NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

quinta-feira, 26 de julho de 2007

The Magic Numbers - Festival Indie Rock

Sinal de tempestade, vento forte e nuvens carregadas ameaçavam estragar a festa do primeiro dia do Festival Indie Rock. Graças ao sorriso de quatro números mágicos a sorte dos cariocas estava traçada e não precisava de estrela alguma no céu para entender que nada disso iria atrapalhar a festa. Depois da apresentação do sexteto paulista Hurtmold, foi a vez dos ingleses mais simpáticos do mundo subirem ao palco.

Romeo Stodart não precisou entoar sequer uma frase melódica de suas cordas vocais ou de sua guitarra para ganhar a platéia.Bastou o músico entrar em cena que o circo definitivamente já estava armado, o picadeiro mais que arregimentado à espera de seus artistas e o espetáculo definitivamente ganho. “This is a Song” deveria ser o título padrão de toda e qualquer música produzida pelos Magic Numbers. Mais do que apropriadamente, a pérola de doces nuances fez o trabalho de enfeitiçar de vez o público presente no Circo.

Romeo Sodart e seus sorrisos, a baixista Michele e toda a sua presença mostraram que ao vivo eles são muito mais elétricos do que o simples ouvir de seus discos pode suscitar em nosso imaginário.Michele é de fato uma baixista que entende do riscado, suas linhas são de uma precisão impressionante. A moça, irmã de Stodart, e sua vasta cabeleira negra não pararam por um segundo de se movimentar no palco.

A interação dos integrantes com a platéia e as rasgações de seda ao Rio de Janeiro, onde a banda pode curtir nos três dias em que estiveram por aqui maravilhas como o corcovado e escolas de samba, mostravam que os encantos da cidade maravilhosa ainda estavam intactos e cristalizados no brilho dos olhares até certo ponto ingênuos do afinadíssimo vocalista Romeo. A introspecção dos arranjos e a intimidade que a banda dividia com o público levou seus ardorosos fãs ao delírio. “Take a Chance”, também do segundo álbum de carreira do quarteto, “Those the Brokes”, deixou claro que a noite era de muitas palmas e dancinhas suaves pra direita e esquerda.

O som dos Magic Numbers nunca se atropela e o batera Sean Gannon conduz com o maior nível de seriedade reservada a um magic-number os clássicos indies do repertório, “Forever Lost”, “Love`s Game”, “I see you, You see me”, entre outras. Cada instrumento tem o seu espaço na canção e com enorme clareza é possível notar toda e qualquer ação, seja das guitarras, maravilhosamente dedilhadas por Stodart, os pulsantes e aveludados graves do contra-baixo de Michele ou dos teclados e escaletas da tímida e encantadora Angela Gannon.

Se o início da apresentação teve a dupla de irmãos Stodart como figuras principais, no segundo tempo quem assustou pela competência e beleza vocal foi justamente a outra gordinha da banda, Angela. Não estou falando aqui dos coros e backing vocals impressionantemente afinados e bem modulados, que tanto ela quanto Michele assobiaram durante todo o show, inclusive na supreendente releitura de "Crazy in Love", da musa Beyonce. Coube a representante feminina dos Gannon ir para o centro do palco e mostrar ao público o próximo single da banda, a deliciosa “Undecided”. Aos gritos de gostosa e aplausos mais que calorosos, a platéia literalmente babava enquanto a moça, um tanto quanto encabulada, voltava para o seu refúgio, ambiente seguro e repleto de seus brinquedinhos de teclas.

A sonoridade dos Magic Numbers é repleta da inocência perdida das décadas de 50 e 60. Mamas and the Papas e Beach Boys são referências óbvias às nostálgicas melodias da banda, que estampa na cara do público um espaço-tempo poético que anda pra lá de distante de nossa esquisita e super-dotada modernidade. É curioso notar que a mágica deste quarteto londrino reside em produzir pureza e simplicidade em um mundo difuso, complexo e fragmentado. Aqui não há espaço para multiplicidades egocêntricas, labirintos angustiantes e paranóicas realidades. Sem ataque ou defesa o universo dos Magic Numbers, como não poderia deixar de ser, é extremamente onírico e cada vez mais utópico aos olhos de hoje.

Foto: L. Felipe Reis

2 comentários:

cris disse...

eu não estava lá..mas parece q foi "mágico", com trocadilho mesmo :-)
adorei o comentário:"... estampa na cara do público um espaço-tempo poético que anda pra lá de distante de nossa esquisita e super-dotada modernidade.".. a modernidade anda meio esquisita msm..q bom q ainda existem coisas e sons 'oníricos e utópicos' bjkss

marcelo alves disse...

Deve ter sido bom. Se não houvesse um Pan no meio do caminho, neste meio do meu caminho que encontro o Pan, eu teria ido. Fica para a próxima.