
Em uma hora e meia de show, os californianos do Incubus compilaram seus 16 anos de carreira em 18 músicas. Como em todo empacotamento musical o resultado não foi dos melhores e talvez por isso não tenha lavado a alma das mais de duas mil pessoas que encheram boa parte do Citibank Hall.
Nice to know you foi o cartão de visitas, muito bem recebido pelo público, a canção foi sucedida pela sua irmã musical, Wish you were here. A galera, ao delírio, entoava em uníssono os pegajosos versos do refrão e identificava, aos primeiros acordes, todas as canções do repertório. Anna Molly, Dig e a urgentíssima Megalomaniac foram responsáveis por momentos catárticos, o público realmente deu um show à parte.
O problema é que o espetáculo, previsto pra estar em cima do palco, muita das vezes vinha de algum crooner inconvenientemente instalado a menos de 10 centímetros da sua orelha. Pouco se ouvia os versos proferidos pelo sujeito de pé no meio do palco, talvez pelo som mal-equalizado da casa. Olhar enviesado daqui, um tranco de ombros acolá. Centenas de Brandon Boyds infestavam o ambiente. O cantor, por sua vez, mantinha-se distante, alheio à empolgação de seus asseclas. Suas excelentes interpretações foram minimizadas pela barulheira da platéia e de sua banda, que infelizmente abafaram a clareza de seus vocais. O Citibank Hall precisa rever seu sistema de som. Problema semelhante ocorreu há alguns meses no show do Velvet Revolver, quando a voz de Scott Weiland mal era ouvida.
Boydmania
No entanto, a emoção do show foi mais do que garantida para as groupies, que suspiraram pelo strip parcial de Boyd. Já os marmanjos puderam, ao menos, se deleitar com a execução tecnicamente perfeita de todas as canções apresentadas pela banda, que não deixou de surpreender. Destaque para o baixista Ben Kenney e para o baterista José Pasillas II.
Suspirar, realmente, era a palavra de ordem. Sem bate-papo com o público a banda arremessou uma música atrás da outra: 15 sem descanso e mais três no bis. O show, no entanto, foi irregular, justamente pela mescla que a banda fez de composições de toda a carreira. As faixas dos primeiros CDs, que fizeram esfriar o meio do espetáculo, destoavam da qualidade e sofisticação das produções de A crow left to murder e Light grenades, dois últimos trabalhos. Era claro notar a evolução da banda e entender o porquê da legião de fãs que se descabelavam e imitavam o líder Boyd.
Imitações ao estilo do cantor foi o que não faltou na noite. Garotos magrelos desfilavam intocáveis, com seus indefectíveis chapeuzinhos pretos, camiseta regata, bermudas, calças largas e tatoos tribais pelo corpo. Flanavam seguros, dentro da fantasia blasé de superstars. Mítico universo Rock n’Roll. Modelo descolado, de boa forma física, trejeitos afetados e excelente voz, o líder da banda congregou em perfeita harmonia groupies histéricas, rockers esqueléticos e surfers bombadinhos, que rezavam à cartilha da persona Brandon Boyd.
Ficou um gosto de quero mais, mistura de indignação, êxtase e encantamento. Uma bandeira do Brasil permaneceu intocada a frente de um amplificador. Para o Incubus o show foi, literalmente, um rio que passou em suas vidas. Não há melhor definição. Justamente por isso a faixa Pardon me era a mais aguardada ao final do show. Era o grito de redenção esperado pela platéia carioca, que merece pedido de desculpas triplo: não tocaram uma das faixas mais importantes do repertório, pela demora de vir ao país e pela frieza com que foi conduzida boa parte do show. Com algumas dezenas de obrigados xoxos, o líder da banda se despediu sem se impressionar com a devoção de seus fiéis entusiastas.
Fotos: http://www.flickr.com/photos/taiarock/