NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Friendly Fires um ano antes de tocar no Circo Voador

Realizada há um ano, a longa entrevista com o vocalista e principal compositor do Friendly Fires, Ed MacFarlane, transcrita abaixo, serve para observarmos o quão rápido gira o furacão do hype nesse mundo pop. Os caras contavam apenas com um single. Mas, tudo bem, era o single. Macfarlane e seus parceiros ainda não haviam descoberto o poder sedutor e dançante das escolas de samba, que vieram a adicionar em seu disco de estreia e no single Kiss of life, que apresentam logo mais no Circo Voador.

Escrevo do Brasil e posso ouvir suas canções sem pagar absolutamente nada por isso. Isso me fez conhecer um novo artista e fazer uma matéria sobre... Há alguns anos isso seria mais difícil de ocorrer... Como se sente em relação à velocidade que a comunicação tomou nos últimos anos, principalmente no mundo da música?

EM: Isto me faz sentir bem e mal, ao mesmo tempo. Ficou satisfeito em ver que o Myspace é realmente uma ferramenta eficiente para fazer nossa música alcançar públicos tão amplos e distantes. Mas, ao mesmo tempo, sinto falta da sensação de realmente descobrir uma nova banda. Sinto falta da tarefa de caçar música em sebos e lojas, assim com o prazer de ter em mãos um CD ou um vinil e, finalmente, de ter a expectativa antes de poder escutá-lo. As coisas acontecem muito rapidamente nos dias de hoje.

Há alguma pressão no fato de a banda constar em praticamente todas as listas que apontam as maiores promessa do ano? Como é estar no centro do hype com apenas um single lançado?

EM: Bom, gostaria de acreditar que é porque somos realmente uma boa banda. Estou satisfeito pelo que conseguimos com nossos dois EPs e com o single, Paris, porque pudemos construir lentamente todo este hype em volta da gente. Nós trabalhamos de uma maneira mais tradicional. Não fomos catapultados pela imprensa e nem colocamos a faca na garganta das pessoas para ouvirem nossa música. Com certeza há uma certa pressão, mas acho que, principalmente, para mim. Quero que todas as nossas músicas soem como perfeitas canções pop e, às vezes, isso não é tarefa das mais fáceis.

Vocês fazem parte de uma nova geração de ídolos indie que é catapultada ao estrelato mesmo antes de qualquer grande gravadora sinalizar sequer intenção em contratar determinado artista. O mundo da música está em constante mudança, mesmo que não saibamos aonde vai dar, mas parece que essa onda hype gira mais rápido ainda.... Como lidam com isso?

EM: Eu realmente não quero e nem pretendo ser um ídolo da geração indie. Então espero que isso não aconteça conosco. Talvez você esteja se referindo a músicos como Pete Doherty, que usam a credibilidade de seu status para manter as pessoas interessadas em colocá-los nos jornais e revistas de fofocas baratas. Esse tipo de coisa me aborrece bastante. Acho que "celebridade" é uma palavra praticamente sem sentido para se referir a um músico de sucesso. Essa palavra me leva a pensar em algo como um sinônimo de alguém sem talento, participantes de reality shows ou mulheres de jogadores de futebol. O mundo da música realmente está mudando. Hoje em dia, ninguém mais vende muitos discos. Para uma banda sobreviver ela depende muito mais dos shows que faz. Ainda bem que nós podemos excursionar pelo resto de nossas vidas, se isto for preciso. Acreditamos que é das melhores sensações que o mundo tem a oferecer .

Qual a sua opinião sobre programas como Myspace, Youtube e torrents de compartilhamento de arquivo? Você usa essas ferramentas? São todos poderosos instrumentos de marketing, principalmente para artistas novos. Como se sente usando e, ao mesmo tempo, sendo usado como cobaia de todos esses mecanismos?

