NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

quarta-feira, 23 de maio de 2007

A volta dos que não foram

Em meados dos anos 90, a influência grunge começou a perder sua força, ícones e espaço na mídia. Kurt Cobain se suicida, Laney Staley se desintegra nas drogas, o Soundgarden se desfaz e as camisas de flanela, emblema de um “movimento”, pouco a pouco vão sendo guardadas e depositadas nos armários de jovens americanos e de todo mundo. Porém, em Nova York, mas precisamente na Escola de Artes Cênicas, Julliard School, dois aspirantes a atores se encontram. São eles: Dimitri Coats – filho de um professor de física e de uma mãe polonesa, nascido e criado entre viagens a Europa e cidades da costa leste americana –, e Melaine Campbell – nascida e criada em Dallas, Texas –, e pretendente a bailarina profissional, aluna da Hartford Ballet.

Em Julliard estudam Shakespeare e outros clássicos da literatura, ensaiam sem parar e utilizam uma infinidade de “aditivos”, naturais e sintéticos, de toda procedência a fim de testar seus impulsos em busca de expressão e fruições artísticas profundas, seja lá o que isso quer dizer. Rapidamente se apaixonam e percebem a obsessão mútua por música e a afinidade de gosto por bandas. Beatles, Kinks, Black Sabbath, Stooges, MC5, Nirvana e Sonic Youth, são os ingredientes básicos que vão sendo adicionados aos experimentos sonoros de Dimitri. Juntos deixam a Julliard School, e num rompante confuso e pós-adolescente seguem em busca de mais liberdade para a vida a dois que se inicia. Transposição de regras, aventuras libertinas, viagens narcóticas fazem os dois popmbinhos se tacarem nas estradas da vida, a procura de um lugar barato o bastante para que pudessem guardar os discos de vinil de Dimitri, instrumentos musicais e os gatos do casal.

Estamos em 1997. Início de uma trajetória incerta de mais uma banda alternativa americana. Até então, a futura “baixista mais quente da cena” não tinha a mínima idéia do que seria tocar um instrumento musical. Em uma rápida e mal intencionada visita à casa de seus pais, ela decide roubar a guitarra e um amplificador de seu irmão e compra seu primeiro baixo. Alimentada pelo sonhador Coats, Melanie começa a aprender a tocar o instrumento, a fim de poder acompanhar as músicas do namorado. Centenas de devaneios melódicos e impulsos criativos depois, começam a alinhavar o sonho mútuo de rodar o mundo em cima de palcos mambembes e se atochar em clubes cavernosos da Europa e dos EUA. Começam a partir daí uma peregrinação “kerouaquiana”, cujo autor de On the Road ficaria orgulhoso. Sua influência nômade e libertária pelas estradas norte americanas é posta em prática literalmente pela dupla.

Partem de Nova York rumo a São Francisco. A cosmopolita cidade californiana, porém, não é compatível com os bolsos furados do casal. Decidem então se instalar em Portland, no estado do Oregon. Mas ainda não é tempo de satisfação e a cinzenta e industrial cidade é o estopim para uma crise depressiva de Dimitri e, uma subsequente tentativa de suicídio. Certos de que a chuvosa Portland não era o ambiente ideal, voltam para a costa leste e se instalam na cidade de Boston, no Maine, cidade onde Dimitri fora criado. Surpreendentemente, depois de dois meses, eles se cansam do lugar e partem para a Filadélfia. Instalam-se numa pequena casa e passam a divulgar no boca-a-boca seus próprios shows. As casas começam a encher e a banda começa a abrir shows de artistas famosos, como Marilyn Manson, Melvins e J. Mascis and the Fog. Em 1999 acertam a escolha do primeiro baterista oficial, Mike Ambs, e excursionam com os amigos do Delta 72, e com os, até então novatos, White Stripes.

Gravam seu primeiro disco num período de oito dias, desembolsando pífios cinco mil dólares, e em 2001 o lançam pelo selo indie de Chicago, File 13, propriedade de amigos que os dão uma força. A partir daí um sem número de inferninhos e clubes de pequeno porte os recebem para tocar, e a banda aproveita para vender discos no porta malas de sua decrépita van. Recrutam Jason Kourkounis, baterista do Hot Snakes, e assinam com a gravadora V2, depois de serem tentados por propostas de diversas grandes companhias, que relança em setembro de 2002, Fall of the Plastic Empire.


