (ir)responsável por Tanto faz e o recente Pornopopéia – argumenta que o old Buk não tem bula.

– Pode-se ler quando se é jovem ou velho. Só morto é que não dá, suponho. Mas bêbado e drogado também dá.

Há seis meses, Moraes atracou-se com Shakespeare never did this, registro autobiográfico no estilo diário amalucado que o outsider traçou numa viagem à Europa, acompanhado por Linda, sua então namorada. Trata-se de uma crônica ilustrada por fotos de porres homéricos, emendados entre passeios, leituras, entrevistas, viagens de trem, avião, barco, quartos de hotéis e bares.

– O curioso é que o Buk tinha 58 em 1976, mesma idade que eu na altura. Uma delícia. No final, me pilhei triste ao lembrar que o dirty old man estava morto. Ninguém como ele pra dar solenes, pornográficas e divertidas bananas pro tal do mundo administrado.

O escritor Marcelo Mirisola – que, ao lado de Moraes, comanda hoje, às 15h30, uma mesa na Bienal – polemiza e enterra a questão:

– O engraçado é que ninguém faz essa relação custo-benefício quando se trata de um Kafka. O que ocorre é que Bukowski é muita areia pro caminhãozinho de um país caipira cuja “acadimia de letras” ostenta gente como Marco Maciel e Paulo Coelho.

Publicado tardiamente, só aos 50 passou a dedicar-se essencialmente à escrita. Aceitou os US$ 100 mensais ofertados por John Martin, editor da Black Sparrow Press, e, enfim, desvencilhou-se da burocrática labuta como oficial dos Correios. A partir daí, despontou como sucesso de público na Itália dos anos 70. Ivan Pinheiro, que circulou pelo país no início das décadas de 1970 e 1980, recorda que até então o autor era negligenciado pelos franceses, assim como por seu país natal, a Alemanha, e, é claro, solenemente ignorado pela a América que o insultou ao longo de toda a sua extremada e periclitante existência.

– Era início da década de 80 e um burburinho já tomava conta da Itália. Vou à feira de Frankfurt desde 1976 e lembro que nessa época ninguém apostava um tostão. Eu já era editor e me interessei em ler um livro dele pela primeira vez, o Erections, ejaculations, exhibitions, and general tales of ordinary madness (1972).

Traduzido para o português como o Fabulário geral do delírio cotidiano, este é o segundo volume de uma coletânea de short stories e poemas editada pela L&PM, iniciada com Crônica de um amor louco (1984). Esta reunião de contos, que serviu como inspiração para o longa Tales of ordinary madness (1981), dirigido pelo italiano Marco Ferreri, foi a primeira aquisição de um catálogo que hoje computa 15 títulos. Em Textos autobiográficos, além de fragmentos destes dois volumes, se agitam nas páginas trechos marcantes de Cartas na rua, Mulheres, Factótum, Numa fria, Ao sul de lugar nenhum, Hollywood e Misto-quente.

– Fabulário foi editado após uma disputa com a Brasiliense, que àquela época era muito poderosa e havia publicado Cartas na rua e Mulheres – recorda Pinheiro. – Eles vieram com esses dois títulos, e nós demos o troco com Fabulário..., que é muito melhor. Consegui comprar graças à ajuda do meu amigo e grande poeta beat Lawrence Ferlinghetti, dono da City Lights. Ele detinha os direitos da obra e nos ajudou a dar uma bola nas costas dos caras. Na época era assim mesmo, uma batalha. Mas de cavalheiros. Assim como eles lançaram o On the road, do Kerouac, e nós demos a rasteira com o Livro dos sonhos e depois fizemos o nosso golaço com o Uivo, do Ginsberg, entre uma série de outros poetas beats.

Afinal, beat ou não beat, azeda a questão... Pinheiro defende que o autor representa a última lufada de ar fresco, ou bolorento, de uma geração que incendiou a consciência da América com os pensamentos libertários arremessados pelos ensandecidas poemas de Carl Salomon, Gregory Corso, Gary Snider, Lawerence Ferlinghetti e pelas mentes da lendária santa trindade beatnik, composta por Burroughs, Ginsberg e Kerouac. Enquanto os românticos predecessores hasteavam trêmulas flâmulas contra a sociedade industrializada e capitalista fincada no American Way of Life, o velho Buk, você sabe, não tava nem aí pra casa do chapéu...