EM: Você pode contabilizar milhões de visitações na sua página do Myspace ou nos vídeos que disponibilizamos no Youtube, mas mesmo assim você permanece falido. Por um lado é bom, mas acho que este tipo de coisa não beneficia os verdadeiros amantes da música. É realmente um saco tentar achar um mp3 em boa qualidade nestes programas de troca de música. Eu e o baterista somos fãs do Beatport, que você pode baixar arquivos em WAV. Nós estamos dispostos a pagar. Acho também que a Internet motiva as bandas a se esforçarem ainda mais para fazer com que seus trabalhos sejam atrativos. Radiohead é um bom exemplo do que estou falando. Os verdadeiros fãs da banda vão comprar o álbum nas lojas, porque eles querem o pacote completo, os adesivos, as fotos e o libreto.

Acredita que a banda chamou a atenção das pessoas por quais motivos? Qual característica sonora credita essa diferenciação em relação aos milhares de artistas indie que nascem diariamente na Inglaterra?

EM: Nosso som é original. Nós fazemos as coisas do nosso jeito. Tentamos escrever canções acessíveis, mas ao mesmo tempo interessantes. Eu gostaria de pensar que estas são as razões pelas quais as pessoas estão interessadas na gente. Como banda, acho que nós temos uma sensibilidade pop bastante aguçada, além de termos canções muito melhores do que a maioria das bandas que estão por aí. Nós mesmos que gravamos e produzimos as nossas músicas. Não entramos num estúdio e deixamos alguém de fora fazer todo o trabalho. Somos escravos da sonoridade perfeita, a luxúria na medida certa, no tipo de sintetizador. Nós temos cuidado com os mínimos detalhes.

Batidas dançantes, cowbell, guitarras espaciais, vocais em falsete... Tudo transformado numa mescla dançante de rock, eletrônica e pop. Poderia detalhar da onde partem as influências do FF?

EM: Nós gostamos de tudo isso, mas ao mesmo tempo todos nós temos leves preferências por certos tipos de som. Nosso baterista é um tremendo fã de house e techno... Carl Craig, Ricardo Vilalobos, Kerri Chandler, entre outros. Já nosso guitarrista é um grande fã da sonoridade épica e luxuriante do post-rock, bandas como Growing, Do Make Say Think e My Bloody Valentine. No meu caso, sinto que meu coração está mais próximo de coisas old-school disco, coisas bem pop como Chic, Evelyn "Cahmpagne" Kings e os Jacksons. Sua descrição foi bastante apurada.

O que você anda escutando?

EM: No momento, Andomat 3000, Holger Czukay, Zapp and Roger, Justus Kohnke, Holy Ghost e o novo disco do Jamie Lidell!

Quando planejam lançar um álbum inteiro? Já está gravado? Ou ainda planejam entrar em estúdio? Algum contrato prestes a ser assinado?

EM: Acabamos de passar dois dias em estúdio gravando bateria, elas estão soando super bem. Algumas faixas são gravadas inteiramente em casa, algumas outras fazemos em estúdio. Estamos bem próximos de terminar o álbum e esperamos lançá-lo até o final de junho, para o período dos festivais. Acabamos de fechar contrato com a XL Recordings (Adele, White Stripes e Radiohead), sentimos que esta é a casa ideal para nós.

Paris é uma das mais fortes e pegajosas canções pop das últimas semanas, ou meses, ou que eu ouvi em um bom tempo... Assim que terminou de compor já sabia que era um potencial hit?

EM: Eu escrevi, toquei e gravei a música toda numa noite. Apenas funcionou e fluiu da maneira certa. Assim que terminada, sabia que seria um grande single. Foi um momento especial para mim.

"One day, we're gonna live, in Paris, I promise, I'm on it!" Esse é um dos versos mais comentados no meio da moda, das pessoas ditas "antenadas", DJs e etc...

EM: Eu acho o máximo que as pessoas estejam cantando a música, mas não importa se estas pessoas são lançadoras de moda ou qualquer um.

Paris é uma palavra mágica? Parece que as pessoas ouvem e já saem em êxtase, ou começam a sonhar...

EM: Sim. Paris é um lugar muito romântico, que consegue reunir pensamentos de amor e felicidade. Todo mundo quer estar apaixonado e feliz. Esta é a intenção da música.

E Paris o fascina por quais motivos?

