NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Guizado - Sopro novo e ancestral em 'Calavera'

Vozes e sons enfumaçados ecoam das profundezas de uma floresta tropical, urros entrecruzados decolam no espaço e remetem a antigos rituais latinos, enquanto embalos percussivos se misturam a beats eletrônicos e levadas afro. São algumas dessas particularidades – e muitos outros molhos – que compõem a sonoridade ao mesmo tempo ancestral e moderna salpicada pelo trompete do paulistano Guilherme Mendonça, vulgo Guizado. Para os mais atentos ao que acontece na nova música brasileira, sua alcunha é carimbo fácil de ser encontrado, impresso nos créditos de dezenas dos mais interessantes títulos lançados atualmente. Após emprestar seus dotes a nomes como Céu, Nação Zumbi, Cidadão Instigado e Karina Buhr, entre muitos outros, Guizado decidiu dar sopro criativo em benefício próprio. Em 2008, arremessou na praça o experimental e urbano Punx, e agora, dois anos depois, dispara na rede o tropical e onírico Calavera – disponível para audição e download gratuito através do portal Trama Álbum Virtual.

– No primeiro disco eu estava muito envolvido em descobertas eletrônicas. Escutava muito Kraftwerk, o pessoal do hip hop de vanguarda, underground, ligado ao instrumental, como os caras do Prefuse 73... – enumera Guizado, em entrevista por telefone, de sua casa no bairro de Pinheiros, em São Paulo.

Guizado elegeu o trompete por acaso. Aos 16 anos, já dedilhava sua guitarra, mas sensibilizou-se pela engenhoca de metal que viu largada no canto da casa do avô de um amigo. Sócio de um pequeno sebo, começou a riscar as bolachas de Miles Davies, Dizzy Gillespie na vitrola de casa. Perseguia as notas como num rito, mesclando disciplina e intuição. De lá até o primeiro álbum, criou novos fetiches. Vasculhou sintetizadores e máquinas antigas, aprendeu a usar o Game Boy para programações e tratou de processar e manipular eletronicamente o som do seu trompete. Apelo que marca sua carga autoral e criativa.

Punx é o resultado do que eu vinha tocando ao vivo. As músicas eram mais desconectadas, com muitas colagens, enquanto Calavera é um passo à frente. Decidi criar um fio condutor para o disco.

O tal fio a que se refere o músico ganha liga não apenas através dos arranjos instrumentais que trafegam por rock, jazz, eletrônica, dub e muitas outras praias. A eles, Guizado adiciona letras e linhas vocais, cantando pela primeira vez em um de seus trabalhos. Para a empreitada, recrutou o amparo de vozes femininas: Céu e Karina Buhr.

– A ideia é tentar ser o mais direto possível, estabelecer um equilíbrio maior entre a comunicação direta e o abstrato – explica. – Acho que a letra tem esse papel, entre outros. Escutava Pink Floyd e me ligava sempre no instrumental. Até que me caiu a ficha de que o vocal poderia também soar como um instrumento, servir como um respiro. Céu e Karina me ajudam a construir essa ideia, e têm funções bem distintas no álbum.

Em seus versos, Guizado passa longe de um contador de histórias, de um narrador de experiências próprias ou alheias. Sua lírica carrega uma gênese visual, lisérgica. Serve como adorno, sempre revestida por efeitos diversos.

– Ao mesmo tempo em que compõem sentidos e passam mensagens, as vozes criam um clima. Procurei palavras que fortalecessem essa intenção, por isso privilegiei as vogais, os sons abertos. Busquei o som das palavras, mas sem perder o significado poético.

Além dos vocais e de seu trompete guiando cada uma das faixas, o músico pilota traquitanas diversas no disco. Teclas vintage como Minimoog, Júpiter 6, SH3A e Wurlitzer garantem colorido especial a Calavera, constituído sob inspirações orquestrais traçadas por nomes como Henry Mancini, Herb Albert e Tijuana Brass, assim como pelo trompete malicioso do mexicano Rafael Méndez (1906-1981). O elo entre a sonoridade erudita e as melodias popular, folclórica e carnavalesca conduz a uma viagem sem fronteiras bem definidas. Guizado explora conexões entre tradições musicais aparentemente descoladas, e, depois, as atrela ao porto seguro da música brasileira.

– O disco é o resultado de muitas viagens, comecei a conhecer melhor a música feita em outros lugares.

Canções como O marisco nasceram em algumas dessas escapadas da capital paulista.

– Ela tem um clima de praia, mais leve... Foi feita numa viagem – conta. – Entendi que as culturas mexicana, hispânica e latina traçam um elo com a música do Carnaval de Olinda, por exemplo; aquelas melodias tristes, em tom menor. Achei essa influência na música dos Balcãs e dos mouros também. Foi importante encontrar traços dessas culturas no Brasil. O trompete é muito rico nesses países.

Calavera – caveira em espanhol – não exibe o batismo hispânico em vão. Fascinado pelos cultos populares, em especial a Festa do Dia dos Mortos, celebrada no México, Guizado mergulhou em terrenos desconhecidos para imergir transfigurado, de corpo intacto e alma renovada.

– Buscava uma autenticidade maior. Existe uma razão espiritual para o título do álbum. Os mexicanos celebram o mistério e o desconhecido de forma festiva. Quis mergulhar ainda mais para dentro de mim, mas também me conectar ao cotidiano. É uma espécie de paradoxo. Uma vontade de entrar no mundano, viver essa festa, mas manter a espiritualidade. Sem negar qualquer um desses lados.

Ouça e baixe 'Calavera' aqui:
http://albumvirtual.trama.uol.com.br/

E mais aqui:
http://www.myspace.com/guizado

3 comentários:

§ol apena§ §ol disse...

Muito bacana sua visão e gosto sobre musica...
No ultimo ano comecaram a fazer sucesso alguns generos musicais e, a midia acabou ''excluindo'' os demais....
A pena é que a musica internacional tenha tanto poder sobre os brasileiros...

Leticia disse...

Atualiza!

Felipe Barenco disse...

Descobri seu blog hoje! :) Mandei um e-mail pra você através do facebook! Quando puder, dá uma olhada.

Abração