– Os beats propunham transformações e mudanças objetivas, em meio ao auge do American Way of Life... Apesar de uma luta invencível, eles definitivamente criaram uma estética que repercutiu e influenciou a contracultura e a arte pop – explica Pinheiro. – Bukowski é um subproduto tardio dessa geração. Veio na esteira de John Fante. Era um cara que não fazia pregações, não tava nem aí para a influência do jazz, do bebop ou rock’n’roll...

Bukowski é um autor emblemático. E, assim como os beats, ajudou a lapidar uma estampa, identidade ou feição editorial para a L&PM. Se não chega a um best-seller, não deixa de vender – e bem. Cerca de 200 mil exemplares já foram catapultados de prateleiras físicas e virtuais para o colo de milhares de leitores.


– Nem discuto a qualidade de cada um dos textos... O que é muito normal... Caso da Gallimard, que publicou obras menores de Proust, uma, inclusive, que era uma merda. Seria um cabotino se afirmasse que é o autor de maior retorno comercial, embora tenha uma excelente performance. E cresce a cada ano, vende muito mais do que um tempo atrás. Além de tudo, Bukowski tem a ver com a nossa história. Representa o espírito de transgressão que deu origem à editora, criada por dois moleques de 20 e poucos interessados em publicar livros.

Frases:

“Passar fome não cria artista nenhum. Eu realmente passei fome pela minha arte, para ter 24 horas do dia para poder sentar em frente ao papel e escrever. Eu abri mão de comida e de tudo. Eu era um maluco dedicado. Mas o problema a ser visto é que um maluco dedicado precisa saber fazer o que propõe. Dedicação sem talento é algo dispensável, sem sentido. Mas o problema é que todo mundo acha que tem talento... É complicado... E como você pode saber que tem? Você nunca sabe. É um tiro no escuro. E aí se não dá certo você se torna um cara civilizado, se casa, tem filhos, passa o natal em família... Eu me mataria. Eu não aturo uma vida em família, uma vida de empregado, ou algo parecido. Se não fosse a escrita, talvez me suicidaria. Feliz natal, feliz aniversário são as mais doentias das doenças. Então eu segurei a onda, tive alguma sorte, as pessoas gostaram...”.

“As pessoas casam, como se o casamento fosse uma vitória. As pessoas têm filhos, como se tê-los fosse uma conquista. São coisas que a maioria das pessoas tem que fazer, porque elas não têm nada mais para fazer de suas vidas. Não tem nenhuma glória, estima ou fogo... É algo muito muito supeficial... E a Terra está cheia deles”.

“Eu apenas não gosto de pessoas, apenas gosto de mim mesmo. Há algo de errado comigo. Eu não sei o que é, mas não vou tentar curar. Tudo o que eu quero é tudo o que eu sou”.

“Deus não é normal, a natureza não é delicada, ela não quer nem saber. Mas eu me importo. Se eu vejo uma coisa matando à outra, eu não gosto”.

“Eu não sou ícone, não sou um líder, apenas tomo meu vinho e aposto em cavalos. Não tenho mais nada a dizer. Quanto menos eu digo melhor eu me sinto. Não é sempre que devemos ter algo a dizer ou fazer. As pessoas não conseguem se livrar desse ciclo: acordar, trabalhar e dormir. Quando estou deprimido, simplesmente durmo durante três a quatro dias, bebo alguma coisa, e depois saio renovado”.

2 comentários:

Anônimo disse...

Esse é realmente O CARA!!!....pra sair da mediocridade da vida q a maioria das pessoas levam - e acham q é a melhor coisa do mundo , só tendo muito culhão....vida longa ao Bukowski porra.......

Roger disse...

Buk....... Espero te ver ainda no inferno..... Tua literatura é como uma buceta nova. Deliciosa. Diferente de tudo. Grato, oh grande mestre, por sua inqualificavel contribuição á literatura. Só um bêbado poderia entender..... Salve...