EM: Eu, na verdade, quero viver em Berlim. Desculpe-me por destruir a imagem. Mas Paris é uma cidade fascinante, amo as pessoas daquele lugar. Apenas estive lá duas vezes e as duas oportunidades foram o máximo. Eles realmente apreciam os artistas, Minha noite favorita foi quando nós tocamos em uma festa privada em Paris. Foi algo tão exclusivo e cheio de classe, muito diferente do que tocar em um desses grudentos e fedorentos pubs ingleses.

Ao mesmo tempo que são inspirados por música eletrônica, vocês não usam samples, mash-ups, elementos dessa cultura de produção eletrônica... Por que não? É esse o ponto que os define como uma banda de rock?

EM: Quando tocamos ao vivo temos bateria, baixo e guitarras na linha de frente. Os sintetizadores não são pensados como destaque, mas sim para se misturar e se integrar à música. Ser eletrônico apenas como um meio de ser algo é perda de tempo. Existem milhares de bandas que usam sintetizadores sem uma real intenção, apenas por usar, pois sentem que podem adicionar uma camada, mas acaba sempre soando fora de contexto.

Vocês soam com a urgência de uma banda de garagem, mas como um pop sujinho e dançante…
EM: Nossa principal intenção era escrever música pop dançante com uma pegada melódica forte. Kompact Records tem sido uma grande influência. Nós amamos como o selo tradicionalmente combina batidas fortes de house com melodias afetadas e luxuosas. Amamos este senso de euforia quando os sintetizadores entram forte e, de repente, te fazem querer levantar as mãos para cima.

As suas canções levam as pessoas a querer dançar… O caminho é esse?

EM: Bem, acho que outras bandas já fizeram este tipo de coisa. Não queremos ou temos a intenção de fazer isto Nós vivemos no countryside londrino, então não estamos envolvidos por esta cena, bandas ou nas rodas do mundo fashion ou social. Apenas queremos fazer as coisas de acordo com a nossa vontade e inspiração, amar as músicas que escrevemos e tentar não se atolar por toda a merda que rola no East London.

Vivemos num tempo de multiplicidades, fugacidade, efemeridade, velocidade de reciclagem impressionante... A cena musical é um dos exemplos mais claros de toda essa loucura... Além das novas bandas, há os novos rótulos... como lida ou analisa esse desespero de cristalizar e de registrar o que não se compreende direito com um novo nome? Acha que revistas como NME perderam a cabeça?

EM: Acho que analisar música é um tanto quanto estranho. Ponto final. Novas cenas pipocam toda semana, porque a imprensa precisa sempre de coisas sobre as quais escrever. A única coisa que as bandas devem fazer é se preocupar em escrever boas canções e esperar que as pessoas entrem na onda e que para eles tenha um significado. A imprensa fará sempre o que puder para se manter no mercado. Podem escrever o que quiserem, mas se o que estas "cenas" produzirem não for boa coisa, o público em geral não vai dar a mínima.

Como as pessoas reagiram aos primeiros shows e turnês realizadas na Europa? O que um público precisa ter para te deixar eletrizado no palco?

EM: Sim, é brilhante contar com um público que cante as nossas músicas durante todo o show, especialmente em países em que nossa música não é a primeira língua. Me disseram que o nosso show em Paris já está esgotado, o que é fantástico. Estaria mentindo se dissesse que não me preocupo ou me animo se as pessoas estão dançando ou não, mas quanto mais shows nós fazemos percebo ainda mais que as pessoas apreciam as coisas e demonstram isso de várias e particulares maneiras. Nem todo mundo quer ficar dançando, algumas pessoas preferem apenas assistir e entrar na onda dessa forma.

Vocês participam pela primeira vez dos principais festivais de verão da Europa. Como está a expectativa?

EM: Iremos tocar em quantos lugares for possível. Imploramos pela reação inicial de tocar para um público que nunca nos viu anteriormente. Não importa se gostarem ou não de nós. Excursionar pode se tornar cansativo, mas estamos tão acostumados uns com os outros agora. Passamos a maior parte de nosso tempo fora da música juntos. Não consigo nem lembrar da última vez que discutimos! Dedos cruzados.

Um comentário:

Joao disse...

Entrevista de altíssimo nível! Muito bem preparada e respondida à altura! Legal foi o cara reconhecer seu preparo. Parabéns!!!