O álbum, totalmente concebido e produzido numa garagem, tem cheiro e soa a combustão motora. O vocal urgente de Dimitri incendeia melodias punk/metal, numa sonoridade derivada da era Bleach do Nirvana, riffs sabbathianos e Stooges, tudo isso adicionado a uma atmosfera de cidades cinzentas, caos, fumaça e barulhos distorcidos por big muffs russos e wah wahs envenenados. Excursionam novamente por mais dois anos ininterruptos, acompanhando turnês de bandas consagradas mundialmente, como Queens of the Stone Age e Audioslave, além de percorrer a América através do festival itinerante Lollapalooza, em 2003.

Começam então a gravar o primeiro disco por uma grande gravadora e com um bom orçamento cobrindo as despesas. Escolhem George Drakoulias (Black Crowes) como produtor e investem pesado no Ocean Studios em Los Angeles. Estão prontos para estourar, e em cada show pela Europa e EUA a explosão inovadora do trio segue arrebatando fãs. Arranjos inovadores, combinações de diversos amplificadores e guitarras, experimentos mirabolantes para cada faixa do álbum. Músicas, uma a uma, lapidadas de acordo com a necessidade de cada melodia, ou seja, pianos, gaitas, baixo, batera e muitas guitarras são adicionadas.


Amigos, como o cantor Mark Lanegan, aconselham Dimitri a não limitar suas influências, o que leva nosso aspirante ao trono de guitar hero deixar fluir suas inspirações musicais para as mais diversas vertentes, sem preocupações acerca da unicidade estética e sonora que o novo trabalho deveria ter. Diversidade musical era o lema da vez e um novo estilo de composição era testado. Grandes álbuns da história do pop/rock serviram de conceito, canções com estruturas bastante diferenciadas umas das outras faziam a cabeça de Dimitri, que buscava produzir canções aos moldes de clássicos, como Rubber Soul (Beatles), Let it Bleed (Rolling Stones) e Village Green Preservation Society (The Kinks).

“Leave no Ashes”, no entanto, pega carona em sonoridades que vão de Nirvana a Oasis, Queens of the Stone Age a AC DC. Certamente foi um dos lançamentos menos observados do ano de 2004. No Brasil, então, pouquíssimas pessoas tiveram a oportunidade de ouvi-los. A gravadora que os contratou – V2 Records, que fechou as portas em 2006 –, resolveu abortá-los de sua linha de divulgação, propaganda e promoção e, após excursionar com a A Perfect Circle e, com os novos reis do metal, Mastodon, a banda entra em colapso, o casal se separa e o baterista Jason Kourkounis se retira da banda.

Não era o fim do jogo, mas sim, hora de lavar a roupa suja. O grupo aborta as turnês por quase um ano. Tempo suficiente, no entanto, para mais um impulso nômade. Instalado em Los Angeles, Dimitri começa a compor novas canções, fazer shows locais e batalhar com sua ex-gravadora o direito de receber uma boa grana, como parte do encerramento do contrato. Com o dinheiro ganho um novo disco é produzido e gravado por Dimitri, que se reconcilia com Melanie e recruta o baterista Pete Beeman para a mais nova etapa. Talvez pela frustração de ter batido na porta do sucesso e não ter sido reconhecida, como muitos de seus contemporâneos, em sua grande maioria inferiores musicalmente aos Burning Brides, o que se ouve no novo trabalho do trio é uma volta as raízes garageiras.

“Hang Love”, que já vazou na net, mas só será lançado em meados de junho, é menos criativo em sonoridades do que seu antecessor, “Leave no Ashes”. O disco tem uma produção menos polida e inventiva, assinada pelo próprio líder da banda Dimitri Coats, que investe em um som mais pesado, denso e, talvez por isso, infelizmente não leva a crer que a banda conseguirá sair do lamacento cenário alternativo norte-americano. O Burning Brides navega uma década antes da explosão de retomada grunge que deve desembocar em alguma década futura.


Contratados por um pequeno selo, Modart Recordings, “Hang Love” será distribuído pela Caroline e aterrisa nas rádios com o bom single “Waring Street”. Os Burning Brides começam do zero novamente e, para os que não o conhecem, ainda há chance de correr atrás de seus discos anteriores em benditos programas como Soulseek e E-mule. Não perca tempo, procure pelos incansáveis nômades norte-americanos.

Acesse: www.myspace.com/burningbrides

2 comentários:

Fellipe Pessôa disse...

Que história, hein? Vou dar uma ouvida.

Um grande abraço,

Luiz Felipe Reis disse...

Fala Pessôa! Bom tê-lo por aqui.
Uma banda que tinha um futuro promissor pela frente, apostava no som dos caras. Mas agora, acho que ficou tarde pra eles. Espero que me surpreendam, e que eu esteja errado.

Abraços!