NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

sábado, 16 de junho de 2007

QOTSA - "Era Vulgaris"

"Era Vulgaris" soa menos explosivo ou fantasmagórico do que o clássico "Songs for the Deaf", mais inventivo e menos cativante do que seu precedente "Lullabies to Paralyse", um dos álbuns mais controversos da banda.

As guitarras de Josh Homme mais econômicas do que nos discos anteriores pontuam as melodias com menos distorção e mais ênfase rítmica. Já as letras de "Era Vulgaris" também apontam um novo ambiente e versam sobre o vazio existencial do mundo hollywoodiano e, muitas vezes, por si só caem no vazio, numa metalinguagem auto imposta criada involuntariamente por Homme.

Como não poderia deixar de ser, “Era Vulgaris” é um ótimo álbum e mais uma vez posiciona a banda em um patamar muito acima da média da produção roqueira atual. O problema é que se "Lullabies to Paralyse" não contetou a maioria dos fãs após o clássico álbum vermelho, o que frustra em Vulgaris é que este também não leva a crer que o fará. Apesar da inteligência e inquietude de Josh Homme, que nunca se repete e procura sempre novos caminhos sonoros a traçar, o novo disco é irregular e faixas como Misfit Love dão vontade de desligar o som no meio do caminho.

Apesar das questões acima, o álbum começa com uma dupla arrasadora. Turning on the Screw e uma jam session atípica abrem os trabalhos, enquanto o espírito ensandecido que leva o ouvinte a queimar combustível em alta velocidade por estradas a fora é alimentado por Sick, Sick, Sick. Esta que conta com a participação especial de Julian Casablancas do Strokes, nos backing vocals.

A esquizo-rítmica I`m a Designer abre com os versos "Minha geração está a venda" e segue a crítica com irônicas passagens, "A coisa que é real para nós é fortuna e fama, Todo o resto é como um trabalho, Isso é como diamantes na merda". A canção prepara o terreno para Into the Holow, quarta faixa do álbum; psicodelia pura pronunciada por doces notas de guitarra. Battery Acid acelera na mesma linha orgânica e enxuta, porém se arrasta em uma pseudo complexidade difícil de aturar.

O QOTSA, porém ainda é uma das maiores, mais originais e menos hypadas bandas da atualidade, os caras de fato não circulam de mãos atadas com tendências pops e nem precisam disso. A sonoridade mais etérea e alternativa aliada à psicodélicas transposições harmônicas e linhas vocais de Josh levam a crer que "Era Vulgaris" é o trabalho em que o QOTSA mais se aproxima das idéias de Chris Goss – líder do Másters of Reality, produtor de "Rated R" e colaborador fulltime na maioria dos álbuns da banda.

O toque de sensualidade que a banda sempre trouxe em álbuns anteriores também está mais leve, mas é garantida por mais uma fuck-rock song, Make It Wit Chu, numa versão menos empolgante do que a já registrada nas Desert Sessions, que contava com voz regada a álccol e cigarro de Mark Lanegan. Este, por sua vez, só aparece timidamente nos coros de River in the Road, faixa que poderia ser inteiramente interpretada por sua voz cavernosa.

O que se percebe é que a maravilhosa capacidade de Homme em organizar partes musicais a principio impossíveis de serem casadas e transformá-las em canções memoráveis se dissipou, ao menos em "Era Vulgaris". O intuito de Homme em colocar todo mundo pra dançar com seu novo trabalho se diluí na medida em que se flagra uma falta de coesão entre as canções. O que falta ao disco não é inventividade rítmica, exploração de geniais sonoridades e timbres, ou dinâmicas surpreendentes, como em 3`s & 7`s, o que deixa a desejar é a formulação final das canções.

"Era Vulgaris" é pesado, escuro e elétrico como mencionou à impressa Homme. E de fato é um álbum mais pesado que os anteriores, não pela força de seus instrumentos, mas sim pela atmosfera mezzo garageira e experimental eletrônica. Boas idéias nunca irão faltar ao líder da mais nova one man band do pedaço, mas é preciso tomar cuidado para que tamanha profusão criativa não atrapalhe a construção de hits poderosos como foram The Lost Art of Keeping a Secret em "Rated R", No One Knows em "Songs for the Deaf" e In My Head em "Lullabies to Paralyse".

Confira: www.myspace.com/queensofthestoneage

Um comentário:

Fellipe Pessôa Amarelo disse...

A estrutura das músicas realmente está diferente. O esquema verso refrão que funcionou tão bem nos outros cds não foi tão explorado. A atmosfera está mesmo bem garageira. Não supera o Songs for the Deaf, mas eu gostei do cd.

Um abração,