NOTAS SOLTAS E RUÍDOS ESCRITOS

segunda-feira, 2 de junho de 2008

New things






Após um estafante dia de trabalho decidi caminhar em direção aos intermináveis chopes do Baixo-Gávea, que varam madrugadas e cartões de crédito, sempre a postos e insones. Ao me deparar com a charmosa, mas careira, loja de CDs (?!), Tracks, não titubeei e adentrei o recinto. Ali, uma profusão de CDs intocados – como virgens santas doidas para serem acariciadas, bulinadas e ouvidas pelo menos por uma única vez – eram cuidadosamente organizados a fim de, pretensiosamente, seduzir algum desmiolado a desembolsar 60 pratas.

Pobres CDs; os larguei sem piedade, ou nostalgia, e parti rumo ao fundo da loja, onde uma minguada coleção de livros jazia disposta nas curtas e empoeiradas prateleiras do pequeno reservado dedicado aos amantes da literatura – musical, diga-se de passagem. E de passagem, como quem não quer nada, de uma hora para outra, senti-me entorpecidamente livre, assim como as frenéticas batidas do grupo afrobeat do Brooklyn, Antibalas, que explodiam quentes pelas caixas de som do local. Tomado de assalto pelas batidas negras que, àquela altura, subjugavam sem cerimônia meu já abalado inconsciente, tratei de apanhar duas pequenas jóias editadas pela Conrad.

O primeiro, "Abutre": obra de estréia do poeta, músico e escritor negro norte-americano, Gil Scott-Heron, ou, como preferem, um dos pais do Rap – quando o termo ainda significava ritmo e poesia. O segundo, "New thing": título que, para mim, era realmente novidade. Folheei suas poucas mais de 200 páginas e me interessei de imediato pela história escrita pelo coletivo literário Wu Ming, que narra o florescer da cultura afro-americana em fins da década de 60. Saquei no impulso meu cada vez mais fino, surrado e esvaziado cartão magnético à débito e silenciei o espírito com minhas duas pequenas new things.















New Thing

"New thing" não é apenas um romance, mas sim, como seu autor, Wu Ming 1, assinala: “um objeto narrativo não-identificado”. Assim como sua obra, o autor italiano e não chinês, como o nome sugere, também faz parte de um "coletivo de escritores não-identificados": batizado Wu Ming. Lançado em março pela Conrad, a obra usa e simula arquétipos do jornalismo investigativo, como depoimentos, entrevistas, artigos e notas para desenvolver um romance calcado em uma suposta realidade: a América negra nos turbulentos anos 60, onde as lutas de classe que se desenrolaram no período e o surgimento do free jazz servem como pano de fundo para uma onda de crimes e assassinatos que invadem os bairros negros de Nova York.

Seguindo a linha da chamada narrativa coral – consagrada no cinema por Robert Altman –, e na história oral de livros como "Mate-me por favor", de Legs McNeil, o autor cria uma verdadeira multidão de narradores-personagens, cujas histórias se encontram e se entrelaçam. Composto por uma extensa gama de entrevistas, documentos e anotações diversas o material condensa a partir de elementos distintos e, por vezes, desconexos uma rede de informações que mistura no mesmo turbilhão, jazz, cultura negra, política e violência.

A partir de depoimentos, ora atuais, ora de arquivo, o livro narra uma história em que as lutas pelos direitos dos afro-americanos no Brooklyn da primavera de 1967 ganham destaque. Exatamente um ano antes do explosivo 1968, quando o establishment norte-amerciano já estava de pernas para o ar, Martin Luther King liderava os protestos contra a guerra no Vietnã, Stokely Carmichael disseminava por toda parte a filosofia Black Power, assim como em Newark e Detroit conflitos de rua eram deflagrados por questões raciais, deixando dezenas de mortos e milhares de feridos. Na música, o título de um célebre álbum de Ornette Coleman passa a batizar um novo gênero musical: o free jazz, ou melhor, a new thing.

Já no Brooklyn, em Nova York, o assunto que mobilizava a comunidade local era uma misteriosa série de assassinatos que, em poucos meses, deixara mortos alguns dos mais ilustres representantes da vanguarda jazzística da cidade. Enquanto John Coltrane - um dos maiores músicos do século XX - morre consumido por um tumor, o misterioso assassino, apelidado "Filho de Whiteman" não pára de matar jazzistas famosos, ou não, assim como ativistas dos movimentos negros. Para a população em geral e para o aguerrido jornal Brooklynite, não havia dúvidas: os crimes eram motivados por ódio racial. Já para a polícia, os homicídios não possuíam relação entre si, muito menos com um suposto serial killer racista.

No entanto, teorias de conspiração começam a surgir e a tensão na cidade chega ao seu limite quando prefeitura, polícia, imprensa e representantes dos movimentos negros continuam a falar cada um à sua maneira, atendendo aos seus princípios – boa parte das vezes distantes e em completo desequilíbrio. Hipóteses das mais tresloucadas surgem sobre quem poderia ser o assassino e sobre o papel do governo dos EUA em todo o ocorrido.

Em uma verdadeira aula de contextualização histórica, Wu Ming 1 mostra conhecimento profundo dos temas postos em jogo, entre eles cultura negra, engajamento social, diferenças humanas, medos, desejos e arte popular, no caso, o jazz. O autor transporta o leitor ao centro dos fervilhantes bairros do Brooklyn e do Harlem nos anos 60. Uma viagem polifônica e nostálgica a dois dos mais genuínos e importantes pólos de efervecência da cultura negra e que, hoje, esvaziados pela especulação imobiliária, são apenas pálidas sombras do que um dia foram e representaram.

Wu Ming

Surgido em 2000, o coletivo de escritores, Wu Ming, compõem uma bem-sucedida rede internacional de sabotagem midiática e guerrilha cultural que abarca o universo do cinema, teatro, quadrinhos, artes plásticas, projetos multimídia e literatura. "Wu - Ming" é uma expressão chinesa, significa "sem nome" ou "cinco nomes", dependendo de como se pronuncia a primeira sílaba.

O nome do grupo tem tanto a intenção de homenagear a dissidência ("Wu Ming" é uma assinatura muito comum entre os cidadãos chineses que pedem democracia e liberdade de expressão) quanto de rejeitar a máquina de fabricar celebridades cuja linha de montagem transforma o autor em astro. A rigor, no entanto, os elementos do grupo não se dizem anônimos anônimos.

– Nossos nomes não são um segredo. No entanto, usamos cinco nomes artísticos formados pelo nome do grupo mais um número, seguindo a ordem alfabética dos nossos sobrenomes – explica Wo Ming 1, ou melhor, Roberto Bui, que é acompanhado por Giovanni Cattabriga, Wu Ming 2; Luca Di Meo, Wu Ming 3; Federico Guglielmi, Wu Ming 4; e Riccardo Pedrini, Wu Ming 5.

Entre 2000 e 2006, a obra de maior destaque internacional do grupo está no romance 54 (Conrad, 2005), thriller de espionagem internacional envolvendo o ator Cary Grant, o ditador iugoslavo Marechal Tito e o mafioso Lucky Luciano. Os membros do grupo também escreveram livros "solo", entre eles, New Thing, de Wu Ming 1, lançado em 2004 e só agora traduzido para o português. Ainda na praia do jazz, em 2007, também foi lançada uma coletânea de jazz dos anos 60 organizada por Wu Ming 1, The Old New Thing (composto por 2 CDs e um livro).

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