
– Tive que reler Dom Casmurro, do Machado de Assis, para achar a Malu. Ela é um pouco como a minha Capitu – define a atriz. – O Marcelo (Rubens Paiva) se inspirou no romance para escrever a personagem. E o filme é todo narrado pelo Luis. Aos olhos dele, a Malu é uma mulher super misteriosa. E é isso que desperta um ciúme que ele nunca havia sentido. Marcelo é um carioca sob a pele de um paulista. E eu, o contrário. Tive que aprender a jogar bola. Há muito tempo não andava de bicicleta. Fiquei com receio, mas vi que a gente não esquece.
Conquistador barato
Como o romance, o filme joga luz nas diferenças culturais entre Rio e São Paulo. Personagem de Marcelo Serrado, Luis é um conquistador bem-sucedido. Dono de um espaço cultural multimídia em São Paulo, goza a vida com as mulheres aos seus pés. Até que, para se livrar do estresse da frenética capital paulista e dos rolos que por lá apronta, vem ao Rio para uma temporada. Malu cruza o seu caminho para modificar a forma como enxerga a sua própria vida.
– Ele começa a gostar dela naquele esbarrão... A partir daí, entra numa espiral de questionamentos e passa a se confrontar com o que ele havia sido durante a vida inteira – explica o diretor. – Ele não aceita sua condição de apaixonado e começa a se projetar nela. Quando ela pega uma chamada dele no celular, mas não atende direito, ele se vê. Porque era assim que ele agia com as outras mulheres. Então, é uma brincadeira de relacionamento. Ela é uma carioca, livre e descolada. Ele é um paulista, da noite. É uma comédia que observa as relações humanas, a impossibilidade de se permitir gostar do outro.
Após encenar o espetáculo No retrovisor (2007), baseado em outro romance de Marcelo Rubens Paiva, o ator Marcelo Serrado foi atrás de Malu de bicicleta. Apresentou ao autor a vontade de retrabalhar o texto em tratamento cinematográfico. Até que propôs a ideia a Flávio Tambellini. Acostumado a adaptar romances para o cinema, assim como fez em Bufo & Spallanzani (2001), de Rubem Fonseca; e Passageiros: segredos de adulto (2006), inspirado no romance de Cesário Mello Franco; o diretor abraçou o projeto e passou a reescrever o roteiro.
– O Marcelo (Rubens Paiva) é um autor muito cinematográfico. Você imagina as cenas. Mas, numa adaptação, é preciso criar um recorte – analisa Tambellini. – O livro trata das reminiscências dele. Quis privilegiar as questões desse homem moderno, incapacitado de aceitar a hipótese de ser seduzido. O curioso é que o filme começa falando desse conquistador numa linguagem machista. Até que esse cara vai se desmontando. O filme acompanha a derrocada desse sedutor. Quando ele conhece a Malu, passa a ter delírios. Ele começa a querer reconquistar as outras que deixou pelo caminho porque eram fáceis. Mas ele não consegue mais nada. Achei uma profundidade dentro dessa brincadeira. Não queria algo besteirol, raso ou novelesco.
E Marcelo Serrado completa:
– Ele não sabe o que é se entregar para uma mulher. O ciúme o corrói totalmente. Ele era um bon vivant e enlouquece. Passa a vr imagens dela em situações. O filme invade o inconsciente de um sedutor.
Quatro mãos, dois anos e um roteiro pronto
Para finalizar o roteiro da fita, que conta também com os atores Thelmo Fernandez, Daniele Suzuki, Marjorie Estiano, entre outros, Flávio Tambellini levou quase dois anos em reuniões com o escritor Marcelo Rubens Paiva.
– No início, trabalhei sozinho. Quis me inserir na história, porque os romances te dão essa possibilidade – explica o diretor. – O autor geralmente tem apego, não aceita mudanças. Mas o Marcelo chegou para entregar a essência.
Filmada em quatro semanas em locações fixas no Centro e no Leblon, além de externas rodadas nas nas praias de Ipanema, Arpoador e na Pedra Bonita, a produção acena um Rio de Janeiro solar, em contraponto a uma São Paulo cinzenta. Idealizador do projeto, Marcelo Serrado aposta na força da história.
– Todo mundo que lê adora e se identifica com o livro. O Flávio também é fã do Marcelo. É uma força natural que carrega o texto. E, para o filme, ganhamos um roteiro muito forte e bem amarrado, que foi trabalhado à exaustão pelos dois – conta Serrado. – O grande lance do filme é que ele não é um pastelão à Ben Stiller, mas também não chega a ser um Closer. Não é uma comédia explícita ou banal. O humor e a comicidade estão nos acontecimentos.
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